LIQUIDIFICADORES AVALANCHE - CAPÍTULO 21

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Marcelo Bretton · Espanha , WW
7/9/2016 · 0 · 0
 

Com um safanão certeiro, ela jogou o celular no chão do quarto, achando que se tratava do despertador. Com a consciência recobrada depois de uma noite de sono induzido por remédio, se deu conta de que o toque era de uma chamada. Tirou o tapa olho e saiu cambaleando, seguindo a luz e o som estridente do aparelho, atendendo em seguida a ligação.

— Mamãe, que voz é essa?

— Como?

— Meu Jesus Cristo! Como foi isso?

— Têm certeza que a senhora não sabe como o fogo começou?

— Sei, isso já com o corpo lá dentro. Hum, hum.

— Dona Odete, você tá me escondendo alguma coisa?

— Se foi assim então, a providência Divina nos ajudou.

— Ok. Eu tinha combinado com Augusto. Dado vai ficar bem.

— Eu sabia que a vaca também ia só pra demarcar território.

— O Sargento Iglesias? Huuum.

— Mamãe, preciso sair pra trabalhar. Chego hoje à noite em casa. Outro. Tchau.



Sarita tinha certeza que a sua mãe estava metida até o pescoço no incêndio da casa, com os dois corpos lá dentro. Ela só não quis preocupá-la. Mas isso a deixara ainda mais preocupada do que se ela tivesse contado a verdade de uma vez. Ao menos ela poderia afirmar com todas as letras que ninguém a vira praticando um crime. Olhou pro relógio, e se deu conta que tinha que tomar café antes do horário marcado com William. Já temia como seria a segunda aula de economia, com o rapaz mais interessado na Escola Keynesiana do que nas suas pernas. Ela estava ficando farta de gays, assexuados, bissexuais e qualquer ser humano do sexo masculino que não gostasse tão e somente de uma boa perereca. Era preconceituoso da sua parte pensar assim, mas com o ponteiro da carência beirando o vermelho, ela podia se dar ao luxo de pensar como uma antissemita, a hora que lhe aprouvesse. Não que ela fosse uma, era apenas a comporta da sua barragem que protegia a sua sanidade revelando uma pequena rachadura, e dando vazão ao lado escuro da sua alma. Mas com a lembrança do Sargento Iglesias fazendo menção a sua existência, foi como se uma betoneira concretasse a fissura, e logo se sentiu melhor.



Optou por trajar um conjuntinho leve de top cropped e short combinados, com estampa floral, em função do calor abrasivo que fazia na cidade. Apesar da roupa informal, de maneira alguma estava vulgar ou fora do contexto para a entrevista. Pôs os apetrechos para gravar e fotografar Júlio numa bolsa de couro, e pegou um táxi. Como saíra mais cedo, pediu ao motorista, que antes de chegar no endereço pretendido, queria conhecer o centro da cidade. Imediatamente, o homem idoso assumiu ares de guia de turismo, desfiando um rosário de histórias escabrosas sobre o local. Sarita, arrependida com o desvio, resignou-se.



— Ali na esquina nós temos o prédio mais alto de Vila Nova, hoje abandonado pelos moradores. Ninguém têm coragem de entrar ali dentro. Foi construído na época pelo prefeito da cidade, um homem de posses e odiado pela oposição. O candidato derrotado espalhou que o edifício foi construído em cima de um cemitério indígena. Depois disso, os moradores que tinham comprado o seu apartamento com muito sacrifício, começaram a ouvir vozes, barulhos estranhos, correntes arrastando, e gemidos de arrepiar cabelo em quem não têm. Todo mundo pôs o imóvel à venda ao mesmo tempo, mas ninguém quis comprar. Mesmo com preços que beiravam um mês de aluguel, ninguém se aventurou a adquirir nada por ali. Hoje, passado muitos anos, alguns se suicidaram, outros estão internados em manicômios do estado, e o antigo morador do oitavo andar é aquele ali ó! – Disse, apontando para um homem maltrapilho, pedindo esmolas numa esquina movimentada.

— Meu Deus, quanta injustiça! – Foi a única coisa que Sarita conseguiu pronunciar, ainda duvidando do quiproquó.

— Teve justiça sim! Desidério, o candidato derrotado, foi atropelado por um estouro de boiada na própria fazenda. Num sobrou nada do homem pra enterrar. Dizem a boca miúda que Petrônio, aquele mendigo ali que a senhora tá vendo, foi quem abriu a porteira e incitou os bichos. Muitos não duvidam, pois o homem não ficou muito bom da cabeça depois que perdeu seu único bem. Outros acham que faz parte da vingança das almas que tiveram seus túmulos devassados pelas fundações da construção. Uma maldição.

