1.
Chamava-se José, José aprendera porque não sabia fazer sozinho e
de José se arrependera – a falar desde pequeno, a comer, a falar, a andar, a
cantar, a falar, a cansar, a cansar.
Com uma história não se quer falar nada, nem com nada se quer
nada. Tampouco ao se negar.
Eu sou José, e isso se é primeira pessoa é por questão de estilo e
identificação, apesar de tanta gente nas ruas.
José crescera, porque ensinaram: é José. Basta-se sendo e não se
importando tanto.
Tenho dores de cabeça. Estou gripado e entope-me o nariz a
secreção: puxo para cima, não me importando tanto que esses canais da
cabeça acabem dando no cérebro, na veia, no pus, na veia e que fique
catarro na veia, essas veias que envolvem o cérebro. Ou são artérias.
Cheias de sal, estourando vasos cheios de grito e força fincados na carne,
na inflamação – dilatam conforme sinto Maria, vislumbro Maria: Maria
tão futura, talvez seja predileção pela dor; Maria tão integrada à música,
talvez não queira esfaquear o maestro.
Morreu Tião. Não tenho pena de Tião: tenho vontade de Tião, a
vontade de Tião, não sei, antes que seja assumir o quanto de Tião me
degrada e tanto que lhe desagrada. Irrita-se ao saber que qualquer coisa é
tanto, e que tanto é tão pouco, e que de tão pouco se consiga tanto. Habito sete metros de comprimento e cinco de largura (ou vice-
versa). (E detesto jogos de palavras. Como detesto a ironia. Por isso nesse
período evitei a palavra cumprimento.)
O que faz de um quarto (este que habito) um caixão: eu estar nele,
e eu estar morto. Há um homem dentro dele. Seria suficiente, não fosse
incerto. Não tenho história senão a de estar vivo e ser José, e haver dúvida
nisso, se vista a vida pelo termo que se segue e se vive.
Ainda assim vivo como vivem todos. Eles é que existem comigo.
Até uma mercadoria tem mais história: alguém a fez, ela tem uma
história, que vai para a terra. E num caixote é transportada. É uma
transição. De alguma forma chegará a algum lugar e ali se consumirá,
rápido ou aos poucos, mas o será, e terá impressa no corpo a origem. Eu
estou numa caixa num depósito vazio que é o mundo, um depósito sem
teto, com muito espaço, eco, sombra e profissionais decadentes, senão
incorruptíveis.
Eu estou numa caixa num depósito que sou eu mesmo. Eu estou
numa caixa que não se mexe – que sou eu mesmo. Não por medo ou falta
de espaço; talvez, não se saberá, por tanto lugar para se ir, e um espaço
enorme e indecodificável até ele.
Eu – e escorre tanta coisa num nome. Não, eu não me convenço; e
qualquer um me convence de qualquer coisa, ainda que eu não acredite no
que fale. Escorre a mentira dos olhos de Maria como escorre a mentira dos
olhos de José e os dois existem, bastam-se não por si, mas pelas coisas e
pelos outros e pela combustão, que dizem: é José, é Maria, sou também, comemoremos ao mistério em que pensamos quando nos será bonito ter
ares de filosofia.
Carne queimada sob céu vermelho, em chamas, vazio, em cinzas
sem resto: só pó.
Sou funcionário do Estado, essa declaração de incapacidade
humana. Tenho barba por fazer, cama, um quarto, um pessimismo, uma
dúvida e uma derrota. Sou um desses tantos personagens e homens. Livros
e livros e criação e palavras e palavras e folhas e mais folhas e nenhuma
resposta, raras, raríssimas perguntas, como nenhuma coragem de só
admitir ter achado pergunta.
