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Ivan e Domiciana

1
Peterso Rissatti · São Paulo, SP
3/7/2008 · 96 · 10
 

“Sua égua! Palerma. Fica aí que eu tô chegando.”

Seus olhos marejaram. Ouvira daquele que tanto amava tamanha grosseria. Doía em seu peito aquela rispidez na voz. Lanhava-lhe o rosto como as garras dum bicho incontrolável. As lágrimas escorriam de seu olhos vermelhos. Sangue.

Égua. Palerma. Fica aí.

Não podia querer isso. Não suportava. Era moça ainda, não podia estar à mercê de um homem grotesco como ele. Égua. Sentia nas suas veias minguar o que tinha de mais precioso, seu calor, o coração lhe brotava da boca em soluços. Palerma. Era assim que a via, uma estúpida a seu bel prazer. Sangue. Seu passado, como um filme realista, projetava-se à sua frente. E como era linda. Agora era cinza, uma pedra. Adorava trajar vestidos coloridos, maquiagem bonita, seus cabelos tinham viço, negros como da índia da música, como a graúna de Iracema. Hoje suas madeixas perdiam o brilho, seu rosto era talhado em sofrimento e autopiedade, suas roupas davam dó, não pelo estado, mas pela sua falta de vida. Monocromática.

Era inteligente também, lia tudo que à mão lhe vinha, incansável pelo saber. Os clássicos brasileiros lera todos, até os estrangeiros já lhe encantavam quando o conheceu. Desde então sua vida se resumia ao seus caprichos, aos seus mandos e desmandos. Arrumara um empreguinho de manicure e se esforçava para ter um pouco de dinheiro para si. Via o amor como uma gosma pegajosa que lhe paralisava a mente, o corpo, os olhos. Aquela doença que chamavam de amor lhe deixava aleijada do mundo, sentia o torpor do sentimento que os poetas exaltavam como nobre. Mentira. Sangue.

Esperava por ele numa rua movimentada. Sentia vergonha por seus olhos vermelhos de choro, as pessoas olhavam com pena, tinha vontade de lhes perguntar o que havia, se nunca tinham visto uma mulher chorar. Não tinha forças, ele as minara de seu peito. Esperava para voltarem para casa, ele talvez tivera um dia ruim, ela deveria entender. À merda, pensou, não preciso entender nada, ele que se segure da próxima vez. Não ficaria assim, aquele disparate seria o último, não suportava mais uma gota daquele fel que ele vomitava em seu peito, em seus olhos, cegando-a, manchando sua vida, seus sonhos, suas fantasias.

Um sorriso lhe brotou do rosto. Avistou numa larga vitrine iluminada um vestido de um vermelho vivo, longo. A manequim dançava à sua frente, rodopiava em sua mente, o tecido leve esvoaçava pelo vidro límpido, fazia um barulhinho de onda do mar quando tocava o chão branco, as paredes brancas. Os detalhes brilhantes no decote ousado reluziam sob as lâmpadas dicróicas, quentes luzes sobre sua cabeça. Ela dançava e as pessoas olhavam, admiradas, maravilhadas com seus negros cabelos soltos em giros cada vez mais fortes. Ouvia músicas retumbantes, seu peito arfava de felicidade. O vermelho lhe tomara as unhas, os braços, as pernas, o sexo, os olhos, os cabelos, era toda vermelha. Uma tocha, ardia e crepitava, levitava, rodopiava.

“Porra, você não tem jeito. Me liga pra falar que vai ver vestido não sei onde, sabe que eu trabalho o dia todo e quero ir pra casa e você quer passear? Faça-me o favor.”

Tanto quanto ele, ela trabalhava. Doía em seu peito. Sangue. Não suportava mais.

“Você fica de putaria o dia inteiro naquele trabalho, não faz bosta nenhuma, ganha merda nenhuma e ainda quer ficar dondocando? Idiota, isso que você é.”

Aos gritos me humilha, pensa ela. Em silêncio eu te calo. Lágrimas brotavam de seus olhos, mas a tristeza dera lugar ao vermelho.

“Agora vamos pra casa. Tô cansado desse centro. Cansado de tudo. De você inclusive.”

