JOGO DE AZAR

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Ivette G.M. · Cotia, SP
5/6/2009 · 40 · 33
 

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JOGO DE AZAR

Já há mais ou menos seis anos que Joel e Barnabé viviam naquele barraco, próximo de um lixão. Viviam dele. O barraco fora construído por Joel quando, sem teto e sem família, andarilho desse mundão de Deus, resolveu fixar residência em um único lugar.
Juntara madeira, papelão, pedaços de telha de amianto, tecido, enfim, tudo o que podia ser recolhido em um lixão e que julgara aproveitável.
Joel era caprichoso, seu barraco ficara bonito, tinha até cortinas. Na frente, um jardinzinho feito com vasos e mudas, também recolhidos na sua catação diária.
Barnabé aparecera no lugar e passara a viver do lixão, como todos que o frequentavam.Era alegre, boa praça, amistoso e prestativo. O oposto de Joel.
Conversa vai, conversa vem, Joel convidou Barnabé para morar em seu barraco.
Estabeleceram algumas regras para uma boa convivência: só beberiam no barraco, onde um controlaria o outro para evitar excessos. Frequentar botecos nem pensar. Nenhum dos dois levaria mulher para a casa. Mulher é motivo certo para dar confusão. Quando precisassem dela, se serviriam da casa da Tuca.
Fariam as compras juntos para a alimentação e todas as necessidades da casa, dividindo despesas. A limpeza da casa seria revezada a cada mês, bem como as tarefas culinárias.
Vinham vivendo dessa maneira e as coisas andavam muito bem. Tudo certinho.
Ao fim das tardes iam juntos, a um depósito de sucata e a um ferro velho, vender o produto da catação e recebiam seus respectivos pagamentos. Da maneira como dividiam as despesas, comiam e bebiam bem e até sobrava uma pequena economia, ao final do mês.
Após o jantar, sentavam-se na porta do barraco e tomavam uma cachacinha. Joel fumava um cigarro e Barnabé cantava e tocava seu violão ensebado, no qual faltava uma corda.
Certo dia Barnabé trouxe um pedaço de madeira, que encontrara no lixão, com uma frase gravada. Pendurou-a na porta da casa e, quando Joel chegou, leram juntos o que estava escrito: “ Bebo quando comemoro e às vezes quando não há nada para comemorar”. Miguel de Cervantes.
Eles deram uma boa gargalhada e Barnabé disse:” Eta cara supimpa esse tal de Miguel! Ele sabe das coisa”. Ao que Joel retrucou: “ Será que ele mora por aqui? No lixão eu nunca vi. Só se for o Miguelito, filho da dona Conceição, a mulher do Zé Pavio”. “Não pode sê não Joel. Ele não sabe lê e nem escrevê. É mais burro que nóis dois”.
O certo é que acharam a placa uma beleza e a deixaram dependurada sobre a porta, na parede do barraco. O barraco, agora, parecia completamente pronto.
A vida seguia seu curso em uma rotina interminável, mas satisfatória. Sem queixas, uma amizade forte, baseada na confiança mútua, uma vida organizada.
Mas, o ser humano é uma criatura imprevisível e eternamente insatisfeita. Parece que não sabe viver com tranquilidade e felicidade.Necessita de problemas e os arranja com a maior facilidade. Se não os tem, vai procurá-los.
No lixão, Joel encontrou um saco plástico com cartas de baralho em seu interior. Elas estavam em muito boas condições. Conferiu-as e constatou que eram dois baralhos, mas em um deles faltava uma carta, o número 6, de copas.
Levou as cartas para casa e sugeriu a Barnabé que jogassem para se divertir. Barnabé gostou da idéia.
