Ricardo saiu do trabalho às 19h (uma hora após o fim do expediente), como fazia todos os dias. Acendeu seu cigarro e caminhou até o ponto, no qual o ônibus para a sua casa passaria, como sempre, em cerca de 10 minutos.
Sua colega de trabalho, Érica, que o acompanhava na caminhada de segunda à sexta, faltou naquela terça-feira. Caminhando pelas ruas escuras numa noite tempestuosa de inverno, sentiu subitamente uma desolação enorme, que o assolou de tal forma que perdeu o controle: sentou-se de imediato no meio-fio da calçada.
Tentou se acalmar lembrando que esse tipo de crise acontecia com mais freqüência em pessoas de meia idade e que ainda era muito jovem, com seus 25 anos, para dar atenção àquele tipo de tolice. Mas isso não melhorou muito seu estado de espírito.
Como se estivesse em queda livre num poço sem fim, começou a questionar, aflito, sua pacata e metódica vida: alguma vez uma novidade tivera acontecido? Fizera algo de útil até então, fora os trabalhos medíocres da agência de publicidade? Há quanto tempo não visitava seus pais? Seus amigos? Ainda tinha algum?
E então a coisa ficou muito pior: começou a se lembrar de todos os seus amores, correspondidos ou não, desde os tempos de infância. Jéssica, Lígia, Talita, Débora…e, é claro, Ana! Aquela que o impeliu a esmigalhar seu orgulho e amor próprio em detrimento de uma relação que acabou sem bons motivos e quase o colocou naquele mesmo lugar: a sarjeta da vida. Essas e todas as outras passavam diante de seus olhos como um filme, cada frame reabrindo uma ferida em seu coração.
Lembrou-se da morte de seu tio, quando jurou a Deus e o Diabo que não terminaria como aquele velho angustiado, outrora seu melhor companheiro nas aventuras de molecagem. Porém, sua ambição profissional – que até agora não havia rendido nada – o afastou de seu intuito e, mesmo em meio à multidão caótica de São Paulo, sentia-se tão só que se via como o último ser humano são do mundo. Ou, talvez, o único verdadeiramente insano.
Quando estava prestes a estatelar as costas no fundo do seu abismo antropológico, já aos prantos e com o cabelo emaranhado por mãos inquietas, um lampejo de lucidez e racionalidade o amparou:
- Puta que o pariu! Esqueci de deixar comida pro Bill!
Já carente de suas faculdades mentais plenas, desatou a correr freneticamente, abandonando sua maleta com o notebook e os três últimos projetos do cliente – que deveria finalizar até o fim do mês, o que concluiria o processo de sua demissão – na rua. Sua vida e a do gato tornaram-se uma só e, para Ricardo, estavam na corda-bamba.
Chegou na esquina oposta ao ponto a tempo de ver o ônibus partir. Com o coração explodindo e a adrenalina a mil, jogou-se do meio-fio em direção aos carros, que vinham rápido pelas pistas molhadas da avenida. Era seu último e único ato real de liberdade em toda a sua breve vida.
O Palio vermelho o acertou em cheio, arremessando-o vários metros até que seu corpo parasse próximo a uma viatura da CET. A motorista, desesperada, gritava palavras desconexas para os guardas e a multidão de curiosos que olhavam para o cadáver de Ricardo; um sorriso pueril marcava seu semblante.
Era Ana.
A frieza da cidade afasta mais as pessoas que o frio do inverno. Inquietant o conto.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 17/7/2008 22:13
Muito bom o conto gostei muito!
Parabéns meus votos com carinho!
beijo no coração
gosto do gosto de ler coisas assim.(votei).
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 19/7/2008 15:04
Ola, bom trabalho. Por favor, gostaria de saber o que é Lorem Ipsum
Nic NIlson · Campinas, SP 20/7/2008 22:48
Olá, nic!
Respondendo sua dúvida:
Em design gráfico e editoração, Lorem ipsum (também conhecido por Lipsum) é um texto utilizado para se preencher o espaço de texto em publicações (jornais, revistas, e websites), com a finalidade de verificar o lay-out, tipografia e formatação antes de utilizar conteúdo real.
O Lipsum vem das seções 1.10.32 e 1.10.33 do "de Finibus Bonorum et Malorum" (Os Extremos do Bem e do Mal) escrito por Cícero em 45 A.C.. Este livro trata da teoria de ética, muito popular durante a Renascença.
Lorem ipsum não tem significado. Dizem que o texto original de Cícero diz dolorem ipsum, o que significaria a dor em si mesma, a própria dor. Porém, corruptelas seculares fizeram com que a expressão original se transformasse simplesmente em lorem ipsum; perdeu-se o sentido, manteve-se o uso da expressão quando se quer dizer absolutamente nada.
puxa, que pena que não foi publicado! gostei do conto!
Felipe Vaz · Rio de Janeiro, RJ 21/7/2008 16:02
Opa, q maravilha de explicação. Valew mesmo. Interessante como as pessoas daqui do over nao conseguem ler não ficção ou alguma coisa q nao seja poesia... e precisa ser poesia de amor. Ja fiz um teste e tbm nao fui aprovado. Eu nao leio mais poesia de amor. Nao voto. Mas se a poesia o poema tem uma ideia boa, um texto bom, aeh eu leio e se gosto eu digo: votado e pron to.
Mas leio todos os textos de ficçao ou nao e vejo todos os de arte e agen da. Fico muito chateado qdo vejo q belos textos nao sao aprovados, poquissimas pessoas tecem comentarios. Eu preferia ter 300 comentarios e nenhum voto. esta coisa de voto... sei nao. E tem gente q pede, implora seu voto... Mas este seu texto e outro mereciam muitos comentarios.
abraços
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