“Eu não vou.”

“Quê?”

“Eu não vou.”

“Tá louca, mulher? Você enlouqueceu? Vou ter que te levar à força, é isso?”

“Eu não...”

Ele pega em seu braço, sua mão envolve todo seu punho. Coloca a mão dentro da bolsa, procura algo. Ele aperta seu braço com força, seus olhos saltam do rosto em fúria, ele levanta a mão para um tapa. O golpe é certeiro.

Ela sorri. Olha o homem caído no chão, com o alicate de unha cravado no pescoço, na jugular. Sangra até a morte, porco imundo, pensa ela. Vira as costas, pessoas gritam desesperadas, o tumulto é grande, ninguém a percebe. Ela é imperceptível, magra, cabelos sem brilho, olhos fundos, longo vestido preto, como de luto. Quem fez isso, grita alguém, quem fez? Ninguém viu. Foi rápida, certeira, como nunca havia sido. Caminha lentamente, em direção ao ponto de ônibus. Pensa que nem ela, nem ninguém mais sofrerá com o crápula. Nem os filhos, nem os próprios irmãos dele sentirão falta. Malquisto. Mal visto. Um segundo de medo lhe toma o peito, como num furacão, desgoverna sua mente. Ela se ampara na parede de um prédio bonito. O porteiro lhe pergunta se está tudo bem, se precisa de algo. Ela diz “não, já tenho tudo que preciso agora”. Se era uma assassina, disso não tinha dúvida. A única dúvida que ainda pairava em sua cabeça era por que não havia feito isso antes...

E o vermelho, tão lindo, guiou seus olhos até o infinito da tarde cinza.

Sobre a obra

Domiciana, menina tão linda, colorida, perde toda a sua cor sob o jugo maldito de Ivan, seu terrível marido. Até que o vermelho toma conta de seu destino.

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Peterso Rissatti, o maluco.
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AbraAo
 

Peterso,

Que escrita maravilhosa, vida de uma mulher mocoromaticamente submissa, a vinda se esvaindo na selvageria do seu tirano que lhe tira a cor e o amor, inclusive à própria vida.
"Mata quem está te matando" ouvi um dia meu pai dizerisso a um mendigo faminto que bateu na porta da nossa casa.
E há essa fome de viver que se apossa dessa mulher e a faz matar aquele que a estava matando sem vida.
Muito bom mesmo, e esse estilo crônica-urbana com crônicas da vida privada, que tem muitos e sutis elementos. Parabéns,

AbraAo · Rio Branco, AC 29/6/2008 20:43
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Marcos Pontes
 

Esse tal de amor... O bicho tem parte co o Cão. Tem auto-gênese e some quando quer. Ele controla, não adianta tentar laçá-lo. Anda de mãos dadas com seus irmãos mal-criados: o ódio, a auto-piedade, a cegueira, a imbecilidade... Vem, faz o estrago e some, deixando as carcaças para os irmãos se banquetearem. Como sempre, um primor.

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 30/6/2008 07:53
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silviaraujomotta
 

Gostei .Votei
Um bj
Sílvia

silviaraujomotta · Belo Horizonte, MG 1/7/2008 19:59
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clara arruda
 

Passando para deixar meu carinho (INATIVA)

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 2/7/2008 04:40
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celina vasques
 

Votadissimo amigo poeta!

beijos

celina vasques · Manaus, AM 2/7/2008 09:46
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Myrandella
 

O desenrolar da história é bárbaro, de um ritmo instigante.
Votado!

Myrandella · Vitória da Conquista, BA 2/7/2008 23:30
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

fantástico,votei.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 3/7/2008 12:55
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Zingara RJ
 

muito bom o texto! parabéns...

beijos no coração...

Zingara RJ · Rio de Janeiro, RJ 3/7/2008 13:43
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Saramar
 

Como sempre, um texto primoroso e uma personagem que, mesmo sem nome, é marcante e forte, como o vermelho que a toma, que novamente a colore, como o sangue...

Gostei imensamente.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 3/7/2008 14:41
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Márcia Olivieri
 

Parabéns...Pioneiro!!!

Márcia Olivieri · São Paulo, SP 4/7/2008 01:19
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