O cachorrinho foi abandonado com seus cinco irmãozinhos em uma esquina da rua onde morava a menininha. Ela com seus seis aninhos indo para a escolinha segurando a mão de seu pai, toda encasacada devido ao frio de uma manhã de junho, se encantou com a ninhada. Com uma carinha de suplica conseguiu fazer com que seu pai parasse para que pudesse ficar olhando, admirada, as pequenas bolas de pêlos cheias de vida formando uma grande bola de pêlos cheia vida.
Alguns minutos mais tarde, convencida carinhosamente pelo pai, aceitou prosseguir a caminhada desde que antes pudesse dar um pedaço de seu lanchinho para os cachorrinhos, e assim fez sob o olhar deslumbrado de seu pai.
No dia seguinte obrigou o pai a parar junto à ninhada que agora já não era mais tão numerosa, pelo menos considerando os cachorrinhos vivos, pois um dos filhotes estava morto. Novamente a menina exigiu do pai que pudesse dar um pouco de seu lanche para os filhotes para daí então ir para a escola. No dia seguinte, como o pai já temia e esperava a ninhada ainda estava lá; mas um segundo filhote havia morrido.
E assim a ninhada foi, dia-a-dia, diminuindo.
Alguns cachorrinhos já não estavam mais na ninhada por estarem vivos, vivendo junto com quem os adotou, outros ainda estavam ali, junto à ninhada, por estarem mortos.
Os dias passaram até que sobrou só ele.
O cachorrinho que conseguiu sobreviver mas não havia conseguido, ainda, ser adotado estava magro, com remelas nos olhos, tremendo de frio, ganindo baixinho uma lamuria que tinha o único objetivo de despertar a compaixão em quem o pegasse e o apertasse contra o peito como fez a menininha. Assim que sentiu o calor do corpo da menina, o carinho de ser pego por duas mãos quentes, o cachorrinho deixou de gemer. Como se estivesse descobrindo algo totalmente novo – e estava -, a menininha também ficou em silencio observando o pequeno animal que se aninhava no seu peito.
- Pai, pai,pai.
Gritou enquanto tremeliques de emoção a percorriam dos pés à cabeça.
- O coraçãozinho dele tá batendo, pai! Pai!
Mas seu pai naquele momento estava também tomado pela emoção, olhando sua filha dar acolhida ao pequeno ser que implorava para viver sem saber ao certo o que isso significava.
Quando convenceu seu pai a levá-lo para casa, a menina já tinha escolhido um nome para ele – King. Uma sugestão de seu pai prontamente aceita por ela que adorou do som da palavra: King.
Depois de um banho no tanque de lavar roupas quando ela insistiu, insistiu, até que seu pai permitiu que ensaboasse King - que nesse momento já era chamado pelo nome, King -, deram pedaços de pão molhados no leite que foram engolidos inteiros enquanto pai e filha olhavam emocionados como o cãozinho matava sua fome. Em momentos como esse, em que a filha toda feliz, ria com tamanha alegria que seu pequeno corpo era percorrido por espasmos de emoção, ele pensava na razão de ter escolhido o nome King. Com lágrimas que teimavam em brotar nos cantos dos olhos pensava “Ele é King porque você é minha princesa”, para logo a seguir se sentir infinitamente tolo, piegas, emotivo e ridículo, mas já sem poder controlar o fluxo de pensamentos e lembranças: “Ah, minha Rainha, como gostaria que você estivesse conosco para ver nossa filha crescer feliz,...”, pensava ele sem perceber que estava falando de um passado – quando sua esposa ainda era viva – e de um futuro que, como todo futuro é assustadoramente desconhecido.
E assim diriam uns, o acaso, ou diriam outros, a teimosia de viver prevaleceu, e King passou a fazer parte daquela família que até então era só pai e filha.