Experimentaram alguns jogos que ambos conheciam e se fixaram mais em “buraco”. Esta passou a ser mais um diversão para eles. Quando não tocavam violão e cantavam, jogavam buraco.
Joel, por algum motivo, não disse nada sobre a carta que faltava e começou a perceber que podia tirar proveito disso e ganhar o jogo. Marcou todas as cartas de número 6. Quando teve certeza absoluta de como trapacear para ganhar, propôs a Barnabé jogarem à dinheiro. No princípio Barnabé relutou um pouco, mas depois aceitou a proposta com a condição de jogarem apenas pequenas importâncias, para não ficarem viciados e também porque percebeu que Joel jogava melhor do que ele, ou, pelo menos, tinha mais sorte, porque ganhava sempre. Argumentou que temia alguma desavença entre eles, por causa do jogo a dinheiro.
Joel aceitou as condições de Barnabé. Como planejava ganhar sempre, mesmo em pequenas quantias acabaria auferindo um bom dinheirinho.
Com o passar dos dias e à medida que chegava mais dinheiro ás suas mãos, a cobiça de Joel não tinha mais limites. Esqueceu a ética e a moralidade. Já não via Barnabé como amigo, mas apenas como um adversário a ser vencido e espoliado, até onde desse.
Não aceitou os argumentos de Barnabé para que parassem com a jogatina, ou pelo menos, que não fosse mais a dinheiro. Desafiou-o, perguntando se estava com medo, se não era homem, se estava fraquejando. Desafiado, Barnabé continuou a jogar e a perder no jogo.
Já fazia cinco meses que o jogo passara a ser a única diversão deles. O ganhador era sempre Joel. Barnabé via seus minguados recursos desaparecerem. A coisa chegara a tal ponto que Barnabé já estava devendo ao Joel. Praticamente estava comendo e bebendo às custas do amigo, porque ele não conseguia mais contribuir com a sua parte na manutenção da casa, cumprindo o tratado.
Estes fatos estavam começando a desesperar Barnabé. Para piorar, Joel estava se tornando incisivo na cobrança e tinham começado a discutir, coisa que nunca tinha acontecido antes.
Barnabé propôs ao Joel que o melhor seria ele ir embora, mudar de casa. Parando de jogar, conseguiria pagar sua dívida.
Joel não queria ouvir falar nisso. Não aceitava que Barnabé se mudasse e não aceitava parar de jogar. Barnabé ofereceu-lhe seu violão, seu único bem, para saldar parte da dívida. Joel não aceitou, argumentando que não sabia tocar e de nada lhe serviria o instrumento. Colocara Barnabé contra a parede. Ele estava sem saída.
Barnabé começou a pensar em fugir dali. Seria a única forma de reconquistar sua liberdade e sua vida de volta. Ele se tornara um prisioneiro de Joel, um escravo de seu capricho.
Os dias continuaram passando. Joel, a cada vez que ganhava no jogo, se regozijava mais e deu de fazer caçoada do amigo, chamando-o de “pato” e, ao mesmo tempo, rejubilava-se com sua esperteza. Como Barnabé era burro! Não percebia a trapaça no jogo? O idiota merecia mesmo.
Aquele violão, aquela cantoria, aquela cara de eterno alegrão do Barnabé, já mostrava quem era ele: um boboca. Seu júbilo aumentava mais ainda quando contava o dinheiro que ganhava de Barnabé. E assim os dias continuavam e Barnabé cada vez mais angustiado.
Uma certa manhã bem cedo bateram à porta do barraco. Barnabé atendeu, com cara de sono e pode ver várias pessoas, catadores do lixão. Perguntou o que estava havendo e ouviu deles: “ Nada não, Barnabé. Só viemo avisá que achamo o Joel morto, lá no território dele, no lixão. A cabeça tá partida no meio e, em cima do peito tem uma carta de baralho. É o número 6 de copas".

