JOÃO BOSCO E ALDIR BLANC: INSPIRAÇÃO EM MAIAKOVSKI

1
Abílio Neto · Abreu e Lima, PE
4/9/2012 · 8 · 2
 

E ENTÃO, QUE QUEREIS?...

Fiz ranger as folhas de jornal

abrindo-lhes as pálpebras piscantes.

E logo

de cada fronteira distante

subiu um cheiro de pólvora

perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos

nada de novo há

no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,

é certo,

mas também por que razão

haveríamos de ficar tristes?

O mar da história

é agitado.

As ameaças

e as guerras

havemos de atravessá-las,

rompê-las ao meio,

cortando-as

como uma quilha corta

as ondas.

Maiakovski(1927)

Vladimir Maiakovski nasceu e passou a infância na aldeia de Bagdádi, nos arredores de Kutaíssi (hoje Maiakóvski), na Geórgia - Rússia. Lá cursou o ginásio e, após a morte súbita do pai, a família ficou na miséria e transferiu-se para Moscou, onde Vladimir continuou seus estudos. Fortemente impressionado pelo movimento revolucionário russo e impregnado desde cedo de obras socialistas, ingressou aos quinze anos na facção bolchevique do Partido Social-Democrático Operário Russo. Detido em duas ocasiões, foi solto por falta de provas, mas em 1909-1910 passou onze meses na prisão. Entrou na Escola de Belas Artes, onde se encontrou com David Burliuk, que foi o grande incentivador de sua iniciação poética. Os dois amigos fizeram parte do grupo fundador do assim chamado cubo-futurismo russo, ao lado de Khlébnikov, Kamiênski e outros. Foram expulsos da Escola de Belas Artes. Procurando difundir suas concepções artísticas, realizaram viagens pela Rússia. Após a Revolução de Outubro, todo o grupo manifestou sua adesão ao novo regime. Durante a Guerra Civil, Maiakóvski se dedicou a desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início da consolidação do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc. Fundou em 1923 a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), que reuniu a “esquerda das artes”, isto é, os escritores e artistas que pretendiam aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social. Fez inúmeras viagens pelo país, aparecendo diante de vastos auditórios para os quais lia os seus versos. Viajou também pela Europa Ocidental, México e Estados Unidos. Entrou freqüentemente em choque com os “burocratas’’ e com os que pretendiam reduzir a poesia a fórmulas simplistas. Foi homem de grandes paixões, arrebatado e lírico, épico e satírico ao mesmo tempo. Suicidou-se com um tiro em 1930. Sua obra, profundamente revolucionária na forma e nas idéias que defendeu, apresenta-se coerente, original, veemente, una. A linguagem que emprega é a do dia a dia, sem nenhuma consideração pela divisão em temas e vocábulos “poéticos” e “não-poéticos”, a par de uma constante elaboração, que vai desde a invenção vocabular até o inusitado arrojo das rimas. Ao mesmo tempo, o gosto pelo desmesurado, o hiperbólico, alia-se em sua poesia à dimensão crítico-satírica. Criou longos poemas e quadras e dísticos que se gravam na memória; ensaios sobre a arte poética e artigos curtos de jornal; peças de forte sentido social e rápidas cenas sobre assuntos do dia; roteiros de cinema arrojados e fantasiosos e breves filmes de propaganda. Tem exercido influência profunda em todo o desenvolvimento da poesia russa moderna. (Boris Schnaiderman in "Poesia Russa Moderna", Editora Brasiliense, 1985).

Música: Corsário
Autores: João Bosco & Aldir Blanc

Meu coração tropical
está coberto de neve, mas
ferve em seu cofre gelado
e a voz vibra e a mão escreve: mar.
Bendita a lâmina grave
que fere a parede e traz
as febres loucas e breves
que mancham o silêncio e o cais.

Roseirais! Nova Granada de Espanha!
Por você, eu, teu corsário preso
vou partir a geleira azul da solidão
e buscar a mão do mar,
me arrastar até o mar,
procurar o mar.

Mesmo que eu mande em garrafas
mensagens por todo o mar,
meu coração tropical
partirá esse gelo e irá
com as garrafas de náufrago
e as rosas partindo o ar!
Nova Granada de Espanha
e as rosas partindo o ar!


Esta é uma grande canção de João Bosco e Aldir Blanc. A música parece ter se inspirado no poema de Maiakovski acima, principalmente depois que João Bosco antes de cantá-la, declama o poema do poeta russo, o que faz sempre desde 1989, quando ele regravou a canção que tinha gravado em 1981 e que teve Ney Matogrosso como seu primeiro intérprete em 1975, seguido por Elis Regina em 1984. Ney não entendeu bem a força da música que Elis Regina dignificou. Mas a interpretação de um dos seus autores, o próprio João Bosco, considero como a melhor de todas.

Falemos um pouco de João Bosco, este grande talento do Brasil. Quem sabe muito mais dele é Regina Carvalho autora de “O Mineiro Que Traz Felicidade”. Recortei apenas um trecho da sua escrita sobre ele:

“Fazer o acompanhamento exaustivo de uma carreira desde sua primeira gravação (LP João Bosco, RCA, 1972) até a última, a de número 20, (o cd Na Esquina, Epic, 2000), esclarece muitos aspectos do crescimento de um violonista autodidata que "desafina" o violão para tocar da forma incomparável como executa o instrumento - a ponto de ele conseguir tirar peças como o Bolero de Ravel, transmudada para o jeito característico de Bosco: Bolerando com Ravel. Mostra mais ainda: mostra o desenvolvimento de um cantor sem grandes recursos, dono de uma voz de pequena extensão, até chegar a um intérprete que faz o que quer com a voz, a ponto de torná-la mais um instrumento - passa da entonação normal para o falsete como quem brinca; modula, torce, empresta-lhe ironia, pranto, angústia, malícia… O amigo e padrinho de casamento Scliar, o pintor, dizia que João é um trabalhador incansável. Sem dúvida ele o é: tudo que no show parece fluir com a maior espontaneidade e leveza é fruto de um treinamento paciente e tenaz. Bem pensado, bem ensaiado, com repertório da maior qualidade e músicos de excelência - caso contrário, o show terá apenas João, banquinho e violão, e não se precisa de mais nada. Sairá perfeito.”

