CRISE DOS 40
de maria dudah senne do livro Devaneios e Contradições de uma Louca de Pedra, Doida Varrida
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Dorinha estava muito preocupada. Não conseguia realizar seus projetos. A cabeça não raciocinava. O fato, é que nunca viu alguém criar pensando em como pagar as contas. A pressão era grande. Sobreviver muito difícil. Uns diziam: -Tenha fé, que tudo passa. Mas como demorava! Pensou que a solução seria morrer... Ou fugir... Ou não se preocupar. Mas não conseguia. Seus padrões eram pequenos demais. Estava emburrecendo. Faltava amor, paixão, dinheiro, casa e comida. Faltava tudo. Sabia que havia errado desde o início. Errou tanto que não podia consertar. Sentia umas cólicas estranhas. A úlcera dava perigosos sinais de explosão. O medo atacava como um animal feroz. Queria aprender a reagir, ou pelo menos saber ordenar a vida. Queria paz. O mundo estava de pernas pro ar. O seu mundo. Lá fora... violência, ventania, fofocas e coisas pequenas. Ao seu redor, somente solidão. Que tal uma caipirinha de vodka? Que tal um sakê? Fugir para Punta Del leste? Preferia um rock pauleira. – dizia para as paredes.
Outro dia, uma fulana mal amada disse que Dorinha a invejava. Imagine! Ter inveja de alguém pior do que ela? Se ao menos tivesse motivos para ter inveja daquele "trambolho". Estava lendo um desses livros de auto-ajuda. A bíblia já estava decorando. Poucas vezes soube o que era paz. Será porque não soube administrar seu destino? Onde estava o erro? Será que é assim a crise dos trinta e cinco? Agora, o pior é a sensação de medo. Medo de tudo. O corpo muda muito e reage diferente. Antes, ela podia passar a noite acordada e no dia seguinte ir trabalhar cheia de disposição. Não tinha nem olheiras, nem dor nas pernas, nem depressão profunda. Hoje, uma noite de sono perdida e precisa ser internada de tanta indisposição. Os desejos continuavam intensos. O modo como pensava a respeito deles é que são elas. Agora amar, ter tesão em alguém, passava por uma seleção de qualidade de acordo com padrões tão rígidos, que deixavam de ser desejos para virar perigo à vista. E aquela amiga que ela não via há anos e que, por acaso encontrou na fila do banco? Coitada, estava tão acabada, que teve que disfarçar, embora ruborizada, dizendo que a amiga não mudou nada. E quando saiu, absolutamente chocada, foi correndo para o espelho colocar panos quentes nas idéias. Notou que estava muito melhor do que ela. Às vezes, perguntava para alguém que não teria coragem de dizer a verdade: —Você acha que estou acabada assim? Sabia que devia mudar tudo, só não sabia por onde começar. Por exemplo: Se fosse para o convento das carmelitas? Isolada do mundo, que maravilha! Como carmelita descalça, acordaria às quatro da manhã com os pássaros cantando alegremente. Sua função seria cuidar das escadarias do convento, colher as frutas no pomar e encerar as celas. Mas primeiro, faria as orações de joelhos na pedra fria. Em seguida, o café da manhã com limites para não cometer o pecado da gula. Depois, mais orações para agradecer a Deus o dia, os alimentos e a vida. Nada mais divino do que começar as tarefas do dia cantando. Adoraria! Só não se permitia executar nenhuma tarefa sem pensar. Os pensamentos eram o problema. Eles não a abandonavam um minuto. Era aí, que ela pecava feio. Quanto maior a escada para encerar, mais se lambuzava de cera e pensava besteiras. Coisas do mundo. Ficaria a noite em sua cela rezando e pedindo perdão ao Pai, para que arrancasse seus pensamentos. Não queria pertencer ao mundo. Queria ser esposa de Cristo. Parecia que estava escrito na testa que gostou de fazer amizades com as freirinhas que apareceram para a palestra da semana passada. Fofocavam como se fossem pessoas do mundo. Ai que pecado! Parece que estava escrito na sua testa, que sonhava em ir para a missa só para olhar as pessoas e imaginá-las tomando banho, namorando e fazendo sexo. O erótico, o sensual, era inerente a Dorinha embora só existisse em suas fantasias mais íntimas. Na vida, o sexo não existia para ela. Usava doze calcinhas que cortavam sua pele de tão apertadas como um cinto de castidade com cadeado forte, cuja chave estava perdida em algum lugar. Tinha dores horrorosas só em pensar que um dia seria possuída, seu corpo violado, seus segredos revelados. Não aceitava o fato de ser uma mulher como as outras. Achava que não merecia ser feliz ou ser amada por alguém, embora que de forma inconsciente. Parecia assexuada. Tão linda, tão emocional, tão verdadeira e tão seca de amor. Não sabia receber nem um simples presente. Maltratava-se achando que não era querida, não era desejada. Sentia que as pessoas se aproximavam dela por interesse. Afinal, realizara feitos fantásticos. Sabia que era admirada, copiada, imitada. Mas todos tinham um amor, filhos, casamento, família. Algumas de suas amigas, já estavam no segundo ou terceiro casamento. E Dorinha sempre dando uma desculpa para si mesma. Dizia que não queria ter ninguém, pois preferia sua carreira. Ficava pensando na tentação terrível que estava passando. Dobrava os joelhos e rezava até sangrar para pedir perdão. Mas, quando caía em si, já estava sentindo uns calafrios no chuveiro gelado. Até o chá de limão fazia efeito contrário. Não! Para freira ela não servia mesmo. O ideal seria fazer análise.
— Seu tempo acabou. - a voz da terapeuta soou como um banho de água fria.
— O Tempo passou rápido demais hoje.
— Não. Você é que está inspirada.
— Vamos cancelar tudo, não tenho mais dinheiro para contar minha vida.
Terapeuta -— Dorinha, ainda não lhe dei alta.
um capítulo do meu livro. estamos disponibilizando apenas um capítulo.
aveee!! adorei!! Baixei :) otimo, PARABENS!
Adriana Samira Lima · Chapada dos Guimarães, MT 26/6/2009 21:43obrigada. estou feliz com sua opinião. bjocas mdudah
maria dudah · São Paulo, SP 26/6/2009 23:11Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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