Cupins modificados geneticamente escaparam de um laboratório no Massachusetts Institute of Technology em acidente suspeito. Minutos depois infestaram a biblioteca da Universidade de Cambridge e devoraram 50 mil volumes em menos de duas horas
Desde a madrugada de ontem todas as universidades isolaram seus acervos e entraram em estado de alerta na tentativa de conter os focos de ataque
No segundo dia de ataque cerca de duzentas fábricas multinacionais de papel e celulose foram atacadas e decretaram falência deixando milhares de pessoas desempregadas
Todo o estoque de grandes distribuidores como a Amazon.com foi dizimado em poucos minutos após ataque dos cupins aos seus depósitos
A praga desencadeou uma corrida contra o tempo na digitalização dos principais acervos mas especialistas calculam que mais de 60% de todo o conteúdo vai se perder para sempre
Curiosamente o escritor polonês de ficção científica Stanislaw Lem havia previsto o fim trágico dos livros no prefácio de seu livro “Memórias encontradas numa banheira” lançado em 1961. Assim que a notícia se espalhou o livro foi elevado à categoria de texto sagrado e adorado por fiéis que se multiplicaram aos milhares - quase tanto quanto os cupins - subdividos em novas seitas e religiões que ficaram conhecidas como stanislawiskas.
Hackers inspirados pela praga desenvolveram um poderoso cupim vitual que está destruindo arquivos de textos e imagens nos HDs de milhares de usuários e corporações
Várias empresas paralisaram suas atividades por tempo indeterminado porque os manuais técnicos foram consumidos e a operação e manutenção dos equipamentos se tornou inviável
Em cada região do planeta os cupins se adaptaram às condições locais sofrendo mutações evolutivas surpreendentes num curto período de tempo e a cada tentativa de exterminá-los com inseticidas eles tornaram-se mais resistentes
Fogueiras com milhares de livros foram acesas em praças públicas em todo o mundo na tentativa de eliminar os exemplares infectados e conter o alastramento da praga
Muros e paredes passaram a ser usados como painéis onde toda a população começou a anotar o que considerava mais importante
Nas escolas alunos começaram a desenvolver espontaneamente técnicas mnemônicas abandonadas no ocidente há muitas gerações
Devido à extinção dos documentos e comprovantes a propriedade privada simplesmente deixou de existir legalmente gerando instabilidade e pânico em todo o sistema financeiro
Contra todas as regras e procedimentos modernos os comerciantes retomaram nas negociações o antigo hábito de fazer acordos verbais e empenhar a própria palavra
Inspirados em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, grupos de pessoas começaram a se submeter a testes de memória para tornarem-se representantes orais de obras clássicas
A Biblioteca Municipal de Buenos Aires foi misteriosamente poupada pelos cupins
Gostei deste também. Nas entre-linhas é bem mais ativo que o outro, mas não mais importante. Ambos juntos são duas excelentes colaboraçções que faço questão de voltar/votando.
Abraço.
Valeu Higor, grato pelo voto e pelo comentário.
Abraços
Que belezura Makely Ka! Farhenheit 451 foi a bíblia que mostrou a arte da queima de livros, funcionou como um arriete na nossa vontade e arbítrio. O fogareu da Biblioteca de Alexandria atrazou em 300 anos a nossa evolução, ou quem sabe, adiou a nossa destruição. A Bibliotyeca de Buenos Aires não foi comida pelos cupins, dado a mística dos livros de Borges, que por lá predominam. Aplausos ao seu texto. Votei contente!
raphaelreys · Montes Claros, MG 17/1/2008 07:08
Exatamente Raphael, aquela foi a biblioteca em que Borges trabalhou como bibliotecário até ser demitido por Peron. Foi nela que ele se inspirou para escrever o conto "A Biblioteca Universal". Ele por sua vez teria inspirado Umberto Eco na criação do personagem Burgos, o bibliotecário cego do romance O Nome da Rosa. Já Fahrenheit 451 é mais conhecido pela adaptação cinematográfica do Truffaut, mas o livro já era genial. Quanto às bibliotecas queimadas, infelizmente o fanatismo e a censura destruiram muito mais livros que qualquer cupim.
Valeu J. Alves
Abraços
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