LIQUIDIFICADORES AVALANCHE - CAPÍTULO 20

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Marcelo Bretton · Espanha , WW
31/8/2016 · 0 · 0
 

Ela não tinha fome. Ela tinha medo. Remexeu no prato, empurrando o filé ao molho de gorgonzola de um lado para o outro sem intenção de comê-lo. Esperava a ligação da sua mãe com tanta ansiedade, que o seu fluxo menstrual aumentara sobremaneira, já achando que atrairia morcegos hematófagos ao se deitar. Tinha que lembrar de fechar o basculante do banheiro quando voltasse ao seu quarto.

— Você não comeu nada – Sublinhou a cena William, que devorava com vigor a sua lasanha verde com abobrinha. O homem era vegetariano, e de vez em quando lançava um olhar para o prato da sua acompanhante como se estivesse assistindo a uma autópsia.

— Ainda estou com o estômago embrulhado. Acho que se por isso na boca a cena do avião se repetirá – Ralhou com um sorriso amarelo a lhe enfeitar os lábios, que ostentava um batom claro passado às pressas, apesar de estar impecável dentro de um vestidinho curto, azul claro, simples e elegante.

— Melhor então seria pedir uma canja?

— Não. Hoje vou passar com água apenas. Amanhã estarei mais disposta. Aliás preciso estar para trabalhar.

— Você não me disse no que trabalha.

— Mulher de negócios – Afirmou Sarita tentando não ser específica, pois não estava nem um pouco a fim de falar sobre a sua carreira.

— São poucas as que vejo por aí.

— E você?

— Homem de negócios – Repetiu, com ambos rindo pela primeira vez juntos.

Ela imaginou o tamanho do leque de opções que caberia naquele termo homem de negócios. O rapaz podia ser desde de um traficante de drogas até representante de um sheik árabe, já que naquela região o que não faltava era maconha e petróleo.

— Então como pessoas de negócios, bons administradores de tempo que somos, melhor ir dormir.

— Mas você não toma nem uma água de coco comigo? – Pressionou-a a consumir algo saudável para a sua condição.

— Isso eu topo, se é que por aqui, nessas terras áridas eles conhecem essa fruta – Ironizou Sarita, notando a quantidade de mandacarus entre o aeroporto e o hotel.

De fato quando pediram água de coco ao garçom, ele fez uma cara, de que se aquele pedido não estivesse vindo de pessoas esclarecidas, faria uma chacota. Era notório o esforço que o homem fazia pra se segurar, como se já tivesse uma resposta pronta pra aquele tipo de disparate.



— Sinto muito senhor, água por aqui só mineral. Mas temos sucos de umbu, siriguela, biribá, jenipapo, sapoti e araçá.

William olhou para a sua acompanhante, que deu de ombros como se tivesse escutado a leitura de um cardápio em tupi guarani.

— Têm banana?

— Sim senhora.

— Me bata uma vitamina por favor. Sem leite.



E foi depois de prosearem um pouco mais sobre a balança comercial, a paridade das moedas estrangeiras, e a meta da inflação, que Sarita se deu por vencida, sabendo que conversar com aquele homem, que discorria sobre comércio exterior e a teoria do caos como se estivesse ensinando uma criança a ler e escrever, que ela pediu licença, pagou a metade da conta, e caminhou exausta até o seu quarto. Ela fizera o convite a William por vaidade. Seria um afago no ego trincado pela traição ouvir um pouco um homem falar da sua beleza. Sentir-se lisonjeada, massageada no âmago. Mas tudo o que escutara fora uma defesa das teorias de Adam Smith, como se ele fosse o advogado do pai da economia moderna.



Trataria de tomar o café mais cedo do que o horário que eles tinham combinado, e sairia para encontrar Júlio Bracci para o último depoimento. Tentou ligar para casa, mas ninguém atendia. Aquilo a estava torturando. Tirou da bolsa um comprimido que ela só ingeria em situações como aquela, e colocou o relógio para despertar. Antes de deitar, trocou o absorvente e foi fechar a janelinha do banheiro por instinto. Aquilo era infantil, mas se sentiria melhor. Caiu num sono profundo, permeado de pesadelos esparsos sobre pessoas vestidas de preto, com dentes enormes que a perseguiam com jarras de suco vazias.



...