Agora eu passo a descrever como entendi essa canção desde a gravação de Elis Regina:
“Meu coração tropical está coberto de neve...” O Brasil, um país tropical dominado por uma ditadura militar inspirada nos modelos da Alemanha nazista. A época em que essa canção foi concebida, em 1975, diz tudo.

“Ferve em seu cofre gelado e a voz vibra e a mão escreve...” É uma metáfora contra o governo dos militares porque os artistas, jornalistas, intelectuais e militantes políticos não podiam dizer nada contra aquela ditadura.

“Bendita a lâmina grave que fere a parede e traz as febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais...” Não poderia ser outra coisa do que as canções de artistas expulsos do Brasil pela ditadura, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo, que mesmo na condição de exilados, não deixaram de produzir música com palavras incômodas. Mas se aplica também às expressões proferidas por Dom Hélder contra a opressão e a tirania. A palavra dele seria essa “bendita lâmina”.

Mesmo sendo uma canção repleta de metáforas, a parte “Roseirais! Nova Granada de Espanha! Por você, eu, teu corsário preso, vou partir a geleira azul da solidão e buscar a mão do mar, me arrastar até o mar, procurar o mar...” Nova Granada, eu acho que seria o exílio ou lugar seguro. Não esquecendo que Simon Bolívar se refugiou num local com esse nome de onde incentivou os povos da América do Sul a lutarem por sua independência e liberdade. Por isso foi chamado de “Libertador”. O pernambucano Abreu e Lima, filho do Padre Roma, foi um dos seus grandes generais. “Vou partir a geleira azul da solidão e buscar a mão do mar”, eu entendo como a imaginária tentativa para sair do Brasil fugindo de qualquer jeito, ao tempo em que a repressão e a tortura mais mataram gente, como o jornalista Herzog, “suicidado” no ano em que a música foi feita, em 1975.

“Mesmo que eu mande em garrafas mensagens por todo o mar, meu coração tropical partirá esse gelo e irá com as garrafas de náufrago... e as rosas partindo o ar!” Os compositores através dessa mensagem, revelam que após o calvário de Herzog se sentem encorajados a escrever mensagens claras de esperança. Que a partir da morte desse jornalista, o povo deixou de ter medo da ditadura, criando condições para que profissionais da imprensa não mais precisassem escrever mensagens cifradas ou em código, assim como compositores populares não mais carecessem de se esconder atrás de pseudônimos, a exemplo de Chico Buarque, que fez músicas como Julinho da Adelaide. Mas também poderá ser interpretada como a mensagem de que haverá luta sem violência ou guerra. “As rosas partindo o ar” seria o sonho de que os aviões de bombardeio jogassem flores ao invés de bombas. A canção pode ter vários significados, só não pode ser entendida como a crônica de um amor fracassado como alguns chegaram a pensar.

Finalizando, “Corsário” é uma canção em que o imaginário dos autores esteve a mil Km por minuto. Para mim é uma das mais melancólicas e lindas páginas sonoras já produzidas no Brasil.

Certa vez, Jackson do Pandeiro ficou a observar João Bosco a tocar, cantar e fazer aquele ritmo com a boca. Quando ele parou, Jackson disse que ele era um sujeito muito perigoso. Eu coloco a expressão do superlativo: é perigosíssimo. E me convenci disso ao vê-lo em 1993, ao vivo, em um programa da paulista “Rede de TV Bandeirantes”, que, salvo engano meu, arrecadava fundos para o combate à fome no Brasil, uma campanha empreendida pelo saudoso Betinho. Pois bem, naquela noite já distante, João Bosco se apresentou somente com o auxílio luxuoso do seu violão e sua onomatopéia rítmica. Quando terminou sua apresentação, a platéia foi ao delírio e eu fiquei certo de que ali estava o maior artista vivo do Brasil. Como eu não sou muito ligado em imagem, mas em som, me danei a procurar por vários anos pelo áudio da apresentação do João. E não é que eu consegui. E um áudio com excelente qualidade sonora!

Então, vocês cliquem aqui e ouçam como esse João Bosco é um dos caras mais geniais dos nascidos em Pindorama. É impressionante o seu talento como músico, cantor e ritmista!!!

Sobre a obra

Qual a inspiração de João Bosco e Aldir Blanc para comporem a música "Corsário"? Um poema do poeta russo Maiakovski?

compartilhe



informações

Autoria
Abílio Neto - pesquisador musical
Downloads
348 downloads

comentários feed

+ comentar
Kixaba
 

Mais uma maravilha das Gerais, esse engenheiro que edificou uma das mais belas obras da MPB.

Abçs,

Kleber Araújo - Arcoverde(PE)

Kixaba · Recife, PE 4/9/2012 15:28
sua opinião: subir
Abílio Neto
 

Meu caro Kleber Araújo, é importante informar o seguinte:

A gravação original de Elis para “Corsário” foi feita na TV Bandeirantes, em mesa de 16 canais, no ano de 1976. Em 1984, depois da sua morte (em 1982), a voz gravada no programa de TV serviu de base para serem colocados novos arranjos de Lincoln Olivetti.

Um abraço do

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 4/9/2012 16:10
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 11 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados