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JOÃO PILOURA - Conto

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jjLeandro · Araguaína, TO
11/2/2007 · 101 · 1
 

João Piloura

Aqui se faz, aqui se paga.
Conhecido rifão


João Piloura matou três homens na adolescência. Por achar esse número modesto matou mais três quando adulto. As três primeiras mortes provocaram-lhe náuseas e ele vomitou após cada uma delas. Nas três últimas a reação foi distinta e sentiu calafrios pelo corpo. Após cada crime pensava na vida mas também na morte, essa coisa indesejada mas nunca esquecida. Na adolescência, marcou-o sobretudo a inusitada excitação. Em adulto, já remisso a essas emoções iniciais, talvez o instinto o tenha feito perceber que a morte sempre próxima era tangível também para si. E o instinto, apenas ele, já que carecia de juízo, emitiu o sinal inequívoco da hora de parar. João Piloura parou. Mudou de cidade, tornou-se arredio e solitário. Adquiriu uma cabana e começou no insulamento de um bosque uma luta atroz contra os fantasmas que o perseguiam dia e noite.
Passou a demonstrar evidentes sintomas de um homem que temia retaliações.
O sono era leve e curto quando existia. Tornou-se um ser sobressaltado, para quem o mais suave canto de um pássaro que rompesse o silêncio instável da floresta era uma comunicação ardilosa entre inimigos que se aproximavam para emboscá-lo. Tomava por furtivo roçar de corpos nos galhos das árvores a constante blandícia do vento nas altas franças. O ouvido alerta, já traído pela tensão constante, interpretava como passos cautelosos de um grupo de captura na serapilheira a abundante e quase imperceptível queda de folhas secas no outono. Via com freqüência no breu da noite homens que o queriam liquidar. Não recebia visita de espécie alguma, nem as desejava. Por duas vezes em três anos mudou de exílio após surpreender caçadores errantes em sua cabana. A cada fuga procurava brenhas menos acessíveis, literalmente tornara-se um antropófobo. A solidão já não bastava ser apenas um vasto mundo desabitado de gente, desejava-a obsessivamente despovoada de sons.
Certo dia, farto da face humana, cometeu o desatino de destruir o único espelho da tapera onde vivia por temer um atentado da própria imagem. Daí em diante jamais viu um rosto humano; em seu delírio de fugitivo evitava até águas remansosas pela possibilidade de refletir a própria imagem.
Inquestionavelmente, João Piloura não era mais coerente.
Entretanto reclamava de si mais e mais vigilância, pois tudo que já conseguira parecia pouco quando lhe sobrevinham os acessos paranóicos. Foi inevitável a reclusão voluntária como resultado natural de um demorado processo. Na mente excitada de João Piloura ela soou como a redenção. E ele não delongou tempo para concretizá-la. Valeu mais a obsessão pela vida que a vontade de ser livre. Uma caverna inacessível, uma lapa profunda é a solução, conjeturou um dia.
Dois dias de buscas e o vezo de tapejara granjeou-lhe o refúgio adequado no penhasco mais alto de uma penedia protetora: ali nem as feras chegavam. Abandonou tudo na mudança para o novo retiro. Até as armas que protegeram o prolongado êxodo, ele deixou para trás. Contra o que podia acontecer, as armas seriam inócuas. Era a certeza da paz definitiva ou a premonição do fim próximo. Dizem que há homens com a faculdade de pressagiar o futuro, mas essa é outra história.

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Autoria
jjLeandro


Ficha técnica
Jornalista e escritor, 46, residente em Araguaína -To. Autor do livro de poesias Quase Ave, com o qual ganhou o concurso literário nacional para autores inéditos Cora Coralina em 2002, em Goiânia


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anamineira
 

jjLeandro,
Estou começando a conhecer seu trabalho. Gosto muito de "Contos".
Por sinal, muito bom!
Parabéns!
Um abraço mineiro.

anamineira · Alvinópolis, MG 8/1/2008 19:55
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