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Jade não quer morrer

Roberta Tum
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Roberta Tum · Palmas, TO
4/3/2007 · 124 · 19
 

Ela nasceu na casa velha da antiga Arne 13, nos idos de 94, fim de ano. Sua mãe era a “Vamp”, cachorrinha rueira, branca, com manchas em marrom que não saia lá de casa. O vizinho da frente, “pai” da Vamp, tinha trocado de mulher, e a nova “madrasta” não dava muita atenção, e nem comida para aquela vira-lata cheia de personalidade. E a Vamp, que de boba não tinha nada, atravessava a rua religiosamente todos os dias. De manhã ia fazer festa, na hora do almoço, ia garantir o rango, e à noite se dividia entre vigiar a nossa casa, e a dela. “Cachorro escolhe o dono”, dizia uma amiga, defensora ferrenha dos direitos dos animais. Escolhe mesmo, e a Vamp escolheu a gente. Conclusão: depois que pariu (lá em casa), ficamos com a Jade, filha daquela cria, que ganhou este nome antes da novela – diga-se de passagem.

Toda marrom, com as patinhas brancas e uma mancha estilosa da mesma cor no peito, ela era linda e desde cedo caiu nas graças dos amigos. Mistura de várias raças, lembra mais um basset, mas lá no fundo, Jade não nega a raça que tem (ou a falta dela). Ficou rueira como a mãe, encrenqueira como todo bom vira-lata que se preze, corajosa como ela só. E assim fomos vivendo, nós e ela. Primeiro veio a mudança de casa e de setor. Antes de completar um ano, ela teve que dividir as atenções com o Matheus, meu sobrinho, que nasceu no fim de julho para encher a casa de mais alegria. “Jade, não!”, eu dizia – cheia de autoridade, e ela aprendeu que não podia ultrapassar o limite do batente da porta. “Jaaade!”, bastava dizer, séria, e ela suspendia a marcha rumo à rua, e dava meia volta do portão pra dentro.

Dias difíceis vieram, e com eles a necessidade de trocar a casa por um apartamento. E agora? O que fazer com Jade e seus três filhotes: Munir Francisco, Pitchula e Luna? Sim, por que ao parir, todos arranjaram donos. Estes, por sua vez, foram embora, mudaram de cidade, e os “inquilinos” voltaram lá pra casa, certos de que seriam acolhidos. Agora, a família grande requeria mais espaço. Aí estava o problema. Apartamento alugado, e lá vamos nós com os cães para a chácara. Vida de liberdade e aventuras para os três filhotes. Mas para ela? Qual, o quê! Jade é fina meu bem, e se sentiu completamente deslocada no ambiente rural.

Dava graça vê-la andando na ponta da pata entre as trilhas de cascalho. Seus dias se passavam na área da casa de seu Antônio, o caseiro, todo paciente e cuidadoso com todos eles. Arroz sem carne? Ração? Jamais! Mal acostumada ela só comia ração após três dias de dieta forçada. E assim vivemos, até que outros anos se passaram e surgiu de novo a oportunidade de morar numa casa. Ali, com quintal, construímos um canil, e trouxemos a imensa família canina. Bairro tranqüilo,com jeitão de interior, e uma cachorrada sem fim solta pela rua, lá se foi a Jade reinar na vizinhança. Agora já era uma senhora, mas como sempre educadíssima, sensibilíssima, daquelas cadelas que reconhecem o humor do dono pelo olhar.

Altiva, ela recebeu a novidade sem muita alegria. Foi à esta altura que a vida da Jade mudou. A concorrência chegou em forma de um pintcher nº 01, a Dara. Esta, privilegiada, podia dormir dentro de casa, andar de carro com a dona – coisa que ela só fizera nos primeiros meses de vida. Profundamente ultrajada, ela passou a viver cabisbaixa. Indignada, e inconformada em ser relegada ao segundo plano nas preferências, passou a reagir com ciúmes indisfarçáveis. Seu latido nervoso denunciava o que considerava a maior das injustiças: ter que dormir no canil em dias de chuva.

Do bairro de volta para o centro da cidade, Jade já chegou de volta velhinha. Idosa, do alto dos seus 13 anos de vida (quase 80 pra nós), se impôs na condição de rainha do lar. Agora era ela quem colocava os limites para a mais nova. (...)

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Autoria
Roberta Tum
Ficha técnica
Sou jornalista por vocação, escrevo por necessidade da alma, e já nem sem mais desde quando crio animais de estimação. Esta crônica é uma despedida meio sem querer, para minha companheirinha Jade. Uma linda vira-lata que vive comigo há 13 anos.
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Cida Almeida
 

E Jade não poderia ter melhor biógrafa. Que bela, sensível e comovente crônica. Assim, com sua prosa saborosa fui entrando no universo de Jade e até cheguei a sentí-la. Sei o que é isso. Eu que nunca pensei em ter cães, hoje tenho quatro: a Mel, o Fred (Lorde Fedegoso), e os filhotes do casal, Frida e Shubi. Essa relação com bicho, especialmente cães, é o "Bicho"!

Cida Almeida · Goiânia, GO 1/3/2007 13:33
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Higor Assis
 

Roberta se não morasse longe apresentaria o Billy para a Jade rs...

Um dica, o que acha de colocar espaços (uma linha) entre os paragrafos, ficaria mais suave a leitura e que tal uma pitada de Jade (fotinha).

Abraços...

Obs: Jamais ela vai morrer..