— Mas parece que têm gente morando ao redor do prédio – Ela argumentou na esperança do homem gaguejar.

— Dizem que todos são parentes dos mortos. O que não deve ser mentira pelas feições arredondadas, aqueles cabelos lisos e a pele morena. Eles não foram afetados pela maldição. O único cara pálida ali de perto é o Sr. Uribe, que é pai de santo e já têm o corpo fechado mesmo, por natureza. Mas agora vou te mostrar o antigo aeroporto, onde teve um acidente que marcou a história da cidade em mil novecentos e....

— Não, por favor, me leve pro endereço que te dei. Acho que já está na hora – Ordenou, lembrando que ela própria entraria num avião mais tarde.



Como se fosse uma criança da qual lhe tiraram um doce da boca, o taxista fechou a cara, girou a bandeira dois no taxímetro, e rumou pros subúrbios da cidade, onde o povo mais favorecido reinava absoluto, banhando-se nas suas piscinas com cascatas, assando suas carnes em churrasqueiras enormes onde caberia um boi inteiro em cima da grelha. Ele conhecia bem a história daquele Júlio Bracci. O industrial cuja mulher o abandonou por ser broxa, e agora enrabava até galinha na feira, tal a disposição sexual do elemento depois de levar um choque de um liquidificador. Ele estava pensando seriamente em comprar um bicho daqueles pra ver se o seu falecido voltava a atividade depois de tantos anos. Mas quando pensava no que teria que encarar na sua cama, com o pinto em riste, Gertrudes, sua mulher, com 82 anos de estrada, treze filhos de parto normal, preferia manter o aparelho velho na cozinha, que ainda lhe fazia uma abacatada com perfeição.



— Pronto dona. É aqui – Anunciou seco, já avisando o preço da corrida.

— Creio que não vou me demorar aqui. Se o senhor quiser esperar, pode deixar o taxímetro ligado.

— Bom, nesse caso, tudo bem – Refletiu melhor, achando que Júlio tinha contratado uma puta de luxo para uma rapidinha. Fingiu que ligava o rádio, só pra admirar o traseiro daquela jumenta da cidade grande, que balançava mais que as frutas na cabeça de Carmem Miranda quando ela dançava Tico-tico no fubá.



...



Cecília ligara para avisar o horário do ônibus que pegariam para a Fazenda Monterrey, onde se realizaria um festival de rock universitário durante o fim de semana. Suas bandas alternativas prediletas estariam todas lá, e seria uma jeito estupendo de começar as férias. Dormiriam na barraca de Denise, cujo pai era militar, e possuía uma tenda de três quartos com espaço suficiente para o trio. Kika lembrava da malfadada estreia das férias do ano anterior, quando tinham escolhido passar uma semana na praia. Se pudesse voltar no tempo, teria preferido ficar em casa assistindo documentários sobre a vida marinha, devido as situações bizarras pelas quais passaram.



Fincaram âncora numa praia selvagem sem infraestrutura alguma. Levaram comida enlatada, fogãozinho, panelas e tudo o mais que fosse de utilidade. E inútil também. Pareciam uma tribo nômade tal a quantidade de apetrechos desnecessários. Até um ferro de passar roupa. Só se deram conta que não havia onde ligá-lo, quando foram desarrumando as tralhas que tinham levado. Perderam um dia de praia apenas com a montagem da casinha de lona e com a arrumação das roupas em um armário portátil. No segundo dia, Laura fora atingida por uma água viva que queimou todo o braço direito, e fora internada, com Kika, Cecília e Denise lhe fazendo companhia, dormindo umas sobre as outras, no corredor do hospital público. No terceiro dia, Cecília pisou num anzol enferrujado, e as amigas a levaram para extraí-lo e tomar uma antitetânica. No quarto dia, Denise teve uma infecção intestinal devido a uma feijoada enlatada vencida, e passara o dia tomando soro. Já no quinto dia, Kika levou uma mordida de uma cachorro de rua, sendo acudida para lhe aplicarem uma antirrábica no pronto socorro. No sexto dia, as quatro ligaram para as suas mães chorando para irem buscá-las, antes que a sequência de desgraças randômicas, recomeçasse por Laura outra vez.



