A menor fagulha de poder é suficiente para incendiar cabeças que contêm palha. E das cinzas, contrapondo-se à lendária Fênix, brota presunçosa vaidade jorrando empáfia e arrogância, na ilusão de que inchaço é grandeza.
Dessa ambiciosa fogueira eleva-se fumaça de orgulho arvorando-se no céu da passividade, com ostentação de escuras e levianas nuvens carregadas de oportunismo, sufocando o mais humilde brilho solar. É a glória pedante e espúria conquistada com atributos de vaidade, narcisismo e manipulação, sob a égide e o estratagema de todos os pecados capitais.
Certa feita, quando os deuses védicos, inspirados por Brahman, derrotaram os demônios, ficaram tão vaidosos a ponto de convencerem a si próprios de que tal glória lhes pertencia. Mas quando submetidos à prova da divindade superior, recolheram-se ao seu limitado panteão, onde deveriam cultivar o saber e a humildade. Ocorreu que, desafiados pelo poder supremo, nem Agni (deus do fogo) conseguiu queimar uma palha, assim como Vayu (deus do vento) não conseguiu movê-la com um sopro. Até que Indra (o maior deles) ouviu de Uma (deusa-Mãe), que fora através de Brahman, e não daqueles pobres e soberbos imortais, que se obtivera a vitória contra os demônios.
A crença hindu, com relação ao homem e sua capacidade intelectual, atribui todo poder a Brahman (princípio divino não personalizado do bramanismo). E no meu confortável habitat cristão, amazônico-pantaneiro, às vezes me pego a imaginar o grande Poeta do Universo aterrissando glorioso no frágil mundo beletrista, onde a simples defesa de uma tese, a autoria de uma obra literária, a exposição midiática, ou ainda o honorífico título de imortalidade costumam soar como palhas amontoadas para uma grande fogueira. Seria providencial que o Sábio Espírito da Palavra, a exemplo de Brahman, descesse aos incautos olimpos dos deuses de palha e apagasse o fogo da vaidade que tem transformado em impuras cinzas cabeças equivocadas quanto ao poder supremo dos cultores das letras. E que nesse advento o eterno Poeta viesse sob a plumagem de Fênix, não apenas para queimar consigo a estupidez de morríveis imortais, mas para o milagre do renascimento, tornando-os capazes de enxergar, dentro e fora de si, com os olhos da decência, e de caminhar humanizados com as sublimes sandálias da humildade.
Para que servem inteligência e talento, se corrompidos pela fraqueza humana da cobiça e do egoísmo? Para que servem notoriedade, popularidade, fama e poder? E a inspiração, a criação, a genialidade, a verve, o imaginário, o belo, o conhecimento, a grandeza, tudo isso serve apenas para alimentar preconceitos e o ego insaciável dos vaidosos? Ou para nutrir o nosso pequeno, carente e poluído mundo letrado, tão desprovido de equilíbrio, de expiação, de ética e de sabedoria?
Desconfio que a deusa Fama esteja mesmo ficando velha e que, por isso, tem provido, de forma aleatória, muitos galardões a bárbaros e distantes discípulos de Platão e Gutemberg, inebriando-os com o eufórico poder da palavra.
Quanto a este meu lado “literoprofano”, desconfio que seja fruto da desilusão por assistir ao auto-endeusamento cotidiano de pássaros de pedra, de vôo noturno, sobrepondo-se quixotescamente ao brilho da ave que das cinzas ressurge como verdadeira imortal. Talvez eu só conheça a ânsia e a esperança de apreender o fogo das letras e imortalizar boas atitudes, sem medo, sem hipocrisia, nem sofismas, repelindo demônios e divindades empalhadas. Talvez, enfim, eu não entenda nada de deuses, de poderes e muito menos dessa imortalidade que anda incendiando cabeças.
Então Frazão, não és de te indispor com o mundo por dá cá essa palha.
Algo mais há de haver passado, que não coube na razão nem no postado teu Frazão.
E fico eu a dever-te um retorno mais pensado, que lido restou subtendido e pode estar já comunicado e apenas não terem me permitido Morfeu e Hermes aproximar do ninho da Fênix.
Aliás, se a Fênix ressurge das cinzas, será de palha o ninho que habita?
Curioso detalhe que intrigou-me agora: onde o pássaro dormita?
Ah! Por certo não tomei eu o chá das cinco, posto que já é hora de dama da noite.
Volto para voto na revolta tua.
Té.
Querido Frazão:
"Para que servem inteligência e talento, se corrompidos pela fraqueza humana da cobiça e do egoísmo? Para que servem notoriedade, popularidade, fama e poder? E a inspiração, a criação, a genialidade, a verve, o imaginário, o belo, o conhecimento, a grandeza, tudo isso serve apenas para alimentar preconceitos e o ego insaciável dos vaidosos? "
Obrigado! Seu texto serviu como uma luva e lavou-me a alma por inteiro. Grande Frazão!
beijos e abraços do Joca Oeiras, o anjo andarilho
PS Total empatia!