Higor Assis · São Paulo, SP 2/3/2007 06:40
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Roberta Tum
 

Higor, adorei suas dicas. Vou providenciar!
Bj

Roberta Tum · Palmas, TO 2/3/2007 06:47
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Bia Marques
 

mexeu mesmo com a minha emoção e reavivou a memória dos bichos todos que habitam minha história.

Bia Marques · Campo Grande, MS 3/3/2007 17:49
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Roberta Tum
 

Bia, fico feliz que tenhamos nos encontrado em memórias e sentimentos comuns! Valeu o comentário!

Roberta Tum · Palmas, TO 5/3/2007 07:39
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Flávio Herculano
 

Bela e sensível crônica.

Moro em quitinete. Antes, em AP. Nossa, sinto muita falta de um bichinho, cheio de personalidade como só eles.

Flávio Herculano · Palmas, TO 5/3/2007 09:00
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marcio rufino
 

Muito sensível este conto. É de um lirismo bem particular, acompanhado de uma finíssima melancolia!
Bjs!

marcio rufino · Belford Roxo, RJ 5/3/2007 12:56
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Roberta Tum
 

Oi Herculano! Ter um bicho é compartilhar a vida né? em outra estação, lógico, bem particular. Obrigada por ter comentado!
Márcio, agradecida! Não há como evitar a melancolia diante de
um fim eminente, e das lembranças, não é mesmo?
Abçs

Roberta Tum · Palmas, TO 5/3/2007 15:08
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Tacilda Aquino
 

Adorei sua declaração de amor à Jade. Os bichos de estimação são realmente o bicho, como diz a Cida. Eu sempre tive um em casa e quando chegava a hora deles partirem era aquela tristeza só e o firme propósito de não arrumar outro. Hoje tenho a Dandara, que tem a Magali como madrinha. Até o dia 26 de janeiro tive a alegria de desfrutar do amor e da lealdade do Bambam, um york que foi o rei do pedaço por 12 anos. Quando a Dandara chegou ele ficou cheio de ciúmes, mas impôs respeito, a ponto da Dandara só comer depois que ele acabava.
Nunca quis cachorros da mesma raça porque parecia que a gente estava tentando substituir. Mas cada um é cada um. A Hollie, minha cocker, que conviveu uns tempos com o Bambam, viveu 16 anos.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 7/3/2007 15:25
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Roberta Tum
 

Obrigada Tacilda! Na verdade eles são companheiros de uma vida. Também digo sempre que não vou criar outros, e quando percebo, tem sempre um novo em casa, antes que o mais velho parta. Não há como negar que eles também fazem parte da família!

Roberta Tum · Palmas, TO 7/3/2007 15:34
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Antonio Rezende
 

Você reacendeu meu desejo de voltar a mexer nuns escritos engavetados sobre os "admiráveis cães da infância". Eles foram tantos. Um deles, o Tupi, ganhado de umas freiras, fez história junto à nossa família e morreu de velhice. Lembro-me também de Chiquita. Depois de velha se "apaixonou" por um estranho e fugiu de casa deixando-nos tristes. Até hoje não consigo viver sem um desses amigos. Brutus, o cão da vez. Chegou aquela bolinha miúda que a gente pega com afeto. Já caminha para os quatro anos ou mais, reinando sozinho. É sucessor de Rude, um boxer albino lindo e inteligente que também morreu velhinho. Ah... esses admiráveis cães da infância e de toda a vida da gente! Salve, Roberta!

Antonio Rezende · Palmas, TO 8/3/2007 00:59
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Roberta Tum
 

Rezende, obrigada por compartilhar suas memórias de família canina aqui com a gente! Salve você e sua prosa gostosa de ler!
Bj

Roberta Tum · Palmas, TO 8/3/2007 10:32
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Celio Soares Jr
 

emoção..... adorei!

Celio Soares Jr · Pelotas, RS 12/3/2007 23:22
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Roberta Tum
 

Célio, obrigada pela visita e pelos comentários. é bom compartilhar..
Abço!

Roberta Tum · Palmas, TO 13/3/2007 09:29
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Leandróide
 

Comovente, Roberta! Lembrei dos dias finais de minha cadelinha collie, chamada Myrna, com y mesmo, que viveu não tanto quanto a Jade mas nos deu bastante trabalho e alegrias. Antes dela tivemos outro collie, o Nick, que morreu jovem, envenenado por algum animal.

Não sei porque esse fascínio por esses bichinhos. Dá vontade de acolher a todos, não é? ?Entupir a casa com esses serezinhos. Atualmente, depois de anos sem cães, em 2000 minha irmã comprou um chiuaua. Sheldon é uma figura, pequeno porém feroz.

Abraço e tudo de bom!

Leandróide · Florianópolis, SC 14/3/2007 12:01
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Roberta Tum
 

Obrigada Leandro. Realmente, dá vontade encher a casa. Eu já cheguei a criar cinco de uma vez. Agora são duas lá em casa. A resistente Jade e a Darinha, que aliás, ia gostar do Sheldon! Rs..
Abração!

Roberta Tum · Palmas, TO 14/3/2007 15:17
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Renata Tum
 

Robertinha, querida, Jademar é minha filha, lembra? rs, rs, rs.
Foi ela minha única companheira durante os difíceis meses de gestação. Minha eterna Jade.

Renata Tum · Palmas, TO 19/3/2007 14:32
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Roberta Tum
 

Rss.... tá certo, vou dividir a maternidade com vc que ajudou a criar!

Roberta Tum · Palmas, TO 20/3/2007 09:19
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carlos magno
 

Ô Roberta, é muito bacana este teu trabalho. Parabéns.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 20/5/2007 20:44
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