Não me peçam para libertar a poesia da clausura das formas, dos grilhões das regras, dos ditames das leis, dos padrões ou padrinhos...
Não. Não me peçam tais coisas inconcebíveis, incompreensíveis, inimagináveis, impossíveis, absurdas.
Não me peçam quimeras, nem cometam tresloucada e desnecessária fuga lingüística em nome do empirismo, de sentimentos banais ou da pseudoliberdade poética.
Não. Não me peçam isso, porque a poesia não é refém desses dogmas, não obedece a essas diretrizes, nem se prende a regulamentos. A única lei em que se espelha a poesia é a lei do ventre livre, que contempla a estética, mas também o inexplicável, o indizível, a invisibilidade e a beleza incorpórea, porque toda poesia nasce indelével, vive solta e é protagonista de sua imortalidade.
Poesia é essência da criação humana, disforme, fantástica e transcendental. Por isso não se traduz, não se pega, não se paga, não se apaga, nem se vê, apenas se sente, embora habite em muitas dimensões: em versos, em prosas, em rimas e em diversos formatos de poemas, que se tornam seu corpo, seu porto, seu abrigo, sua casa, mas nunca presídio, correntes, nem algemas.
Não me peçam uma descrição da poesia, pois ela está acima de todos os dizeres e pensares, gêneros e estilos, sentimentos e racionalismos, sensibilidades e inspirações. A idéia de que regras, formas, métricas, ritos e ritmos sufocam a poesia é uma falácia. A poesia não nasce na forma, mas na palavra; não está no verso, mas no inverso; não está na matéria, mas no espírito; não está no aspecto, está no espectro; não está no sentimento, mas no sentido instintivo; não está no coração, está na mente; não está no chão, levita. A poesia não é propriedade do chulo ou do erudito, nem das estruturas e teorias, mas somente da arte, razão por que pode incorporar-se, espontaneamente, num soneto ou num poema livre.
Não. Não me peçam para libertar a poesia, pois é ela que nos liberta, que nos transporta e nos faz criar e expressar o mundo e sentimentos com a linguagem da alma, o poder da palavra e a verve que se faz verbo.
Não me peçam para violar regras e corpos de mortais poemas, pois estes são frágeis invólucros da essência poética e precisam de suas múltiplas formas para sobreviver à luz da ciência, ao contrário da poesia, que tem natureza libertária. No âmbito metafórico, a poesia está para o texto como a alma está para o corpo. O texto e o corpo têm formas; a poesia e a alma são imateriais; poema e poesia podem interagir, mas orbitam planos diferentes.
Não. Não me peçam, enfim, antropofagias. Não convém canibalizar a estética, nem qualquer modelo literário. Deixem o poeta e a palavra exercerem o seu estado laico, natural, democrático, longe de preconceitos vulgares ou acadêmicos. Peçam-me somente para escrever versos e prosas, com a liberdade de escolher entre o estilo clássico e o popular, entre o livre e o formal. Talvez em algum deles a etérea poesia se incorpore para realizar o milagre da criação artística.
Mestre,
Posso assinar - também - este magnífico texto onde se lê: prosa/poema-protesto?
Belo..........
Abçs. Benny.
Benny, vc sabe que a poesia é a alma do poema. Não importa a forma do seu texto; o que vale é a arte que se esconde (ou se cria) na palavra ou no jogo semântico. Por isso vale a pena garimpar as metáforas dos poemas bennygnos: negros como o açai, mas cândidos como o cupuaçu (tsss)
Frazao my brother · Anastácio, MS 4/8/2007 17:38
A poesia é a alma do poema e cabe em prosa, verso e...
sim, sim, porque não, em gesto!
Frazão,
Um poeta
o coração dilacerado,
Mesmo a razão perdida,
Encarnaria de alma o poema,
Lavrando pura poesia.
Abraço amigo.
Obrigado, Adroaldo.
Acabei de ler o seu expressivo comentário sobre o texto da Ise e o vejo aqui, agora, brindando-me com sua luz de redator e poeta.
Realmente, a poesia é capaz de materializar-se, também, em gestos e paisagens; ou então são gestos e paisagens que carregam poesia, para alguns olhos. "Há quem olhe para uma floresta e só enxerga lenha"
FRAZAO,
você falou muito bem da poesia, e concordo quando diz, entre tantas coisas, que ela não é refém de dogmas. Todas as coisas cabem na poesia, o que a encanta é sempre essa possibilidade de se renovar, de dizer tantas coisas iguais e ser tão diferente.
Abraços de Betha.
Olá Frazão, vc me trouxe a chave. A poesia não nasce na forma, mas na palavra. Nossos textos se encaixam, não é? Embora o seu, de longe, diga mto mais...É aquilo que eu digo sobre a aprender a colocar poesia na palavra.
Parabéns amigo e mto prazer em conhecer vc
Abraço
Betha e Iza, obrigado pela atenção. Vocês ajudam a enriquecer este site com textos e comentários inteligentes. Estou aprendendo muito aqui, apesar do pouco tempo de que disponho.
Aproveito o tema "POESIA" para oferecer a todos vocês um interessante poema do grande Gilberto Mendonça Teles:
---------------------------------------------
Poema/poesia
Por mais que busque a poesia
e queira agora a coisa extrema,
só recolhe no fim do dia
a construtura do poema.