Camus (eu havia prometido para mim mesmo não citar ninguém,
porque tenho medo de parecer alguma coisa, ainda que eu queira parecer
alguma coisa e é evidente, mas não tenho consideração sobre mim) disse:
“Se quer filosofar, escreva romances”. Não sei. Não digo não acho, digo
não sei. Se quer escrever romances, ou qualquer coisa, tenha muita
paciência. A poesia será ter ainda paciência num mundo que inflama, num
interior que não quer tanto senão sumir, numa realidade que se impõe mas
não se afirma. Até porque terá medo de escrever qualquer coisa, ainda que
o que valha seja qualquer coisa, semelhante ao teu nome e imagem da tua
natureza, essa confluência que daria a nós um só nome, houvesse nome
que limitasse o que digo, mais que já se limita por eu dizê-lo.
Um homem que tenha consideração sobre si mesmo é sobretudo
ainda um sobrevivente, um sobrehumano; tão bons, esses que sobrevivem,
e sobrevivo, afinal, sobrevivo, prova de que ter consideração sobre si é sina minha ou não é condição para sobrevivência. Para sobreviver basta
estar vivo.
Ou até quando se morre, se de ser para não ser é uma certeza de
que se será sempre, posto que não sendo não se sentirá.
Mas então cada coisa é tão passível de qualquer coisa.
Como gostam de ter superioridade, gostam de si para serem
gostados, ou não gostam de si para causarem impressões mais poéticas.
Ah! essa gente que aprende tanto! Quando afinal aprenderão então que
não se aprende nada? Todo erro será refeito, e enquanto um erro se tornará
verdade uma verdade se mostrará um engano, depois ao contrário, ou não,
e essas maneiras de se ir seguindo.
Para não me indignar tanto com o estilo da literatura, dessa minha
que vou fazendo à maneira gasta e previsível da metalinguagem,
considerarei que é a criação uma força de caráter, apesar de tanto de tanta
criação não ser resistência, mas cumplicidade. E que você deve fazer
conforme lhe vem, depois se desliga disso, vai viver tua vida, ser feliz,
cara, ficar nessa murrinhação é que não dá, vai viver tua vida, ser feliz.
Ocorre que ele representa a geração pós-industrialização da América
Latina, e cresceu no âmago da abertura democrática, ainda que as elites
artísticas, ideológicas, comunicativas, econômicas, sejam as mesmas até
quando surgem coisas novas. Esse setor tecnológico que é impressionante:
ninguém está fora dele, nem quem passa fome, e logo será o setor mais
promissor para os jovens que ingressam no mercado de trabalho.
Principalmente para os que passam fome.
2.
Vem outra coisa de outra forma, de outra fome, outro tempo. E
diante das paredes sujas, intactas, enlouquecerá. Não vejo que se veja a
passagem do tempo senão como a perda e a invasão dos exércitos.
Lá embaixo (agora) na copa que é a recepção desses hospitais de
bonecos de cera a que chamam prédio, condomínio, casa, residência, lar,
doce lar:
Meridiano (um morador), ele diz: Bom dia.
Ahn? – sou eu que respondo. “Sua mãe está morta. Como eles
estão querendo tua cabeça”, é o que nenhum de nós diz; não porque não
conheçamos nossas mães.
Continuamos andando, eu vou para a esquerda, Meridiano não
sabe para onde vai, e vai para a frente e é atropelado. Morre
instantaneamente, como morro constantemente, Fênix burra e promíscua.
Choco-me, o prédio (não é bem um prédio, mas vá lá) choca-se também,
ficamos todos chocados, lamentamos. E se também ficamos chocados, e
ficamos por assumirmos nossa vida, então não sei que mais posso dizer.
Para a direita vai a queda, para a esquerda a esperança, ainda que
seja eu que vá para a esquerda, confesso: guardo tanta esperança que aí
reside minha decepção, ainda que haja tantas cadeiras e solilóquios e
pouco fuzil, como é muito o pão nas casas para que não se sinta falta da
manteiga. Que roubaram para usar no buffet.
Não gosto de quem vai sempre pelo mesmo caminho, apesar de
que vou sempre para a esquerda, mas é diferente mas afinal talvez com certeza então a pluralidade seja justamente a ferramenta e a existência e cá
estamos na obrigação de nos convencermos disso para que seja verdade –
na obrigação e na concessão do domingo - cá estamos.