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Ivette G M
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Doroni Hilgenberg
 

Ivete,
que conto!!!
Quando você aparece você nos premia com ótimos textos
Esse conto me faz pensar que se a justiça dos homens é cega,
a justiça divina nunca falla.
A diferença entre o bem e o mal é só uma; o caráter
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 3/6/2009 18:07
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delen
 

Eita saudade dessa minha amiga...
Que conto fabuloso, fiz uma ótima leitura, parabéns pelo trabalho...Deixo aqui minha sincera admiração por vc. Beijãooo

delen · Cotia, SP 3/6/2009 22:47
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Ivette G.M.
 

Meu muito obrigada à Doroni e ao Delen pelo carinho. Abração, Ivette

Ivette G.M. · Cotia, SP 4/6/2009 10:47
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sergio.araujo
 

Ivete,

Parabéns pelo belo texto. Engenhoso e realista.

Volto,

Abraços.

sergio.araujo · Salinas da Margarida, BA 4/6/2009 13:23
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Onivaldo Paiva
 

Narradora envolvente, a contista Ivette, tal como a aranha tece a sua teia, cria personagens nos fazendo crê-los vivos, enredados em suas vidinhas, onde a contista consegue enxergar o humano que há no barro de que somos feitos,ou luzes nas cinzas que são as vidas de muitos, e o que há de mistérios nos destinos, nos fazendo refletir em que tipo de "vidinhas" vamos levando.

Joel e Barnabé souberam criar um paraíso em meio à miséria. Pareciam felizes como um Gandhi a quem o pouco bastava. Joel e Barnabé viviam ali alegria maior do que a de muitos castelos e mansões: a alegria da simplicidade. Até que um dia aparece, tal qual a serpente e sua maçã no "paraíso", a tentação na forma de um baralho: é a desarmonia, o vício, a cupidez que chegam. Duas lições, das muitas, que podemos extrair do conto: não é difícil construir a felicidade. E é muito fácil destruí-la.

Onivaldo Paiva · Uberlândia, MG 4/6/2009 14:51
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Ivette G.M.
 

Sergio, foi um prazer receber sua leitura do meu conto. Obrigada.
Onivaldo, como sempre, seus comentários só enriquecem o escritor.
Abração. Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 4/6/2009 16:27
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Ivan Cezar
 

Ivette:
Como sempre um texto riquíssimo .
Voce explora muito bem os detalhes
Adorei o Miguel de Cervantes
Certamente ele deveria morar na vizinhança
kkkkkkkkkkkkk !
Vizinho de um gordo chamado Sancho Panza!
Beijo

Ivan Cezar · São Sepé, RS 4/6/2009 20:33
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gamito
 

Ola Ivette

Muito bom o seu conto, que permeia pelos valores, onde se incluem a amizade, o egoismo, o ter, o ser... as relações de poder e... a honestidade que é muito mais facil de se ter (ou se ser) se não houverem "6 de Copas" ou Baralhos como Oportunidades...

Votado com muito merecimento!
beijosss
GaMitto

gamito · Brasília, DF 5/6/2009 01:35
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gamito
 

ET.: Votado por ora e tão logo entre em votação - rs
GaMitto

gamito · Brasília, DF 5/6/2009 01:37
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Greta Marcon
 

Nossa! Que história bem narrada, triste e na minha opinião, com
final feliz... O trapaceiro, traidor teve o fim que mereceu.
Fazer o bem, sem olhar à quem, nem sempre dá certo...
Amei o seu conto e mal posso esperar para votar...
Beijos, querida Ivette

Greta Marcon · Ponte Nova, MG 5/6/2009 03:42
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Doroni Hilgenberg
 

voltando
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 5/6/2009 17:38
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azuirfilho
 

Ivette G.M. · Cotia (SP)
JOGO DE AZAR
Uma tristeza muto grande.
Dá é vontade de chorar.
O dinheiro transforma od humanos, por isso que jesus expulsou os vendilhões do templo.
Esse espírito do lucro e do ganho a qualquer custo que é a grande mis~eria do mundo.
Aimda bem que os apostolos tinham os bens em comunhão e ninguém tinha essa de acumular mais e de explorar seu irmão.
Um Conto maravilhoso que lembra o Jesus quando um jovem muito rico queria lhe acompanhar e ele falou para dar tudo aos pobres e o seguir. O Jovem ficou entristecido de largar o ouro.
Parabéns.
Abração Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 5/6/2009 19:05
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menina_flor
 

Olá querida Ivette! Sua narrativa é super envolvente. E que conto!
Que nos mostra os valores; a amizade; a união; a alegria e como tudo isso termina de um momento para o outro quando surge a ambição sem limites, o egoismo, o levar vantagem acima de tudo. Que destroi vidas. Muito bem colocado e enredado. Com um final que deixa por conta do leitor pensar o que aconteceu com Joel.
Parabéns!
Beijos
Patty

menina_flor · Rio de Janeiro, RJ 5/6/2009 21:17
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Greta Marcon
 

Voltando e votando
Beijos

Greta Marcon · Ponte Nova, MG 6/6/2009 01:01
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Cláudia Campello
 