Grande Frazão Brother Amigo.
Um texto estraordinário.
Muito conhecimento Histórico, Filosófico, Jurídico e Religioso.
Que seja pra o mundo ser melhor, O Humano amigo do humano e ninguem nunca mais ser oprimido, seja homem, mulher, negro, indio ou branco.
Que todos tenham paz, segurança e vida plena.
Voltarei com todo orgulho para a honra de votar nesta sua táo nobre criação.
Foi um prazer e estamos também consolidando a nossa amizade fraterna.
"Para que servem inteligência e talento, se corrompidos pela fraqueza humana da cobiça e do egoísmo?"
Boa, Frazão!
Uma das belas reflexões que já
li aqui Over.
Abraços, do conterrâneo.
Benny.
Caro Frazão,
Marquei para voltar e apreciar com a calma que teu trabalho merece.
Por enquanto grande abraço!
Eu adorei este teu texto tão profundo e cheio de sentimentos nobres que nos convida a fazer uma grande reflexão. Meus sinceros aplausos e abraços amigo por este recadomravilhoso, amigo Frazão.
Abraços.
Carlos Magno.
Professor,
Mais do lado de cá das arcadas fico do teu lado, perfilo
o teu pensamento, a tua visão, mas dou nome, batizo-o PALMAS
Professor, deverá o mundo fazer uma campanha para
q
Corou no meio sem querer.
-PLAMAS,
Todos os seres humanos, até rato. Vi um rato no circo feliz com as palmas que recebia. Camelo, cachorro, elefantes.......... é antigo serem ensinados pelas PALMAS.
UM ABRAÇO, andre.
Parabéns Frazão.
Gostei muito do texto, desta análise sobre a vaidade.
beijos
Espelho,
ó espelho teu,
serei eu
um pouco bunitinha
como essas outras (lindas!, lindas!)
que andam desfilando fiu-fius
pelaí e debochando di mim?
Assuntinho delicado, querido Frazão.
Tudo a ver com a guerra ancestral entre quem sois e pra que és...
Fecho com o Adroaldo e, muito mais curiosa, acicatada pelo bichinho do qualquié, quequié, pergunto: há mais algo?
E foi pulaqui ou pulaí?
Conta tudo, ah vai... conta...
beijin
Querido Frazão, sabe o que ocorre?
Tem gente que gosta de usar as palavras como quem diz: -Sabe com quem está falando?
Mas tem gente que usa as palavras pra, em botando humanidade nelas, catar amigos, fazer sorrir, criar cumplicidade, emocionar, dar a mão e o coração. Você é desses.
"Eles passarão, você passarinho" (Mario Quintana)
Beijo grande
Humildade, difícil de exercer...
Parabens Brother. Um abç.
FRAZÃO,
bela reflexão sobre a vaidade, propiciada pelos deuses e por Frazão!
Abçs de Betha.
Prezado amigo Frazão,
Este seu texto - como já disse antes (aqui, pessoalmente) - é antológico. Brilhante. Preciso. Dispensa comentários. Você - com sua peculiar maestria e senhor do seu mister - deu um show. Espargiu magnificamente a mensagem.
E eu, que - por ser seu parceiro de ideais literários no dia a dia -, tenho que, mais uma vez, parabenizar-lhe por esta magistral publicação.
Letras de palha, este seu texto, é uma genuína palha de aço esfregando a estéril cara de pau (ou de palha) da embófia e da soberbia.
fraterno abraço,
Mestre Adroaldo (Pra mim, Barão de POA),
Publiquei esse texto no diário Correio do Estado/MS, antes do meu ingresso no overmundo. Portanto, nenhuma relação com o aqui e agora, e também nada pessoal, apenas ideológico. Talvez, fruto de uma indignação acadêmica cumulativa (desde a faculdade repudio os que usam o “saber” com arrogância e discriminação, ou seja, sem sabedoria), pois aprendi, desde cedo, que qualquer tipo de poder (mesmo o da palavra) só incendeia cabeças de palha (massa cinzenta não pega fogo com tanta facilidade).
Quando ao outro questionamento, garanto que se fosse hoje, Hermes nos cobraria ingresso para assistir à renovação de Fênix, ave solitária e única, que habitava os desertos mas fazia ninhos de galhos especiais, no alto da palmeira, para imolar-se ao sol e renascer, como se sabe, de suas próprias cinzas.
No mais, apenas um texto para reflexão sobre os excessos da vaidade literária, que é inferno de uma minoria.
abrs
Demais amigos,
assim que tiver um tempinho, volto para o devido feedback desse texto.
abrs
Frazão, eu fiquei lendo este texto muitas vezes hoje e agora, vim para votar.
