Era num desses dias.
Nesses dias.
Num desses.
Foi urinar. Olhando para o líquido quente amarelado, os óculos caíram no vaso.
Não geraram flor.
Óculos folgados gastos velhos. Folgados.
Sem dinheiro para ver.
Sem dinheiro para ser.
Era um dia desses.
Teve que afogar a mão enojada ali dentro. Salvar as lentes dos seus líquidos residuais. Seus óculos de mergulho.
Não deveria sentir nojo. Aquilo tudo era dele mesmo.
Na cozinha. Aquecer água para o café. Procurava pães. Não os tinha. Não fora dotado do poder da multiplicação.
Bolachas de água e sal. Ah se tivesse ao menos o mar. Água e sal.
O cheiro do gás anunciava seu fim. O gás acabou. Só nessas horas sentia o cheiro do gás, quando ele acabava.
Seu gás também parecia querer acabar.
Era um dia desses. Desses que a vida faz pirraça da vida. Em cada minuto. Sordidez. Humilhação. A cada minuto.
Que mais estava por vir? Medo da pergunta. Medo das respostas.
Comendo suas bolachas de água e sal com seus óculos desafogados mergulhando no mais profundo sentimento de ridicularismo.
Precisava de café.
Fácil conseguir. Na padaria, logo ali, era só descer as escadas do seu prédio. Do prédio em que morava. Era cortesia. O cafezinho.
Precisava de fé.
Muito doce e fraco. Exatamente o contrário do que gostava. Mas, era cortesia. Não poderia reclamar.
Ele era doce e fraco. Também era uma cortesia. Talvez de Deus, dos deuses. Para o escárnio. Não poderia reclamar.
O que mais fazer naquele dia?
Uma praça.
Lá sentou-se.
Alguns segundos de tranqüilidade e de pertencimento a condição de normalidade. Até sentir um odor que ofendeu seu olfato e que parecia vir dele mesmo.
Não vinha dele mas estava nele: fezes de gato no seu sapato de couro de gado.
-Merda!!! Gritou alto.e não era ofensa. Era merda mesmo.
Enquanto esfregava o solado numa pedra que havia no meio do caminho sentia uma ira ruidosamente silenciosa. Sentia vontade de chorar. A maior vontade porém era a de matar.
Matar toda a gente, que agora via, com ares de satisfação, gula, alegria, amor. Porque elas pareciam não saber o valor de tais estados. Não os mereciam, pois.
Eram alienadas.
A pedra continuou no meio do caminho sapateada por merda. Ele seguiu.
Sentou-se do outro lado da praça.
Um pensamento novo diferente estranho tomou-lhe. Embora ao fazê-lo lhe parecesse familiar óbvio. Urgente.
Não havia sentido em voltar para o seu apartamento. Lá era apenas o teto de suas angústias, ausências, faltas, dúvidas, dívidas.
Pareceu-lhe tão distante como se nunca tivesse sido seu.
Sim, agora não o era.
Sem apegos. Quase acreditou que era felicidade o sentimento surpreseador.
Objetos: móveis, livros, fotos, roupas, pratos, talheres, toalhas... tudo aquilo que já lhe fora tão caro, nada mais pertencia aos seus afetos sentimentos posse.
A cada uma dessas lembranças sentia-se mais seu e mais cheio.
Lembrava o que possuía vagarosamente. Coisa por coisa. Lembrava sabendo que cada uma não era mais sua, aliás, pareciam nunca ter sido.
A cada lembrança de reconhecimento o des-reconhecimento. Mais forte sentia-se.
Fortaleza sem garantias. Fortaleza de sentir-se só e apenas só.
Era livre. Estava livre. A liberdade era o risco maior.
A praça. Suas árvores, seus cachorros sem donos, sua grama sem cuidados, ele. Ele era mais um dos elementos da vida.
A sensação de ser vivo impingira-se nele em todo seu deslumbramento.
O universo e ele. Um só.
A partir de então era um morador de rua. Diriam talvez.
Mas era ser só.
Apenas.
menina, você ainda vai para a academia brasileira de letras!!
você tem um domínio narrativo contagiante!!
muito bom!!
abraço,
Marcos!!! acho que essa cadeira é sua!!!
Obrigada por sua leitura, sempre carinhosa!!!
abraço forte!!
Olá, o Marcos não está falando demais, não! Vc tem um perfeito domínio narrativo, nas ações e nas palavras, tudo amarradinho. Nada fora do lugar. Cada palavra é útil, e se ela faltar tudo se perde, justamente porque vc foi ao limite onde tudo é essencial. Parece que o que sobra em sua técnica narrativa falta ao personagem: nada dá certo para ele, coitado! Estar na rua para ele parece que foi libertar-se da opressão das necessidades que a sua vida impunha no seu apto. Belíssima imagem: "os óculos caíram no vaso.
Não geraram flor."
Aliás, vc é uma poeta todo prosa.
Cabe mais um no fã-clube?
Parabéns outra vez.
Só discordo da idéia da academia brasileira de caretas. Teu texto é muito vanguardista pra entrar lá. Acho que teu lugar é aqui mesmo, e quem sabe uma praça, com uma folha e uma caneta na mão, o olhar no horizonte.
Um abraço,
Felipe
É Leandro, o personagem não coube no sistema, procurou linhas de fugas, sentiu o desapego, sentiu a inutilidade de várias coisas que somos quase obrigados a achar úteis. Descobriu somente que estava vivo, e, assim como a grama, que nasce em qualquer lugar, enfrenta qualquer pedra, ele optou por resistir.
Seus comentários são sempre produtivos graças a sua visão aguda.
Fico cheia de contentamento, obrigada!
Abraços!
Ah Felipe! que é que eu digo? ter fãs assim é ter mais graça na vida. E concordo muito com você, prefiro mesmo uma praça, papel, caneta e olhar no horizonte e me deixar ser atingida pelas intensidades que me tocam. E ainda sem uma farda!
Abraço bem grandão para você viu?
eu também não sou fã de academias não.
foi só força de expressão, na falta de palavras...
reitero: texto muito bom!!
abs.
Abração Marcos!! fico grata e feliz com sua leitura!!!
Vitória Maria · Campina Grande, PB 2/2/2007 09:16
É, Vitória... tem jeito não!
O magnetismo do seu texto já atraiu meio mundo!
Não tem como passar pela fila de votação, ver um texto seu e não entrar pra ler! Tá ficando braba a coisa!
E que continue braba!!!
Muito bom!
Eita Carlos!! fico até envaidecida!..
Continuemos!!!
super grata!
Abraços!
Fica pouco a dizer, mas o texto é maravilhoso. Emocionado, agradeço.
Camafunga · Pelotas, RS 5/2/2007 18:09
Eu tb te agradeço emocionada!!!
abraço!!!
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