O conceito de Erlebnis da Labensphilosophie é redimensionado pelo de Erfahrung de Walter Benjamin, retomado com algumas modificações pelos teóricos de Frankfurt. Nesta perspectiva da experiência, ela não precede a reflexão (Dilthey): a reflexão é ela mesma princípio da experiência. É o indivíduo como um todo, inclusive a partir de sua consciência histórica, que participa da experiência. A Erfahrung se torna uma categoria que rege o princípio da interpretação: daí a contínua reinterpretação da obra, agenciada a partir da história que, sendo sua referência, é também seu objeto de questionamento. Aquela também se volta contra a amnésia do discurso da história. Não se trata apenas de lançar luz e trazer à tona as histórias das minorias ou a ‘‘história do ignóbil ", assim a denomina Michel Foucault - o que já vem sendo objeto de reflexão e pesquisa de historiadores e cientistas sociais, de modo geral, cada vez mais conscientes do caráter do discurso histórico. A tradição de opressão sob a qual vivemos exige uma concepção de história como luta para a liberação dos conteúdos perdidos que a linguagem instrumental tende a iignorar dada a sua ligação com o poder: a habilidade de articular fatos históricos depende de um tipo de linguagem sustentada pelo poder que ela, de volta, sustenta.
Daí talvez possa entrever-se porque a obra literária possui a capacidade de recuperar sentidos omitidos da história factual. A linguagem artística não se compromete com o discurso linear ou com a racionalidade. Devido a isto, encontra-se livre do círculo vicioso da comunicação instrumental e possibilita a emergência, se o possibilitar, da realidade ou da verdade de um evento que, em qualquer momento temporal, existiu.
Bem, todas essas considerações e muitas outras mais, que compõem simultaneamente uma história do conhecimento, provocam não apenas entusiasmo, mas cansaço. E por que comparecerem ao mesmo tempo sensações tão antagônicas? Talvez porque seja mais importante para o texto aquilo que ele faz e não aquilo que ele diz, indicou-o Susan Sontag em seu ensaio Against Interpretation (Contra a interpretação)17, mostrando-se mais próxima de Nietzsche do que outros tantos seus herdeiros (Michel Foucault, Jacques Derrida). Talvez Valéry estivesse sentindo isso, como imenso poeta que é, quando se irritava com a história e com a linguagem que a conduzia. Porque o maior poder da literatura entendida como obra de arte, forma temporal e espacial, é o de desestabelecer o estabelecido ou re-estabelecê-lo numa outra dimensão e com outra intenção.
O desenvolvimento dessa tendência encontra um momento de extrema polêmica e produtividade no Romantismo alemão de 1789, sobretudo com Friedrich Schlegel e Novalis. Suas noções de "poetização" e "romanticização" permitem uma perspectiva histórica de interpretação realmente nova para a época. Para ambos, o sentido de uma obra literária é sempre inacabado e a história da humanidade deve ser vista como um esforço para o futuro, condensado na idéia de "streben ins Unendliche" 20 de Schlegel. Nesse sentido, a poesia aparece em lugar privilegiado, pelo seu caráter fragmentário. Esse caráter fragmentário permite uma historicidade intrínseca a esse tipo de discurso: no processo de expressar a realidade por intermédio de linguagem, a obra fragmentária demanda um renovado esforço de interpretação. Nesta concepção, o crítico pode perceber o fragmento como peça de ficção, não tributária portanto, que conduz a realidade para renovadas possibilidades.
Indo um pouco além, poderíamos ver no chamado gênero poético o melhor exemplo de escrita fragmentária. Aqui a linguagem é informada por uma experiência que transcende os limites lingüísticos temporal e espacialmente. E a expressão, conforme antes entendida (não a comunicação), transcende a linguagem com linguagem, porém linguagem infiltrada do excesso de sentido. Este processo permite uma troca dialética entre linguagem e referência, o que permite ao discurso poético incluir eventos ainda não conhecidos ou mal conhecidos no processo de sua interpretação.
A parte visível de um poema resulta de uma energia que se constitui dentro da língua e com a fala, sem que sua origem seja uma ou outra, por transcendê-las. Como conseqüência, seu telos não se constrange ao sentido lingüístico. Antes, é realizado na dialética entre presença (realização lingüística) e ausência (excesso de percepção ou surplus de sentidos não-verbalizados), que permite à interpretação desenvolver as virtualidades iminentes ao objeto interpretado. A ficção, nesse caso, ou o "ficcional", diferencia-se do "fictício", o que também é o caso do discurso da História, a despeito do modo diverso da Literatura. O que se questiona, aliás, no confronto do discurso da Literatura e do discurso da História são os graus de ficcionalidade. O problema é que, de modo geral, o relato historiográfico torna-se vulnerável, pois formulado com linguagem onerada de conteúdos culturais comprometidos, não só com a subjetividade (daí o caráter ficcional), como pela intersubjetividade coercitiva, quando não pela estrutura de poder que autoriza a legitimidade da linguagem com seus conteúdos culturais e é por ela mesma autorizada.
Aliás, com a dificuldade do estabelecimento de limites rígidos entre acontecimento e ficção, a Teoria da História tem-se esforçado na busca de saídas possíveis, como é o caso, na época em que vivemos, dos escritos de Hayden White, Agnes Heler, Hannah Arendt e o polêmico grupo de Faire l’histoire .21
Assim, estamos no terreno da ficção tanto no caso da Literatura como da História, guardadas as diferenças e as iintenções. Ficção aqui entendida como a totalidade do processo de interpretar e iluminar: poeta e crítico, no caso da Literatura; historiador e intérpretes, no caso da História - permanentemente em confronto no tempo num processo jamais concluso e que, ao incluir a experiência histórica, tende a sair do consenso para o questionamento sucessivo. Vale dizer que a imaginação do leitor, no caso da História, não está prevista na intenção do autor, que não buscou lhe dar lugar (se há muitas maneiras de ler Michelet, é porque Michelet não é apenas historiador. Há-de se diferenciar o processo da interpretação em um e outro caso. No caso da História, podem-se questionar, simultaneamente, fatos e discurso (linguagem, tradutora dos fatos): no caso da literatura pressupõe-se o "objeto" da interpretação, o texto literário, em sua originalidade, em sua força inventiva e em sua forma. Esta, acabada e contida em si mesma, permite a vários leitores-intérpretes entendê-la naquilo que é, à medida que entrevêem significações diversas em situações temporais diferentes. A obra em si mesma permanece em sua estabilidade e autonomia de sentido. Insista-se, portanto: o sentido preexiste às significações que se desdobram na história da interpretação e se lhe sucede - abrindo-se a novas significações (Emilio Betti, Edmund Hirsch entre outros).
No caso especifico da poesia, o elemento sensorial, sua forma, a qual atinge expressão em dois níveis: o do sentido do poema como tal e o de sua significação histórica. Além, um questionamento da própria História, aqui entendida seja como história do pensamento, do sentimento, da emoção, do sofrimento do homem no tempo, ou mesmo de eventos que, sem atingirem o consenso de uma época, permanecem negligenciados pelo discurso instrumental com vistas à comunicação. E mais uma vez em Walter Benjamin que iremos encontrar a articulação adequada do que, sem dúvida, é provocativo, mesmo sem o pretender. Ele diz que articular o passado historicamente não significa reconhecê-lo como "realmente foi" (wie es eigentilch gewesen ist)(Ranke). Significa agarrar a memória quando ela cintila num momento de perigo... O perigo afeta tento o conteúdo da tradição quanto seus receptores. Em cada era deve ser feita a tentativa renovada de arrancar a tradição do conformismo que se encontra prestes a dominá-la. 22
O problema é que os discursos comunicativos se sustentam em premissas lógicas de raciocínio causal, que não permitem à linguagem funcionar como dinamização de conteúdos históricos. Cabe também relembrar o que foi dito antes: o discurso da história não se baseia em acontecimentos, senão em acontecimentos narrados ou anotados (desde as fontes primárias: crônicas e anais); usando a linguagem, portanto. É o que o relato não consegue se livrar da carga da linguagem: esta é seu ponto de partida e de chegada.
No caso da literatura, especialmente da poesia, os meios 1ingüísticos conduzem sempre a experiências ainda não nomeadas, ou que, mesmo, talvez nunca estejam votadas à nomeação. Rompe-se, assim, o círculo vicioso do relato.
A forma fragmentária da poesia dispensa ligações lógicas e sua representação lingüística: como conseqüência, presentificam-se as lacunas, ou como diz Merleau-Ponty, em outro contexto, a "presença da ausência" que é dinamizada no conjunto do processo de dar expressão. Valeria trazer o conceito de expressão de Husserl, já mencionado antes: "[...] uma expressão vivificada por seu sentido total, posta aqui numa certa relação com a percepção, que, por sua vez, é dita expressa (da) justamente em virtude dessa relação. 23 No caso da poesia - da literatura de ficção de modo geral, mais especialmente da poesia - o leitor/intérprete/crítico não é chamado a entender apenas o que o texto diz, mas o que ele omite. O resultado desse processo é ima crescente consciência de movas possibilidades de interpretação.
Outra questão que pode ser levantada é da exaustividade ou da suficiência de interpretações - questão também pertinente à História. A soma de diferentes interpretações de um texto literário nada tem a ver com a ampliação ou conclusão de seu sentido.
A história da interpretação é decisiva para a obra literária: desvela diferentes significações e torna possível uma consciência cada vez maior do que ser chama de "efeito estético" da literatura, a obra transcende à adição das leituras, o que, possivelmente (isto dirão melhor os especialistas), pode ser também resultado da atividade do historiador, votada que seja a outras intenções.
Conforme antes indicado, o discurso da teoria não dá conta da literatura - pode, mesmo, resultar em mera especulação, como testemunhamos tantas vezes. As chaves para atingir as fontes desse saber, situam-se numa biblioteca em movimento cujas chaves só podem ser encontradas dentro da própria obra. Necessário atravessar os espaços que levam à sua porta: as fronteiras entre o que realmente aconteceu e o que irá acontecer depois do evento da obra de arte literária.
Notas
1. Na Crítica do Juízo, Kant usa o termo Einbildungskraft, como imaginação criadora, produtiva, princípio vivificador dae, que é o "espírito" (Gemüt) criador também ativo na arte. Etimologicamente, o termo implica a idéia de perícia (Kraft) na construção de algo.
2. COLINGWOOD, R. G. The Idea of History. London: Oxford University Press, 1963.
3. ORTEGA Y GASSET, J. History as a System. In: ____. History as a System and other Essays. Towards a Philosophy of History. New York; London W. W. Norton & Company. 1941. p.213. (A partir desta, todas as traduções de citações e referências, da autora).
4. Grifo no original.
5. IDEM. Op. cit., loc. cit.
5. DILTHEY, W. Das Erlebnis und die Dichtung (Berlin: 1905). Observe-se que Dilthey adota o termo generalizado a partir dos estudos sobre a imaginação na linha da tradição alemã - sobretudo a partir de 1770. Em 1790. Mauss publica Versuch über die Einbildungs Kraft.
6. BENJAMIN, W. Theses on the Philosophy of History. In: ___Illuminations. Editado com introdução de Hannah Arendt. Tradução de Harry Zohn. New York: Schocken, 1969.
7. WOOLF, Virginia. , Modes and Manners in the 19th century. In: BBOKS & PORTRAITS. Some further selections from the literary and biographical writings of Virginia Wolf. New York and London: Harcourt Brace; Jovanovich. 1977. p. 27.
8. LEVY-STRAUSS, C. La pensée sauvage. p. 341.
9. VALERY, Paul. Cahiers. XXIII. 345 (edição do CNRS). O pensamento de Valéry sobre a História será também referido a partir das Oeuvres da edição da Plêiade.
11. IDEM, ibid.., p. 186.
12. NIETZSCHE, F. The use and abuse of History. In: ___. Thoughts out of Season. Tr. Oscar Lévy. Edinburgh & London. 1910. , 2, parte 2, caracterizando a "história monumental".
13. VALERY, P. Oeuvres. v2. 1509 sq.
14. IDEM, ibid, p. 1221.
15. A Kommunikationssociologie é redefinida a partir da década de 70, com o trabalho de Ulrich Gumbrecht. V. esp, pela clareza de enfoque: GUMBRECHT, U. Konsequenzen der Reception Aesthetik oder Literaturwissenchft als Kommunikationssociologie. Poetica, 7. 1975, p. 388-431.
16. V. excelente trabalho de Hinrich Seeba: Wirkungsgeschichte der Wirkingsgeschichte. Zur den romantischen Quellen (F. Schlegel) einer neuen Disziplin. Jahrbuch für Internationale Germanistik. 3, 1971. Heft 1, 145-167.
17. V., esp., HABERMAS. J. Der Unitiversalitätsanspruch der Hermeneutik. In APEL et al. (1971), p. 120-159. Trad. para o inglês Joseph Bleicher (Contemporary Hermeneutics as Method, Philosophy and Critique. London: 1980, pp. 181-126).
18. A idéia de sensus communis é tratada por Gadamer sob a tradução de Vertsändigung: a de "profundo acordo comum" (tiefes Einverständnis). Observa-se a filiação de Gadamer à linha alemã do Verstehen (interpretação, compreensão), que está na raiz da Hermenêutica, mas vem de muito longe no pensamento filosófico alemão.
19. Frederic Jameson, o prestigiado crítico norte-americano escreveu o admirável livro The Political Unconscious (Ithaca, New York: Cornell University Press, 1985). Neste livro, Jameson discute de modo incisivo a necessidade da emersão do que denomina "inconsciente político", e a função capital do crítico nesse processo de articulação do não-dito, não enunciado, não historiado.
20 SONTAG, S. Against Interpretation. In: ___. Against Interpretation and other essays. New York: 1966. pp. 03-14.
21. Uma tradução possível seria: ‘desejar ativamente o futuro" (literalmente: "lutar em direção ao infinito"), como também parece ser o sentido do título da famosa obra de Nietzsche Wille zur Macht (traduzido como "vontade do Poder" e equivalentes). Embora streben (ambição, aspiração, esforço) se diferencie de Wille (vontade), em termos de significado literal, a teoria do desejo que sustenta ambos os termos é semelhante à necessidade da ação, da modificação como referência a realização de um futuro - não-previsível temporariamente. Esta é uma discussão controversa, levando-se em conta as suas conseqüências políticas na Alemanha, com o Nacional Socialismo. Isso, entretanto, por si só, já constitui assunto para um longo estudo, que deverá necessariamente isentar estes e outros escritores de uma culpa histórica irrelevante.
22. LE GOFF, L. e NORA, P. (Dir). Faire l’Histoire. Paris: Gallimard, 1974.
23. BENJAMIN, W. Op. cit.
24. HUSSERL, Edmund. Investigações lógicas. Sexta investigação. Elementos de uma elucidação fenomenológica do conhecimento. Seleção e tradução de Zéljko Loparić; e Andréa M. A. de C. Loparić;. São Paulo: Abril Cultural. 1975. (Os Pensadores, 61). p. 25
25. Haveria muito o que discutir sobre a escrita de alguns historiadores. O exemplo clássico é Michelet.
A tradição de opressão sob a qual vivemos exige uma concepção de história como luta para a liberação dos conteúdos perdidos que a linguagem instrumental tende a ignorar dada a sua ligação com o poder: a habilidade de articular fatos históricos depende de um tipo de linguagem sustentada pelo poder que ela, de volta, sustenta.
Brida minha querida...
Que conteúdo rico esse seu texto , deu uma aula de literatura , gosto de textos assim , pode ter certeza que seu texto foi muito útil para mim , deixo aqui meu carinho e admirações . Bjs...
é o q digo, Brida !
A hermenêutica é que "astravanca o pogreço"....rsrsrs
Putz !...que erudição, hein !!???...carambolas !..A-D-O-R-E-I !
NA TORA, MANO !...rsrs
bj
Brida,
Que texto menina!
Concordo quando dizes que o genero poético é a melhor forma de escrita fragmentária, pois que nos permite interpretar o texto de varias formas sem que esse perca a sua essência.
Mais importante de um texto e: " é aquilo que ele faz e não aquilo que ele diz" ou seja: dar chances para que o leitor possa reestabelecê-lo em outra dimensão e com outra intenção.
em miúdos; "usar a cabeça, criar".
bjssss
Bom Dia!Brida eu adorei o seu texto vc está de parabéns muito bom.
marcela gama · Candeias, BA 13/11/2008 10:26
Voto pela categoria e excelência do texto,
por conhecer as escolas filosóficas citadas,
embora, infelizmente, eu não tenha tempo
de comentar como merece.
Abraços.
exercício insurgente/crítico sobre o pensamento ocidental
(posto que há outras formas de pensar e interpretar)
e seus instrumentos de poder: a interpretação é um deles...
boaventura, abordaria a questão acrescentando um outro tema, acréscimo que tem por objetivo romper as estruturas de poder: norte/sul, colonizador/colonizado, pensamento ocidental/pensamento do sul
- a tradução - como traduzir conceitos originários do pensamento greco-ocidental?
como articular formas de pensar e matrizes de racionalidade distintas: ameríndias, africanas, indianas, chinesas, etc... a partir da tradução, sem provocar o silenciamento ou mesmo o aniquilamento...
outros autores, ainda sobre os pontos de vista antropológico, sociológico e literário, trazem questões novas sobre o tema:
w. mignolo, a. escobar, h. achugar entre outros...
belo texto! meu voto insurgente!
abraços,
finalmente um texto digno de atenção. excelente. adorei.
andré luiz rocha · Chapadão do Sul, MS 14/11/2008 12:15
A tradição de opressão sob a qual vivemos exige uma concepção de história como luta para a liberação dos conteúdos perdidos que a linguagem instrumental tende a iignorar dada a sua ligação com o poder....valeu a pena ler até o fim...
Votado....Abç..
Delen, obrigada, você é um cuidado meu. Beijinho.
João Eduardo, nem sei como lhe dizer, a hermenêutica, ao sair do círculo interpretativo, propicia UM PONTO DE VISÃO fora do vício discursivo da lógica. Tipo o seu Bilhete... Sempre encantada e com todo o carinho...
Doroni, minha amiga, ainda bem que você não protestou pelo tamanho... Sua sinceridade, entretanto, me é necessária! É que não escrevo para, querida: escrevo por. Beijo enorme.
Marcela, muitíssimo grata. Vou lhe visitar para te conhecer melhor. Abraço fraterno, moça generosa!
Professor Juscelino, valeu por tudo, principalmente pela sua leitura, fundamental para mim desde o início de nosso diálogo. Grande abraço e minha gratidão.