Tambem gostei!

bjssss;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 6/6/2009 02:08
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gamito
 

Voto para Vo(l)tar - com muito gosto!
GaMitto

gamito · Brasília, DF 6/6/2009 12:52
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nairalacy
 

oieee Ivette
Gosto muito de seus textos. Muito boa este conto, reflexivo e com um sinal feliz.
kissess;;
Naith

nairalacy · Osasco, SP 6/6/2009 12:55
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Juscelino Mendes
 

Mais um de seus interessantes textos. Muito bom mesmo. Bj

Juscelino Mendes · Campinas, SP 6/6/2009 13:11
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Zeca Avelar
 

Booommm Diaaa sempre menina Ivette!

Muito bom seu conto, que nos faz refletir sobre os valores e comportamentos humanos, do nosso dia-a-dia, com o otimismo inerente de sua alma menina, onde no final, o bem prevalece!

Karinhos Kentinhos,
ZecaFeliz - gaDs!

Zeca Avelar · Florianópolis, SC 6/6/2009 13:29
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Vasqs
 

Gostei, você é uma contista de mão cheia.
Abraço, Vasqs

Vasqs · São Paulo, SP 6/6/2009 14:05
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Diacui Pataxo
 

Primeiro pensei que o espoliado fosse se matar, me anguistiei com ele, sofri junto suas dívidas, mas o final até que me alegrou , confesso. Gostei muito, vc conta bem. abraço forte

Diacui Pataxo · Ilhéus, BA 6/6/2009 19:53
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GORETTI GUERREIRA
 

Brilhante seu texto com propostas sociais e protestos em uma linda narrativa. Amie. Guerreira.

Gostaria de seu comentário inteligente. Beijos.

http://www.overmundo.com.br/banco/joga-me-teu-fardo

GORETTI GUERREIRA · Franca, SP 7/6/2009 13:49
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Daniele Boechat
 

Querida Ivette, muito boa sua narrativa, aliás como de costume, sempre ressaltando a vida como ela é. Bjs.

Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 7/6/2009 13:56
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Vasqs
 

Alo, ola, Ivette. Avisos de comentários que v. tem recebido estão vindo pra mim, pro meu e-mail, até agora 3. Não sei porque isso acontece, de qq. modo fique atenta, de repente lhe chegam comentários e v. não fica sabendo - a não ser que os avisos estejam chegando pra nós dois. Ok? Abraço, Vasqs

Vasqs · São Paulo, SP 7/6/2009 14:14
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ayruman
 

Hei Ivette. Fico até inibido para comentar sua bela obra. Que Deus te ilumine em todas as suas iniciativas.
Vida plena.
Tenha uma boa semana. jbconrado.

ayruman · Cuiabá, MT 7/6/2009 16:32
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Ivette G.M.
 

Obrigada pelo alerta, Vasqs. Computador é meio burro mesmo.
Abração, Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 7/6/2009 17:27
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delen
 

Voltando meinha querida amiga...Beijãooo!!!

delen · Cotia, SP 7/6/2009 18:45
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sheila duarte
 

Gostei. Boa narrativa e gostei do tema. Parabéns. Votado!

sheila duarte · São Paulo, SP 7/6/2009 20:10
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mochiaro
 

Ivete
Excelente conto que traduz uma realidade de vida
Uma passagem onde a ganância impõe contra a honestidade.
Gostei desse conto e de outros que tenho lido.
Parabéns por sua presença nesse overmundo.
Um beijo

mochiaro · Rio de Janeiro, RJ 8/6/2009 10:55
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W@nder
 

Excelente conto, Ivette!
Cruel e realista.
Bjs.

W@nder · Rio de Janeiro, RJ 8/6/2009 16:51
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Sérgio Franck
 

Ivette,

Um texto perfeito..........

Nota 10........

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 9/6/2009 11:41
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meus traços e linhas
 

Que narrativa envolvente amiga!
Demoro a visitar-lhe, mas qdo , deleito-me na tua ~inspiração!

Parabéns!

bjs

meus traços e linhas · Cabedelo, PB 10/6/2009 16:31
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

seu texto é maravilhoso querida amiga, parbéns.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 11/6/2009 18:45
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