Algo se perde ou algo lhe falta
enquanto enfrenta este dilema:
a nuvem sempre é bem mais alta
que a forma expressa do poema.
Pode a palavra estar vazia,
barca infernal que ninguém rema,
não chega nunca à poesia,
naufraga inteira no poema.
Mas tanto insiste e tanto teima,
tanto resmunga ave-maria,
que acaba fazendo o poema
como se fosse a poesia.
Frazão seu texto me fez lembrar algo que escrevi uma vez na tentativa de expor em palavras a imagem de pensamento que a "palavra" me insprira ao assumir a estética poética.
Lembrei-me de ter lido algo a respeito dos índios Guaranis para quem, em língua materna, ñe’e pode significar tanto "palavra" como "alma". Acho que é isso... O poéta seria aquele que dá vida as palavras, que "faz nascer" palavras encarnadas de alma, uma palavra que está para além do nome, que desdobra em sentidos. Na época eu comentava que dispor da palavra poderia ser um dom ou uma maldição, através dela, tanto poderíamos revelar as paixões que nos mantem vivos em comunhão, como constatar os exílios do homem em relação ao seu próprio mundo... Defendia que o poeta bem poderia ser o mediador deste debate em favor da vida, pois, na proposta do poeta estaria, justamente, a possibilidade do constante devir, “fazer nascer”, renascer, reinventar o mundo.
Puxa! Você, com suas palavras encarnadas de alma revelou os sentidos daquilo que eu não sabia traduzir em palavras mas, que que sinto quando leio Drummond, Clarice, João Cabral, Guimarães Rosa, Cora Coralina, Manoel de Barros, Pessoa, Adélia Prado, tantos, tantos...
Obrigado, Nhande-Dag (nossa Dag),
Você é uma guarani (guerreira) kaiua (que tem o dom da palavra). Sabe que a vida ou a morte está na palavra. É assim para os guaranis: a alma está vinculada à palavra; cada índio que nasce é uma encarnação da palavra; quando ele(a) morre, é uma palavra que se apaga, ficando desarticulada.
“A criança (palavra) deve ser bem cuidada pela mãe, como o milho é beijado pelo vento” – li em algum lugar, num desses dias, da lavra de um cacique. Considerei uma poesia indígena, rápida e certeira como a lança guarani.
Se o Brasil continuar tratando o índio (e a língua) com a ignorância vigente, em um futuro não muito distante estaremos voando como flecha perdida em busca de nossas origens etnicas e lingüísticas.
Sou raso em conhecimento da língua indígena, mas acho que a magia poética está em qualquer idioma. No texto que você produz, por exemplo, percebo o ritual sonoro de palavras bonitas, harmônicas, lançando idéias críticas com uma alegria lexical que já encarnou o seu corpo. E o que é melhor, proporcionando a todos nós do overmundo uma interação tribal na dança das palavras que vão nascendo.
Pitér (em guarani)
frazão
Frazão, quem teve a oportunidade de conhecer o poeta Gentileza sabe que ao lhe apresentado ouvia dele a seguinte pergunta: Qual a cor da minha aura? Pois, então, saiba que apesar de não o conhecer pessoalmente, através de suas palavras, posso apostar que a sua aura irradia todas as cores do arco-iris, todas as possibilidades de misturas e nuances. Sua generosidade ao ofertar a palavra... aberta, franca, liberta... para que ao ser lida possamos retirar delas suas margens... deixá-las dispersar por fluxos e matizes onde o movimento abandona a escritura do "querer dizer" deixando para aquele que a recebe fecundá-las com seus próprios sentidos.
Abradeço assim a palavras recebidas.
Obrigado, professora.
Se algum arco-íris orbita minha aura, tenho certeza de que muitas cores emanam de suas palavras sábias e gentis. Por isso o meu respeito e admiração pela sua performance intelectual que se engrandece pelo revestimento da simplicidade e pela sua agradável e peculiar capacidade de comunicação.
Tenho visto o seu embate inteligente ao lado da não menos ilustre sua colega Ize, a quem estendo a mesma admiração.
Añuá guasú.
Frazão, adorei! E já deixei meu voto.
"...Poesia é essência da criação humana, disforme, fantástica e transcendental..."
Preciso falar mais? Lindo, muito lindo!
Abraços,
Márcia
Aproveito pra te convidar a ler meu soneto "Contradança".
http://www.overmundo.com.br/banco/contradanca
E por algum motivo insuspeito,
inda té hoje não viera aqui.
Quimera, considera, reverbera, vocifera: jabuti!
Já viu tanta desfaçatez e desconsideração. Anta!
Tanta hora, ainda metida em confusão.
Podia desde agosto do passado ano,
ter levado pra casa o encanto do mano.
E de pé quebrado,
Rima torta, aprendido,
todavia
que poema não é poesia,
ainda que tenta.
Beleza, Frazão.
Beijin.
Nada contra a métrica, o ritmo e a rima, mas a poesia pode estar levitando acima de fórmulas parnasianas.
Jairo Oliveira Ramos · Aracaju, SE 9/2/2008 22:31Magistral o textro, você é brilho rm teu versar!
Berioliveira · Vitória da Conquista, BA 4/3/2008 16:06
Perfeito!!
Sinto-me até mais a vontade em me arriscar com as palavras...
Quem sabe as liberto com meus pincéis?
Abraços!!
e muito sucesso a vc!!!
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!