Como sou aprendiz e pretendo ser até morrer, nem sei o que é vaidade literária.
Aliás, creio que todos que escrevem devem viver com um eterno agradecimento no coração e nos lábios.
Obrigada.
beijos
Olha o voto aí.
Abraços.
Carlos Magno.
Joca, Azuir, Benny, Marcos, Carlos, muito obrigado pela visita e considerações.
Câmara André, obrigado. Realmente, as palmas são necessárias. Nunca vaias. No máximo o silêncio e a lição do exemplo. O mundo beletrista é que não pode ser excludente. Forte braço.
Saramar, de fato, só uma análise – "Um homem só pode olhar o outro de cima para baixo, se for para lhe estender a mão" (GGM).
Juli, teus olhos são nosso espelho de paz e sorriso. Nada “pulaqui” nem “pulai”. Tranquilim...
Sábia Ize, disseste tudo.
Cíntia, humildade sempre; dessa que carregas contigo. Obrigado. “O rio quando é profundo não faz barulho”
Betha, muito mais pelos deuses e pela lógica do que pelo seu amigo frazão, mero aprendiz. Obrigado.
Rubenio, quanta generosidade (e muita sinceridade), quase “incendiando” minhas palhas (rss).
abraço a todos.
Para que servem...?
Boa pergunta.
Valeu amigão !!!!
Abraços
Brigadin, Frazão,
vai cá meu votim e o textim pru tronim que é o nosso banquinho mais rico das fortunas todas: o da cultura do Overmundo.
Fico também aliviada com tua explicação de que o acerto de contas (bem feito por sinal, um barato!, como diz minha vovó) é apenas com o mundo e não com algo especial do momento nosso pulaqui.
Beijin pra tu.
"A menor fagulha de poder é suficiente para incendiar cabeças que contêm palha..."
"Talvez eu só conheça a ânsia e a esperança de apreender o fogo das letras e imortalizar boas atitudes" - Enquanto tantos queimam na fogueira das vaidades...
BRILHANTE, Frazão. Um dos textos mais brilhantes que lí nos últimos tempos. Irreparável, profundo, verdadeiro.
Abraços e Aplausos (como diria Carlos Magno)...
Nydia
Frazão, amigo.
Realmente, cobiça e egoismo são desgraças em conserva.
Texto excelente
Abraços
Noélio
Caro amigo, veja só como são as coisas.
Vim aqui ler e resolvi votar. Porque achei bão mesmo! Conteúdo prodigioso que parte de uma alma quase liberta (que neste mundo todos estamos presos) de uma mente equilibrada que caminha rumo à consciência cristalina.
E não há de ver que os "Deuses conspiraram a teu favor" no momento em que votei!
É que deu um bug na hora do voto e o programa deu 17 votos ao invés do que realmente deveria.
Essa coisa de voto é galardão de sofistas, mas o que quero dizer é que não enxergo o bug como um bug, mas como uma intervenção de forças a favor da tua mensagem...
É verdade querido Frazão, a trivialidade, a vaidade, o sofisma e tantos outros valores superficiais imperam. Porém, há quem encontre em meio a tantas coisas, algumas realmente sóbrias e belas.
Por exemplo? Letras de Palha...
Não são letras de palha...sim, letras de ferro....Voto.bj
Cintia Thome · São Paulo, SP 26/10/2007 06:33
Acertadamente, querida Cíntia: palha na cabeça e ferro nas mãos.
O outro lado dessa moeda de palha é a inveja declarada no olhar de quem sofre com o sucesso alheio.
Valeu, grande poeta do amor.
bjs
Belo texto! A humildade sempre nos faz bem.
Fraterno abraço
Professor, dei uma trasada na votação. Andava
- Comprei um cartão pra viajar de trem;
Sem cartão ninguém vai, sem cartão ninguém vém;
quem tem não dar, quem dar não tém,
;........................................
réplica com tréplica é joguete,
quem não canta gabinete --
não é cantador pra ninguém.
.........................
andava acompanhando uns cantdores repentistas a ganharem
a vida nesta cidade, e ai ouvi depois de tantos.... UM GABINETE,
quase extinto,
um abraço, andre.
Que texto, eh!...desses que merece ser, lido, relido, lido, relido.....rsrs
mreceu meu voto com louvor....te amo meu brother...
Mais um belíssimo texto. Impressiona-me a abstração com que tratas esses polêmicos assuntos. A religiosidade é preponderante na formação de qualquer sociedade. É uma pena que os poderosos (cuturalmente) sejam tão parciais e inescrupulosos diante desse quadro.
chagoso · Porto Velho, RO 15/3/2008 03:51Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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