LOST IN PARADISE

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Ariel Lacruz · Vila Velha, ES
2/12/2006 · 18 · 5
 

“Na noite de 24 de setembro, o artista americano Devendra Banhart se apresentou em Vitória, na edição capixaba do Tim Festival”.

O espetáculo era mutante, um ato contínuo de criação, sem ordem e sem limites, com desfecho imprevisto, inclusive pelos artistas, como tem de ser.

Afrouxei as rédeas. A tensão das fibras já não era mais suficiente para frear os meus impulsos. Ouvi os estalidos dos nervos que se descontraiam, e percebi que deixava de ser uma marionete escrava da angustia.

Eu realmente passara por maus bocados antes de chegar ao show. Um home de vidro em queda eu E-R-A. Lutava por me recompor. O olhar inócuo revelava a anestesia, o desconforto por qualquer motivo desconhecido, mas ainda assim presente. Cheguei composto integralmente por calos e silêncios, em meus bolsos somente farrapos, quatro moedas de um real e um pente. Nada que valesse duas cervejas. Mas não seria necessário. No escuro do teatro se acendia um gracejo, uma felicidade por poder sentir, por poder ser tocado. Só mesmo na arte para encontrar repouso.
alguns beatniks se sentaram ao meu lado antes de saírem pelo mundo. A música era, por si só, uma viagem de carona. Alucinação. Um ritual que incitava o transe.

Flutuei, desprendido do corpo, esticados nos fios da música.

Mas foi breve.

O teatro tinha algo de quadrado, ou talvez fosse eu mesmo, que fico encabulado quando percebo meus gestos ostensivos. Contração e expansão periódica, inspirava o momento, expirava o passado. Poderia ter fechado os olhos e me cercado do infinito, sem ao menos ter de me levantar do assento, mas não quis perder de vista os barbudos performáticos, com suas danças de flamingo.

De todos os cantos em que buscaram referências, desde o Texas, a terra natal, passando pela verde e sufocada América Latina, Índia, Inglaterra, África, Brasil, os elementos culturais singulares ressaltavam.

Ouvi dizer que os saltimbancos ficarão uma temporada no Brasil para aprenderem com os músicos daqui, o ritmo e a textura originais do país.

Entre uma música e outra Devendra arranhou João, Caetano. Era bom ouvir um agrado sincero a esse país surrado pela inadimplência. Um país que gerou personagens como João Gilberto, Caetano Veloso e Arnaldo Baptista – seus maiores ídolos brasileiros, e também os meus - merece ser notado pela efervescência. Caetano e Arnaldo são para mim gênios incontestáveis que em muito me influenciaram, e que por sua vez foram influenciados pelo mestre dos magos, João.

ARTE, ARTE, UM ESPETÁCULO DE ARTE!!!!

E eu já andava cansado de entertainments, com o profissionalismo forjado tal qual uma armadura, rendidos à ilógica mercadológica das indústrias da cultura. Devendra Banhart é um sopro novo, uma esperança de vigor artístico dentro de uma geração esvaziada. Percebia que a audácia para reinventar ainda não havia sido absolutamente destituída dos jovens, o que me deixava imensamente feliz.
Dividindo o palco com o grupo texano, outro representante da música arte, dos poucos remanescentes: Amarante. Estavam lá os dois, unidos pela vontade de experimentar. Devia ter me adiantado ao garoto da platéia que disse que compunha, e me integrado a trupe.

Quando o show acabou fui logo embora. Passava pela escada quando esbarrei num cabeludo de costas, vestido numa camisa colorida e com uma cerveja na mão direita. Quando ele se virou para olhar percebi que o inseto que tanto me emocionara minutos antes estava ali na minha frente.

– Você me dá um gole dessa cerveja? Disse apontando para a garrafa. – Bear, Bear – e fiz com os dedos um sinal de dose pequena.

A noite terminava quando havia começado.

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Ariel Lacruz
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Saulo Frauches
 

Oi Ariel! Já que o assuntp é o Devendra, olha esse texto que o Roberto postou no overblog - acho que você vai gostar.

Fiquei na dúvida de uma coisa: esa foto tá em Creative Commons? É que a gente só pode postar fotos nossas, feitas por terceiros que nos autorizaram ou que estejam em Creative Commons.

Se não for caso, tente uma foto do Devendra no Flickr. Lá tem como buscar imagens em Creative Commons - essa opção facilita muito.

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 30/11/2006 20:44
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Ariel Lacruz
 

Valeu pela dica Saulo, é a primeira vez que publico no overmundo e não sabia da restrição. O melhor é evitar problemas com direitos autorais. Achei a foto no google imagens...
Gostei do texto jornalistico . Minha pretensão era explorar a linguagem, fazer parte da matéria

Ariel Lacruz · Vila Velha, ES 1/12/2006 14:21
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Ariel Lacruz
 

Enviei o comentário anterior antes de finalizá-lo. Apertei qualquer tecla indevida. Pois é, eu dizia - ou pretendia dizer - que gostei do texto que me indicou, e que a minha idéia era também fazer um texto jornalisto, porém experimental, solto, sem objetividade e imparcialidade. Coloquei-me, com todos as minhas afetações, no meio do redemoinho, e gostei do resultado. O show inspirou ousadia e sem dúvida a leitura de "O grande caçador de tubarões", do Hunter Thompson, está mexendo com minhas estruturas.

Ariel Lacruz · Vila Velha, ES 1/12/2006 14:31
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Saulo Schunk
 

Ae rapaz, isso sim é o que pode se chamar de um bom artigo. Gostei muito das suas adjetivações, do levar dos acontecimentos e sensações explicitadas no seu texto. Pena eu não ter aproveitado tal oportunidade também. Abraço.

Saulo Schunk · Vila Velha, ES 11/5/2007 14:50
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Benny Franklin
 

Ariel, uma coisa é insdicutível: de gostarmos de Devendra Banhart.
Abçs.

Benny Franklin · Belém, PA 19/6/2007 02:29
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