JARDIM DE TROVAS
Artista da Natureza,
Deus moldou com mãos de bamba
esse mar que é uma beleza,
com maré que canta e samba.
O mar com pobres parece
na virtude que Deus deu.
Tarda mas jamais esquece:
devolve o que não é seu.
Um arco-íris encantado
em mil tons de claro & escuro,
a foto é belo passado
presente em nosso futuro.
rimas feias (que importa !)
novas trovas vou compondo.
De pé quebrado, mão torta...
quero é continuar trovando !
Depois de tanto tormento
eu me descasei de fato.
O "poster" do casamento
virou foto 3 x 4 !
Mais um ano é passado...
um outro, novo, vem vindo
e o sonho náo-realizado
é esperança ressurgindo.
Ano Novo, vida nova...
um longo adeus vamos dando
ao velho, que se renova,
nas festas que vêm chegando.
Disse-me a esposa, atrevida:
-- "Eu vou de biquini à rua"!
Pensei que fosse vestida,
mas ela foi quase nua.
Deus nos deu tal esperança,
que nossas forças sustenta.
Nos virá sempre a bonança
depois da dura tormenta.
Quando o amor se desespera
na intensa dor da saudade
cada minuto de espera
parece uma eternidade.
Quando meu bem se despede
no triste aceno de um lenço,
junto ao adeus que sucede
eu sinto o beijo do vento.
A água que nos alimenta
e torna as vilas floridas
é a mesma que, na tormenta,
arrasa casas e vidas.
Todo jovem sem estudo
se parece com a estrada
que, à pretexto de ir a tudo,
às vezes não chega a nada.
Interrompida, fechada
ou livre e desimpedida,
perfeita ou esburacada...
bem a Estrada imita a Vida.
A Vida passa qual trem,
com variado itinerário,
andando num vai-e-vem
sempre no mesmo cenário.
A Vida é belo cenário
no qual cumprimos a sina
de rei, jogral, operário
e a Morte cerra a cortina.
Nação das mais desastradas
meu Brasil, num dito seco...
"seguiu por tantas estradas
mas acabou foi num bêco"!
Em tempos nada comuns
eis que a rua é, no fundo,
perdição e mal de alguns,
sustento de todo mundo.
Embora até não pareça
é qual coberta o salário
pois, quando cobre a cabeça,
descobre os pés do operário.
Com o coração na lua
e o pensamento disperso
olho o fim da minha rua
e vejo todo o Universo.
Presente de mágoas & dores
mas de passado tão belo,
nação de todas as cores...
meu Brasil verde-amarelo !
Jesus à Terra voltando
e, em guerra o mundo de lá,
sem hesitar e exultando
nasce em Belém... do Pará !
Sei que é verdade sentida
(parece até brincadeira):
de tanto "dançar" na vida
acabei na Capoeira.
Filho, acorda para a Vida,
do futuro siga o rumo.
Não use droga ou bebida,
não seja escravo do fumo.
Quando só na ampla casa
me vi chorando na mesa
na dor que o pranto extravasa...
foi saudade ou foi tristeza ?
Enquanto alguns têm no drama
triste orquestra de seu dia,
muita gente vive a chama
de uma eterna melodia.
Na Vida há caminhos loucos,
com belo ou triste cenário:
autoestrada para poucos,
prá maior parte calvário.
Tantos caminhos na Vida,
tão promissora a jornada...
indeciso na partida
me perdi na encruzilhada.
**********************************************
Resolvem tudo na roça:
febres, casórios,charadas...
são motivo até de troça
três santinhos camaradas.
-- "Filha, que enorme barriga,
o que sucede contigo"?!
-- "Mamãe, deve ser lombriga
ou inflamação do umbigo"!
Belo arauto é o carteiro
de mensagens de esperança,
aguardado mensageiro
da saudade e da lembrança.
Caminho é, em suma, a Vida
de fortuna, cruzes, dores;
alegre, dura ou sofrida
estrada de pedra e flores.
Na aula o mestre é só dilema
e tem problemas daí:
-- "Fessô, sei 'screvê porbema...
u pubrema é qui 'squici"!
Supera todos problemas,
dramas, infelicidade;
cruza a Vida e seus dilemas
conservando a dignidade.
Bem diz o velho ditado:
"não vá ao Mundo abraçando".
Quem a todos faz agrado
acaba desagradando.
Gaúcho que o vento embala
com ar de prazer profundo,
o campo é a tua sala
e as coxilhas são teu mundo.
Pior que o quiabo meloso
que nosso humor azeda
é o risinho pegajoso
dos que assistem nossa queda.
Só uns poucos, como o sol,
brilham em mil e um caminhos.
Muitos, qual triste farol,
passam a vida sozinhos.
Crianças se divertindo
na chuva, ao lado dos seus,
parecem anjos sorrindo
sendo banhados por Deus.
Quem faz troça da desgraça
do amigo esquece o ditado
de que fogo só tem graça
quando é na casa do lado.
-- "É tanta hoje a cobrança
(disse o velho, num suspiro)
que, tenho a desconfiança,
vão cobrar o ar que respiro"!
Se pedes a alguém dinheiro
tens, por justiça, entender
que o mandamento primeiro
é o dever de não dever.
Engoli "sapo" e "pepino"
mas o fiz inconformado,
que o que me deu o Destino
nunca foi do meu agrado.
Na escola a lição mais alta
é de sentido sublime:]
dever deveres é falta,
faltar ao dever é crime !
O Sol, que nos dá a vida,
às vezes por inclemência
destrói, arrasa, invalida,
impede a sobrevivência.
Dos absurdos dou risada
mas, às vezes, me confundo...
quem merece não ter nada
sonha ser dono do Mundo.