Fernando Ciscozappa - tal nome te predestina para muito! Fewliz com a sua leitura e o seu debate insurgente. Vida la insurgenza, camarada! a tradução - como traduzir conceitos originários do pensamento greco-ocidental? Grave questão9. Mutatatis mutandis é a questão da tradução ela mesma, quando o texto é produto artístico. Leu Wahrheit und Methode, de Hans-Georg Gadamer? Não sei se compro sua metáfora de diálogo com o texto", mas há grandes avanços vista à tradução. O conceito de Horizonsvermelschung ilumina a questão: " todo aquele que quer compreender, por exemplo, um texto ou um documento do passado, parte já do efeito que, sobre a sua situação histórica -concreta, exerce esse mesmo texto ou tradição e não de um ponto de partida neutro ou desinteressado. Na própria imediatidade aparente com que alguém se dirige para uma determinada obra ou tradição actua já sempre, de uma forma subreptícia,o efeito da recepção dessa mesma obra ou tradição .É verdadeira tarefa de uma hermenêutica tomar consciência do poder exercido por este efeito em toda a compreensão. O que significa que é necessário perceber, antes de mais, que não existe para o intérprete a possibilidade de uma compreensão pura, sem pressupostos, isto é, que a possibilidade de uma reconstrução objectiva e exacta da mentalidade e circunstâncias do autor lhe é vedada. Esta compreensão foi o logro da tradição romântica que, partilhando o modelo iluminista de uma compreensão sem pressupostos,acreditou no ideal da congenialidade como verdadeiro princípio hermenêutico. Esqueceu, assim, que toda a situação hermenêutica está determinada pelos seus próprios pré-juízos, que marcam o horizonte do presente , a partir do qual cada intérprete se abre a outros horizontes ou possibilidades de ser, representados pelos textos e documentos vários da tradição. Esqueceu ,com isto, que o que nos parece ser a reconstrução de um sentido passado se funde sempre com o que atrai directamente o presente, isto é, com as nossas expectativas; que o nosso ponto de vista próprio, sempre situado, se mistura com o ponto de vista do texto, fazendo-o assim acontecer num verdadeiro processso de fusão de zhorizontes (horizonsvermelschung)"
Grande, grande abraço mesmo!
André Luiz, que tu me honras com tua nobre palavra! Vou lá te conhecer melhor, mano! Beijo.
Se você leu até o fim, Vitorblue, me deixou hiper-feliz mesmo, meu generoso leitor! Deus lhe pague! Fraternalmente, Brida, a Maria
Maria da Conceição
É claro...só uma brincadeirinha pra descontrair o hermético e complexo...ou num pode ?...rsrsr...Isso aqui é apenas um site de letras, nenhum simpósio, né mesmo ?..rs
Alias, a hermenêutica é anulada pela própria semântica que lhe é inerente, na arte, enquanto receptor. Fica pobre e inexata, por seu óbvio, pois não usa os elos pré-formatados e pré-definidos, pela
inclusão de outros códigos do sentido, que extrapolam os convencionais pré-estabelecidos para um simples "julgamento" estético e convencional, de seus conteúdos.A desconstrução existente entre a emissão (de onde se parte) e o recptáculo (onde se chega, independente de quaisquer condições culturais empregadas), transmuta-se de um paradigma à um paradoxo, por descatar os dogmas de linguagens e estruturas preconcebidas.
Décio Pignatari que o diga !...rs
abraço
Eu que agradeço a possibilidade de ler coisas boas e bem acabadas como seus textos... abraços.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 15/11/2008 00:27
Joãozinho, querido, a hermenêutica é, digamos, como o pensamento dialético hegeliano: há a má dialética e a boa dialética, a boa hermenêutica e a má hermenêutica. Mesmo a nova hermenêutica, com Jauss, Iser, Habermas, Gumbricht, Gumbrechet et caterva - para citar uns já velhotes, não dão conta do texto artístico.
Só um ponto privilegiado FORA do discurso do conhecimento(Verstehen) daria conta disso. E sem metáforas.
Eu pensaria numa categoria fora do discurso, sim, a Imaginação enquanto forma de conhecimento.
O Gumbrecht fala de Ficção. Mas o único BOM pensamento é o do fragmento (com rima em - mento como o tormento do conhecimento.... Vamos vadiar?).
Dispenso Décio e os Campi, a despeito de minha amizade muitoterna com o Haroldo, em volta de nosso trabalho comum com o Gregório de Mattos e Guerra.
No mais, é lua quase-cheia e estou indo para o pier do Yacht Club com meus amores, incluída uma champagne bem sequinha. Beijo com amor de Maria Brida
Obrigada, sempre,
Juscelino,
Delen...
Bom viver, com muita harmonia, én o que lhes desejo com o carinho de uma amizade a crescer...
Brida,
Sem medo você informa parabéns parabéns muitas x.
Claudia
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