Inevitável que a menina começasse a ser chamada de Princesa por todos que freqüentavam a casa e de Princesa continuou sendo chamada durante a infância e adolescência até se tornar uma mulher, namorar e se casar, sabendo que se casando deixava para trás uma vida, deixava para trás a Princesa que cresceu junto com King para se tornar a rainha de um novo e pequeno reino chamado lar.
Quando viu sua Princesa, junto com seu marido, partir para uma cidade distante, King já havia ultrapassado a expectativa de vida de sua raça, já era um velhinho e como todo velhinho passava boa parte de seu tempo deitado, relembrando. Quase sempre que dormia começava a se agitar, uivando baixinho, quase chorando enquanto sonhando relembrava as brincadeiras e o carinho que havia conhecido quando a Princesa estava ali.
Agora já quase um homem velho, o pai da Princesa, sozinho na casa, observava King sonhando e, como sabia o que o velho cachorro sonhava, também se punha a remoer memórias deixando que a saudade o invadisse por completo sem saber que nesses mesmos momentos, longe dali, Princesa, agora rainha de um lar, começava a perceber que a vida tem um peso do qual ninguém se livra.
Os anos se passaram, como passam os anos para quem ainda está vivo, até que em uma manhã, King, já completamente caduco não amanheceu em sua casinha no quintal fazendo com que seu dono o procurasse para achá-lo na mesma esquina onde foi abandonado quando filhote.
Como King se recusava a voltar para casa, o homem levou-o no colo e ajeitou-o novamente na casinha. Em vão, pois na manhã seguinte King amanheceu na esquina novamente.
E tantos foram os dias que King amanheceu na esquina quantos foram os dias que ele quando filhote ficou naquela mesma esquina até ser adotado por Princesa.
King morreu de velho, sonhando, na esquina. Sonhando de quando era amado, sonhando com uma tarde de sol quando brincava alegre com uma menina que todos chamavam de Princesa no quintal da casa enquanto o pai dessa Princesa construía uma nova casinha para ele.
Morto King foi carregado nos braços por seu dono e enterrado embaixo de sua velha casinha vazia.
Dentro da casa do homem as fotografias dos porta-retratos mostrando King, ainda um filhote, e Princesa, ainda uma menina, amarelavam e envelheciam atrasadas em relação ao tempo que lá fora fugia rápido em direção a uma eternidade que arrasa qualquer possibilidade de lógica em se viver e morrer.
Um dia o silencio da casa foi quebrado por batidas na porta que quando aberta pelo homem revelou que sua filha, que ainda, mesmo que em pensamentos, chamava de Princesa, tinha agora uma filha, sua neta, que logo ele chamou de Princesinha enquanto emocionado a pegava no colo. As duas voltavam em definitivo depois que o pai da Princesinha morreu repentinamente de um câncer que nem mesmo ele sabia possuir.
A menininha revirou toda a casa, remexendo nas coisas que eram de sua mãe e que estavam intocadas desde sua partida. Quando chegou ao quintal perguntou para o avô o porquê daquela velha casinha de cachorro vazia e tão velha, mas como toda criança, logo desviou sua atenção para outra coisa não percebendo que mãe e avô se entreolhavam não conseguindo responder a pergunta.
No meio da tarde os três saíram para uma caminhada no bairro, para que Princesa pudesse relembrar seu passado e tanto ela como seu pai já sabiam que iriam passar pela esquina onde há mais de vinte e cinco anos encontraram King, mas nenhum dos dois manifestou esse desejo ao outro. Mesmo com a secreta expectativa que cada um alimentava, foram surpreendidos quando chegaram à esquina e lá estava outra ninhada de cachorrinhos.
Princesinha, a menina, ficou paralisada de emoção olhando os cachorrinhos, só conseguindo falar instantes depois.
- Mami, vô, a gente podia levar um cachorrinho desses. Eu ajudo a fazer outra casinha pra ele.
Como nenhum dos dois adultos respondeu, depois de alguns instantes Princesinha olhou para cima.
- Ué? Por que vocês estão chorando?
FIM
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