Primeiro romance do poeta Paco Bernardo. Num estilo que faz lembrar algumas das vanguardas do século XX (é bom lembrar que a obra foi escrita entre 1959 e 1960, quando o artista tinha 18 anos), "José de Qualquer Coisa" é um final de semana na vida de um homem comum, que guarda na memória um amor não-correspondido e agrega em si, na verdade, todos os sujeitos da cidade.
"..... "José de Qualquer Coisa" é um final de semana na vida de um homem comum, que guarda na memória um amor não-correspondido e agrega em si,....
Para seus 18 anos paco bernardes, fez uma bela leitura do José qualquer coisa.. existem mtos josés..
Caro Thiago,
escrevi o poema 'para José de Qualquer Coisa no tempo em que não há tempo para coisa alguma' (que pode ser lido clicando no link) após ler essa amostra do texto. Fiz o download e comecei a ler... instigante. MUITO instigante o escrito! Tão incrível quanto a história do Paco Bernardo. Gostei e estou lendo mais...
GRANDE abraço!!!
Paco,
Acabo de ler a sua incrível biografia escrita por Robert Stout. Seria este Stout parente do outro Robert Stout morto no início do século 19?
Li também a biografia de Miguel de Vívara, verdadeiro entrevistador de Paco e vi semelhanças curiosas entre as duas biografias (de Miguel e Paco). Eles eram simplesmente irmãos, apenas bons amigos ou...
Achei também, fortuitamente (morei na Europa por algum tempo), uma vaga referência a um jovem, que se diz filho de um tal de Bernardo Luchino (seria você, Paco?), chamado Phillippe (ou Filipo), presumo que nascido na França ou na Itália (a fonte não deixa isto claro) há cerca trinta anos, se muito.
Muitas indagações me deixaram este seu interessante (e surpreendente) texto.
Abs
Companheiro Spírito Santo,
Essas informações eu (Thiago) não saberia lhe dar. Apenas cuido de gerenciar o site e tentar divulgar um pouco, de forma que só conversei com Paco umas quatro vezes via e-mail. Nessas vezes sempre me pareceu muito sereno, de forma que aconselho que realize as perguntas diretamente a ele: paco_bernardo@yahoo.com.br
Thiago,
Pô! Fiquei confuso agora. Quer dizer que é você que se assina Paco e não o Paco real? Sendo assim, como é que, mandando email para ele vou saber se estou falando com mesmo com ele? Aliás, se ele aceita contato on line assim, failmente, porque não me responde aqui mesmo (por seu intermédio)? Fico receoso de escrever diretamente par ele porque, vai que ele só é assim tão sereno e receptivo com vocês aí dos sites? Diz queele tem fama de antisocial, não tem não? Quebara o meu galho aí, Thiago. faz um favor pro parceiro, na boa e repassa as perguntas, valeu?
Abs
Sem problemas, caro, passarei as perguntas para ele. Peço apena que, por mensagem (se preferir) me envie seu e-mail, para que ele possa lhe responder :)
E só como forma de esclarecer (que agora percebo a confusão que talvez eu possa ter criado realmente): esta conta no Overmundo não é gerida pelo Paco Bernardo, mas por mim, Thiago Mattos, um dos poucos membros do grupo que tenta levar o projeto de recuperação de sua obra adiante. O blog A Parede E O Sangue Dela é inteiramente de responsabilidade de Paco Bernardo, bem como o e-mail paco_bernardo@yahoo.com.br
Thiago,
Ah bom! Agora entendi. Só vou precisar mesmo do seu e.mail (Thiago) para que possamos nos comunicar já que a opção 'receber mensagens' não está habilitada em seu perfil do Overmundo. Para mim, você pode mandar mensagens pela mala do meu perfil mesmo (vai para o meu e.mail). Outra coisa que me ocorreu é que você podia falar um pouco mais sobre este grupo tão bacana e solidário, como ele se formou, quem são os integrantes (o perfil deles, etc.). Uso esta oportunidade para dizer que acho este trabalho de criação de uma sobrevida literária para esta incrível figura que é Paco, uma atitude tão edificante, quanto foram a descoberta dos manuscritos do Mar Vermelho e a decifração do Código Da Vinci.