— Você realmente está se sentindo bem para ir buscar Dado? – Questionava Maytê, com o último fio de esperança se esvaindo. Como ela queria que ele esquecesse essa ideia de trazer o filho pra passar um mês inteiro entre eles! Se um fim de semana lhe parecia como andar um quilômetro sobre brasas incandescentes, trinta dias seria uma temporada completa no inferno.

— Claro que sim, meu amor. Estou empolgadíssimo com a chance de poder me aproximar de Eduardo. Quero que ele faça uma outra imagem do pai dele. Sei que fui omisso, mesmo quando casado com Sarita, devido ao trabalho. Mas vejo que trabalho nenhum do mundo vai me fazer desistir de me tornar um exemplo para o meu filho. Quem sabe até um herói.



Maytê franziu o cenho e observou o marido, imaginando ele metido numa fantasia de super qualquer coisa, com aquele shortinho colorido desenhando a silhueta do seus bagos enormes e moles, com uma camisa justa a lhe emoldurar os peitos que lhe caiam em sinal da idade e, uma faixinha na cabeça ressaltando a sua calvície. Não lembrava de nenhum herói que usasse cavanhaque, fizesse manicure e, que já tivesse infartado. Por via das dúvidas, iria com ele pra fazer o papel de boa madrasta, e para impedir que Augusto o convencesse de que tinha super poderes. Talvez o peido mais assustadoramente fedorento que um ser humano pudesse expelir pelo reto. Só conseguiu desamarrar a cara quando o vislumbrou na forma de um gambá, trajando as vestes de um macaco de realejo, adornado com uma capa vermelha, que se movia para cima a cada sessão de flatulência pútrida. Colocou seus peitos enormes dentro de uma blusinha de alça, sem sutiã, e entrou numa uma calça jeans justa, metendo os pés num par de tamancos, para em seguida entrar no carro, seguida por uma nuvem de perfume francês.



— Sabe meu bem, assim que o projeto de expansão da empresa estiver concluído, creio que em mais dois ou três anos, podemos ter o nosso filho – Projetou ele, olhando para a esposa, mais sexy do que nunca depois de maquiada.

— Tudo bem meu amor, mas é que me sinto preparada pra ser mãe agora.

— Vai treinando com Dado.

— Dado têm oito anos Augusto! Eu quero pegar um bebê no colo – Resmungou diante da ideia estapafúrdia dele.

— Que tal se visitássemos uma creche todos os fins de semana, para travarmos contato com recém-nascidos? Existem programas em que podemos fazer uma adoção postiça. Eu já vinha pensando nisso há algum tempo. Podemos ser mantenedores de algumas crianças pequenas abandonadas sem a necessidade de levá-las para casa. Talvez passar um fim de semana conosco, ou coisa assim.

— Augusto, você tá pensando em alugar um recém nascido para eu ir treinando?

— Em outras palavras, sim.

— Que cruel da sua parte. Depois que essas crianças se apegarem a nós, as devolvemos à creche? Assim, simples?

— Não. Elas serão mantidas por mim até a vida adulta. A empresa terá desconto no imposto de renda por essa boa ação.

— Meu Deus, tudo são negócios na sua cabeça?

— Trata-se de uma mão lavar a outra.

— Prefiro brincar de boneca – Afirmou emburrada, e se fechando em copas até o carro estacionar na frente da casa de Sarita. A primeira coisa que Augusto notou foi a casa incendiada reduzida a pó do vizinho, ainda com um carro de bombeiros a lhe resfriar.



Sem querer sair do carro para enfrentar a sua ex-sogra, Augusto buzinou, e logo Dado apareceu na porta da frente carregando uma mochila e uma mala pequena de rodinhas. Dona Odete acenou com a mão de longe, deu um beijo no neto e esperou ele entrar no carro. Maytê preferiu não encarar o semblante da mãe de sua ex-amiga, e apertou as bochechas de Dado, fazendo uma festinha que beirava o ridículo, tal a péssima atuação da atriz em questão. Quando o carro se pôs em marcha, ela notou pelo retrovisor que Dona Odete olhava longamente para a casa destruída, com um ar de tristeza. Ou seria preocupação?



— Pai, nós vamos pro shopping?

— Conforme eu prometi. Antes vou dar uma passada na empresa pra assinar uns documentos, e depois teremos o dia inteiro para nos divertir.

