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Camafunga · Pelotas, RS
12/11/2009 · 2 · 1
 

Quis ser mais específico, ouvi que o segredo do sucesso era aprofundar em uma coisa e saber tudo sobre ela. “O pato é a única ave que nada, voa e caminha mas não faz nada disso direito.” Carreguei por tanto tempo esta inverdade que evitei ousar um pouco que fosse. Entrei na medicina para ser gastroenterologista especialista em refluxo gástrico congênito, em primogênitos sem história familiar prévia, com lesão displásica, em pacientes insônes, hiperativos e ansiosos. No primeiro ano do curso fui operado, me curei, perdi o interesse e fiquei sem outra opção viável.

Quando bem jovem achei que pudesse ser desenhista, era esta a forma que tinha a mão para fugir da ansiedade de ter chegado tão cedo a universidade, pelo lúdico dos traços e pela impossibilidade de me rebelar pela fala virei chargista. Guardo ainda os desenhos que fiz e que eventualmente eram publicados por ai, muitos, a maioria, nunca sairam da mesma pasta onde até hoje se encontram. Meu irmão escrevia, e muito bem, mas seguindo a teoria do pato infeliz não me atrevia a juntar duas frases, a não ser em um diário pessoal, guardado na mesma pasta, onde, adolescente, jogava algumas considerações existenciais e filosóficas próprias ou um pouco além da idade. Um dia meu tio que era hiperativo, e genial segundo senso comum, me convidou para aprender fotografia, uma de suas artes. Nada de tecnica e muito exercício de criatividade, minhas imagens assim como o entusiasmo, não foram além de um curto período. A epoca ja estava envolvido com cadáveres, fisiologia, nome de ossos, aulas de psicologia, e normas, muitas normas. Aprendi que não devia sentar na cama dos pacientes, nem ser muito expansivo, comedido também nas escolhas, e, afinal, era hora de achar algo para substituir um esôfago órfão e avariado. O desenho apenas enchia meus cadernos quase sem textos, não era mais crítico ou engraçado, nem técnico, e ao diário, lançava a angústia de não haver me encontrado.

Levou tempo até aceitar aprender de tudo e conclui, a contragosto do sistema, ser um generalista. Agradeço a quem me ensinou que as pessoas são únicas e inteiras e não pedaços, nem eu, mesmo remendado. Um dia, longe da teoria do bicho que quase pagou o pato me vi escrevendo, desenhando, fotografando e ainda assim sendo profissional de alguma coisa, sem tropeçar, nem me afogar ou despencar dos ares, menos ainda morrendo na monotonia da particularidade.

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Autoria
Marcelo Freda Soares
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Cláudia Campello
 

o que importa é amar o que se faz.
tens telanto, meu caro, e mto.

bjsss

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 8/10/2010 21:38
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