Kika sorriu com a lembrança daquela comédia de erros, enquanto jogava suas camisas pretas numa mochila. Black Sabbath, Iron Maiden, Deep Purple, Van Halen. Segurou a dos Beatles em dúvida, e por fim, guardou-a de volta na gaveta. Aquela estava guardada para uma ocasião mais especial, já que fora presente do seu falecido pai quando voltara do enterro de sua avó na Escócia. Ela lembrava com carinho do seu genitor, do onipresente cheiro agridoce que exalava dele pelo consumo diário de uma garrafa de uísque. Mesmo sendo alcoólatra, ele nunca deixou de lhe dar carinho, nunca sequer tinha lhe dado um puxão de orelha, um beliscão. A amava acima de tudo, a cobria de mimos e presentes, sempre era o primeiro a aparecer no seu quarto no dia do seu aniversário, e fazia questão de ir às reuniões de pais na escola. Nesses dias, ele só começava a beber depois que chegasse em casa. Kika sabia o sacrifício que era ele se abster do seu vício, por algumas horas que fosse. Via as mãos trêmulas, os tiques nervosos, o suor profuso, o seu corpo gritando por uma gota de álcool. Mas ele se mantinha firme. Conversava com todas as professoras, queria saber tudo sobre a sua filha. Quando se dava por satisfeito, saiam para comprar discos de rock.



Quando fora diagnosticado com cirrose, ele chamou-a para uma conversa.

— Filha, sei que você já tem idade para entender o que fazemos de ruim nessa vida. Tentei ser o melhor pai do mundo pra você, mas acho que fracassei. O meu vício pela bebida foi mais forte do que eu, e isso têm um preço. Eu estou doente. Não tenho muito mais tempo para compartilhar com você. Você têm todo o direito de me julgar e de seguir o meu exemplo, ou não. Uns chamam de livre arbítrio, e eu chamo de a diferença entre ser esperto e tolo. Tenho certeza que você evitará seguir os meus passos trôpegos, pelo amor que sentimos um pelo outro.

— Eu te amo papai – Pronunciou, com a voz embargada e lágrimas nos olhos, sabendo que o que sua mãe lhe contara sobre o fim das pessoas alcoólatras, estava ganhando forma ali na sua frente.

— Não tenha pena de mim, pois eu mesmo não tive. Só quero que você me tenha aí dentro do seu coração enquanto ele bater. Seguirei vivo aí dentro.



Sei pai fora atropelado dois dias depois, quando saía do hospital, onde estava internado para conter um sangramento causado pela doença. Ela estava no carro com a mãe, do outro lado da calçada, aguardando que ele atravessasse. Seu pai caminhava com uma rosa branca na mão, e o seu aspecto era melhor. No meio da travessia, a rosa soltou-se das suas mãos frágeis, e caiu no asfalto. Um caminhão dobrara a esquina, entrando na avenida principal, onde John agora estava abaixado, tentando agarrar a rosa que teimava em lhe fugir, por conta de uma rajada de vento. Ele praticamente estava de gatinhas, quando o pneu dianteiro da enorme caçamba passou por cima do seu peito.



Sua mãe soltara um grito abafado, levando as mãos à cabeça. Kika nunca esqueceu o som dos ossos do seu pai sendo triturados debaixo daquele pneu. Ela não derramou uma lágrima sequer durante os seis dias seguintes, quando durante a missa de sétimo dia, em homenagem a pessoa que ela mais amara nesse mundo, finalmente deu vazão a toda a sua dor, depois que o padre citou o nome que ela não queria ouvir homenageado naquelas circunstâncias. John Campbell.



Fechou a mochila com os olhos marejando, pegou o ipod, as chaves de casa, e deixou um bilhete para a sua mãe, que apesar de conhecer a sua agenda, muitas vezes sentia falta de um tchau. Mas a despeito dos alaridos vindo da suíte principal, e do ranger violento da cama, era melhor deixar um beijo por escrito.



— Ai pai, que falta você me faz – Disse em voz alta, levantando o porta retratos com a foto dele na mesa de centro da sala, que a mãe teimava em deitar, para escondê-lo dos seus convidados, machos alfa. Saiu, e foi para a rodoviária encontrar as amigas, e quem sabe também um pouco de paz. Ou alguém que a pudesse fazer sorrir outra vez.

Sobre a obra

Sarita Leitão (apesar de odiar o sobrenome herdado do ex-marido, temia em recuperar o "Pinto" do pai no seu documento), fora demitida da empresa depois de anos de dedicação e intrigas internas.

A Liquidificadores Avalanche passava por um mau momento, devido aos processos que se acumulavam na justiça, vindos de consumidores eletrocutados enquanto faziam suas vitaminas pela manhã com um dos seus eletro portáteis.

Desencanada que era, resolveu dedicar-se a Bebeca, sua lulu da pomerânia, enquanto administrava os perrengues cotidianos, inclusive os de Dado, seu filho precoce de oito anos que já se iniciava na arte do onanismo. Também havia os exageros da sua mãe, que via o mundo sob uma ótica peculiar e, o seu novo namorado, que gostava de colecionar coisas estranhas, como piercings usados e dentes cariados.

Tudo muda quando ela recebe uma ligação.

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MARCELO BRETTON
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