Na praia, de olhos tristonhos,
se o pensamento vagueia
sinto que a Vida e seus sonhos
são como água e areia.
As praias e os pobres têm
atitudes parecidas:
em constante vai-e-vem
vão levando suas vidas.
Brilha o sol e os raios seus
me dão imensa alegria
pois sei que, graças a Deus,
eu mereço mais um dia.
Chove muito, sem parar
e a chuva verdade encerra:
parece os céus a lavar
tod'os pecados da Terra.
O Mundo, Deus assim quiz,
faz-se sem nenhum favor
para alguns parque feliz
e, aos demais, circo de horror.
Esqueçamos desavenças,
êrros, ódios e deslizes.
Aplainemos diferenças...
sejamos, enfim, felizes.
No balanço da cadeira
a vovó, com alvas tranças,
recorda uma vida inteira
plena de belas lembranças.
Se acaso a Vida nos prostra
frente a seus mil e um perigos,
com surpresa ela nos mostra
os verdadeiros amigos.
Uma surpresa graúda
na vida de todos cabe:
quanto mais a gente estuda
vai vendo que menos sabe.
Ditado mais que perfeito,
que nos cabe muito bem:
nunca se está sdatisfeito
com a vida que se tem !
A mais sagrada verdade
na boca de quem não presta
vira, até sem má vontade,
mentira bem indigesta.
A mentira tem dois lados,
sei que isso ninguém desmente:
o dos que a ouvem calados
e o dos que a contam prá gente!
"NATO" AZEVEDO
(RESUMO da produção de 1995/98)
Esse JARDIM DE TROVAS reúne parte de extensa produção de "quadrinhas" populares, perto de 600 trovas, criadas entre 1995 e 2006, boa parte publicadas em folhetos xerogravados, sob o titulo acima, entre 1999 e 2005 e enviados via Correios para amigos em várias partes do Brasil.
Rapaz, que habilidade para fazer quadrinhas!.. Você é nota 10.
Isabel Furini · Curitiba, PR 28/1/2009 21:48
nato,
gostei demais desse jardim
impossivel elogiar só uma trova.
todas são demais!
bjs
Gostei muito. Lindo de dizer que no fim de nossa rua, está todo o Universo.
Votado. Ivette G M
Meninas ISABEL / DORONI e IVETTE.. é um prazer receber vossa visita. Fico envaidecido com os comentários. Poebeijos virtuais!
OBS.: na quarta "quadrinha" faltou a palavra inicial do primeiro verso, que é... COM RIMAS FEIAS (QUE IMPORTA !) e a referência sobre PÉ QUEBRADO significa (para os leigos em poesia) verso com métrica insuficiente, incompleta.
Já a MÃO TORTA tem seu sentido: como sou canhoto, torço a munheca de tal jeito que assusta quem não está acostumado. "A mão do Demo", como se dizia nos nossos tempos de colegial (nos anos 60) não podia ser usada para escrever, aliás, para coisa alguma. Daí eu ser ambidestro, por pura imposição das professoras daquela época.
maravilhosos versos.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 30/1/2009 15:07
O mar com pobres parece
na virtude que Deus deu.
Tarda mas jamais esquece:
devolve o que não é seu.
Esse trecho me lembrou o dia seguinte a passagem de ano,quando a praia fica cheia de sujeiras por todo lado e eu costumo dizer que o mar está vomitando o que jogaram nele na noite anterior,devolvendo o que não é dele
Um beijo e pubicado com louvor
cara, muito bom! eu sou um admirador incondicional do formato de trova e posso dizer que você o domina bem.
fora que fiquei curiosíssimo com esses folhetos que ia pelo correio...
:D
valeu.
A morte cerra a cortina
Tão cretina!
Não sei se aí as pessoas,
a platéia tbem assim o é (?)
Estava com saudade, morrendo de saudades
de sua poesia tão verdade....
HUUUMMM... amigos novos e antigos me visitando. Sejam todos benvindos! Grato ao W. MARQUES e à amada CINTHIA pelos fraternos comentários. Por falar em saudade...
"DE saudade se vive, de saudade se morre !
eu não quero morrer de saudade...
eu quero viver
essa saudade imensa
que sinto de você"!
(de SÔNIA BARRETO, em 1955/RJ)
Ah, dona AILUJ... por falar em "devolver", no caso citado por você a virtude é só do mar. Nós, espiritos de porco, só fazemos desrespeitá-lo e agredí-lo. Aliás, aquela macumbagem toda, no primeiro dia do ano, deveria ser obrigada a LIMPAR a praia, após seu cerimonial. Adoro o lado folclórico desse sincretismo religioso, mas jamais concordarei com aquela emporcalhação de nossas praias, até porque eu jogava bola na praia no dia seguinte e vi mui8ta gente de pé cortado por cacos de garrafa.
HERALDO, meu camarada... já que gostou desse "aperitivo", aguarde que vem muito mais por aí. Estou fazendo uma seleção entre as quase 600 trovas (ou mais) produzidas nesses 13 anos.
A caminhada do poeta não tem chegada: uma parada ali, outra acolá... Senta numa ribanceira dum riacho, mexe os pés n'água, fazendo redemoinho... Descobre uma ave diferente, responde imitando o sapo que coacha algures, lamenta a amada deixada alhures... Um dia ele pega com sua mão torta de artífice nato da palavra e a poesia surge, não sem antes seu olhar vislumbrar suas trovas germinando no jardim selvagem da Vida... Abraços, grande Nato...
Pepê Mattos · Macapá, AP 31/1/2009 22:59
PEPÊ, vate querido dessas plagas literárias... assim você me faz chorar. Belo comentário, so nos envaidece ainda mais. GRATO POR TUDO!
"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 1/2/2009 16:55Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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