Abs
José
Qualquer
Coisa.
Maria
Quer
Nada.
José
Maria
Quer
Nada
Qualquer
Coisa, filho.
Maria
José
Quer
Nada
Qualquer
Coisa.
O morto, pobre.
Não sofrerá.
Jaz!
Olha o jacaré!
Olha o picolé!
E agora José,
O pedrão no caminho do meio...
Spirito, querido.
Estou aqui bem mais perto e posso te garantir que Vermelho era um outro mar e a bandeira do PCI, que já morreu.
Esses manuscritos foram encontrados no Mar Morto,
aquele que meu pai matou!
Ih! Mas não era o Vermelho o mar que morreu (de que não sei)? Quero dizer: Antes de ser morto o mar não era vermelho, por conta daquela sexta (ou seria sétima) praga do Egito. Sim, aquele mar no qual Cristo, ainda pescador, caminhou, sem jetski nem nada, escondendo de pedro que existia um 'caminho das pedras'? Falando nisto, em vermelho, será que o nosso nobre Paco não foi um membro expurgado daquele pós PCI, o PDS?
São tantas coisas...
Licença, Thiago, mas complicou o assunto aqui com o Spirito, razão das idas e vindas que teus versos do Paco Bernardo propõem, que ora são, ora não são e ora, ora orações aos corações de josés e marias, de zés-marias e marias-josés, que muitas são joão, sem serem santas:
Spirito:
Partido De la Sinistra, mais moderado que a torre de Pizza (a minha calabresa, por gentileza, que sou radical, ainda que chic, e uma taça de Periquita).
Nada ver com os famigerados sucessores da Arena tupiniquim, os que chafurdaram no PFL e no PDS e hoje vestem roupinhas novas de PP e Democratas.
É de morrer de chorar, que sobreviveu aos laços e garrotes, e maricotas e afogamentos e aos tuborões depois de jogados dos helicópteros.
Os golpistas de 64, os torturadores, latifundiários e banqueiros chamarem a si próprios de Democratas e Populares e o próprio circo. Deviam substituir os besteirois sem graça das tevezes.
Devem ter quebrado todos os espelhos por onde passam, porque não se enxergam os fascistas tarados.
Chamem Orwell pra explicar que o mal é bom e que guerra é paz, sem ter sido escrita por Dostoiéwski.
O banqueiro catarinense, o JKB, fiquei sabendo, ainda quer acabar comigo e os da minha raça, mas não deixa de cobrar do meu povinho as taxinhas até pra respirar dentro das lojinhas dele.
Do que é exemplar o verso:
Um homem que tenha consideração sobre si mesmo é sobretudo
ainda um sobrevivente, um sobrehumano; tão bons, esses que sobrevivem,
e sobrevivo, afinal, sobrevivo, prova de que ter consideração sobre si é sina minha ou não é condição para sobrevivência. Para sobreviver basta
estar vivo.
Baci
Juli,
Pois então, já não inquiria eu: Seria Paco um expurgado do Partido Democratico Dalla Sinistra? Teria sido figlio de um partisano trucidato per uno camisa nera figlio de una putana? Porca miséria!
Coisa de louco isso aqui. Sabe o que eu acho Paco? Que tu é tão fake qto um bonitão que tinha por aqui e que deixava as mulheres arreadinhas os quatro pneus por ele. Depois que o caça-fake aqui do overmundo descobriu, o avatar dele - lindíssimo como um deus - sumiu e ele se escafedeu. Será que este vai ser seu fim?
Fake ou não fake
abrs pra vc
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O Overmundo nasceu com um objetivo bem claro, o de dar visibilidade às práticas e manifestações culturais brasileiras, abrindo, para isso, um c... +leia
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