— Êêêba! – Gritava o menino no banco traseiro, sem deixar de notar o tamanho dos peitos da sua madrasta dentro da blusinha, e os mamilos, que aquela altura estavam tesos como concreto armado. Aquilo o levou a pensar em Kika, e no tempo que levaria para vê-la outra vez. Talvez ela já o tivesse trocado por outro. Malditas férias. Tinha que fingir estar feliz como sua mãe lhe pedira, porque o seu pai tivera um sério problema de saúde, e nada podia aborrecê-lo. Ele estava disposto a pagar o preço, mas teria que cobrar o reembolso de alguém depois. Olhou outra vez para as mamas de Maytê, que agora balançavam suavemente com as irregularidades do asfalto da avenida em que trafegavam, e sentiu o pau endurecer. Rezava baixinho para que todas as portas da casa do pai ainda tivessem buracos de fechadura.



...



Certa manhã, um fazendeiro descobriu que sua galinha tinha posto um ovo de ouro. Apanhou o ovo, correu para casa, mostrou-o à mulher, dizendo:
— Veja! Estamos ricos!
Levou o ovo ao mercado e vendeu-o por um bom preço.
Na manhã seguinte, a galinha tinha posto outro ovo de ouro, que o fazendeiro vendeu a melhor preço.
E assim aconteceu durante muitos dias. Mas, quanto mais rico ficava o fazendeiro, mais dinheiro queria.
Até que pensou:
"Se esta galinha põe ovos de ouro, dentro dela deve haver um tesouro!"
Matou a galinha e ficou admirado pois, por dentro, a galinha era igual a qualquer outra.
Esopo
Quem tudo quer tudo perde.

— Mas que diabos é isso? É algum tipo de brincadeira? – Perguntava Chita, olhando fixamente pra cara da mulher magra e com um cabelo louro falso que parecia mais um sabugo de milho.

— Deve haver algum engano! – Protestou ela, rebobinando a fita e constatando que o que tinha gravado ali era uma fábula, ao invés da reunião da diretoria.

— A senhora me fez perder meu tempo pra ouvir historinha infantil? Minha senhora, nem filho eu tenho. Nem infância eu tive, fique sabendo! – Esbravejava o repórter, levantando-se para abrir a porta e se livrar daquela criatura nefasta.

— O senhor não está entendendo...

— Quem não está entendendo aqui é você, Dona... nem sei o seu nome, mas também não tô nem fazendo questão de saber! Vá embora!



Rogéria não teve alternativa a não ser meter o seu rabo no meio das pernas, e humilhada, saiu do prédio do jornal, sabendo de quem era aquela voz na fita, narrando aquela patetice. Quem tudo quer tudo perde. Aquilo era um direto de direita no queixo dela, dado por quem ela menos esperava. Só que ela não fora a nocaute como era de se esperar. Estava apenas caída num canto do ringue, e não deixaria o juiz contar até o dez nunca.



Voltou pra casa, e com o ódio que consumia as profundezas do seu ser, espetou Cobra nos ganchos com uma violência exagerada, para deleite do rapaz, e o pendurou de bruços apenas com a pele lhe sustentando o corpo. Ela deitou-se no chão, bem embaixo de onde o seu amigo flutuava, apenas para captar toda a dor que o filho da puta estava sentindo, mesmo que com isso, ele tenha feito mais caretas de regozijo.

Sobre a obra

Sarita Leitão (apesar de odiar o sobrenome herdado do ex-marido, temia em recuperar o "Pinto" do pai no seu documento), fora demitida da empresa depois de anos de dedicação e intrigas internas.

A Liquidificadores Avalanche passava por um mau momento, devido aos processos que se acumulavam na justiça, vindos de consumidores eletrocutados enquanto faziam suas vitaminas pela manhã com um dos seus eletro portáteis.

Desencanada que era, resolveu dedicar-se a Bebeca, sua lulu da pomerânia, enquanto administrava os perrengues cotidianos, inclusive os de Dado, seu filho precoce de oito anos que já se iniciava na arte do onanismo. Também havia os exageros da sua mãe, que via o mundo sob uma ótica peculiar e, o seu novo namorado, que gostava de colecionar coisas estranhas, como piercings usados e dentes cariados.

Tudo muda quando ela recebe uma ligação.

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MARCELO BRETTON
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