Ele é um amante do baião assim como eu sou também! Vou falar de um dos grandes músicos brasileiros da atualidade, que tem no seu RG o nome Cláudio Sérgio Ribeiro Correia, nascido em Natal/RN em 23/08/1974, porém para a música ele adotou o nome do instrumento que o tornou famoso: Cláudio Rabeca. Este potiguar trouxe de Ponta Negra para Recife, Olinda e adjacências toda a sonoridade e importância histórica da rabeca que chegou ao Brasil na bagagem moura dos portugueses.
O conceito elevado da música de Cláudio Rabeca no Nordeste ficou registrado a partir do seu primeiro trabalho em disco: o CD de título “Luz do Baião”, gravado em 2009 e lançado em 2010. Para mim este disco é uma das grandes homenagens prestadas a Luiz Gonzaga porque resgata o gênero musical que o imortalizou, o baião, que andava esquecido injustamente por estas bandas até por compositores e cantores populares. O disco trouxe ainda a primeira regravação de Rei Bantú, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, um belo maracatu do fim de 1950, gravado pelo Rei do Baião. Neste CD, Cláudio também mostra a sua face de compositor em nove das doze faixas. Com direção musical de Hugo Linns, “Luz do Baião” é um disco grandioso!
Luz do baião é claridade, clarão, alvorecer, candeeiro de pavio, vela, lamparina, candeia, fósforo, candeeiro de manga, lampião, neon, enfim tudo que sirva para iluminar as trevas que baixaram sobre a Revista Época ao pretender nos empurrar goela abaixo Michel Teló como representante da rica cultura popular brasileira.
O baião de Luiz Gonzaga inegavelmente jogou luz sobre a música do Brasil por um período de 10 anos, contados de 1947 a 1957. Como era uma música de origem rural, nascida no seio do povo e não na classe média alta, começou a ser patrulhada por gente que achava que o Brasil estava cansado daqueles sons cafonas que Gonzaga e seus seguidores haviam trazido. Este é um dos motivos do surgimento da bossa nova, uma música que veio destinada a varrer o baião dos grandes centros urbanos do país. Não só o baião como também aquilo que chamavam de samba quadrado. Com o baião o objetivo foi alcançado. Para isso, contou com o apoio dos seus mais ferrenhos defensores, os quais escreviam em jornais e revistas!
É inquestionável que a bossa nova nos trouxe uma grande música. Nesse ponto concordo inteiramente com Mariana Garcia: “Entre 1958 e 1962, a bossa nova congregou procedimentos que formaram uma proposta original. Controlou a expressão do canto, reduziu o conjunto instrumental, enriqueceu a harmonia pela inclusão de notas estranhas aos acordes (as dissonâncias), negou o estrelismo solista do cantor, criou a estética ‘voz, banquinho e violão’, conjugando requinte com simplicidade e criando um novo nicho musical, intelectualizado, de ‘classe média’ e de ‘bom gosto’”.
A bossa nova trouxe um grande “porém” que não partiu dos seus principais criadores, mas de alguns dos seus mais entusiásticos seguidores: jornalistas que se comportaram como se fossem verdadeiros fundamentalistas islâmicos, assim do tipo só Alá é grande, só a bossa nova presta!
Alguém pode até duvidar disso que afirmei, mas aí eu trago o deboche do jornalista Ruy Castro, segundo a história da bossa nova, o livro Chega de Saudade, editado em 1997 e deixo os incrédulos com cara de tacho. É inacreditável o que ele afirmou sobre o baião: “o baião era aquele ritmo que, para alguns, só servia como coreografia para se matar uma barata no canto da sala.” Este “para alguns” é um recurso muito utilizado por jornalistas quando querem atacar alguém ou alguma coisa, mas não têm coragem de assumir que aquilo é a opinião de quem escreveu.
Sobre a sanfona de Luiz Gonzaga, ele esculachou: “Hoje parece difícil de acreditar, mas vivia-se sob o império daquele instrumento. E o pior é que não era o acordeom de Chiquinho, Sivuca e muito menos o de Donato, mas as sanfonas cafonas de Luiz Gonzaga, Zé Gonzaga, Velho Januário, Mário Zan, Dilu Melo, Adelaide Chiozzo, Lurdinha Maia, Mário Gennari Filho e Pedro Raimundo, num festival de rancheiras e xaxados que parecia transformar o Brasil numa permanente festa junina.”
Esta afirmativa é uma das mais preconceituosas que já li contra a cultura popular brasileira porque ele atacou artistas populares de Norte a Sul do país. A explicação para essa falta de respeito eu deixo clara: Chiquinho do Acordeon tocava no conjunto de Radamés Gnattali, o Sexteto Continental. Sivuca era um músico que ia muito além dos ritmos nordestinos. Quando a bossa apareceu, fazia sucesso com dois LPs: Motivo para Dançar (1 e 2). João Donato se tornou um dos ícones da bossa nova, mas começou tocando sanfona. Em 1956, gravou seu primeiro LP, “Chá dançante”, produzido por Tom Jobim para a gravadora Odeon. Em 1958 ele fazia parte da orquestra do maestro Copinha que tocava no Copacabana Palace. Em suma, todos eram músicos refinados que tocavam em locais chiques e famosos. Mesmo no auge do baião, Luiz Gonzaga não gostava de tocar para as elites. Ele mandava Carmélia Alves fazer isso. Ela é uma famosa cantora que recebeu dele a coroa de Rainha do Baião.
Ruy Castro, que é mineiro de Caratinga, sempre pareceu um carioca da gema. Se ele detestava o baião, deve sentir o mesmo em relação ao calango, ritmo mineiro que ganhou enorme divulgação na voz de Luiz Gonzaga com as composições dele em co-autoria com Jeová Portela, este um mineiro que não negava as origens. Quem não se lembra destes versos na voz de Gonzaga? “Calangotango do calango da lacraia/ Meu cabrito tá na corda/ Meu cavalo tá na baia... Mete lá.” Acho que esse “mete lá” foi decisivo para que Ruy Castro se inspirasse para escrever “Amestrando orgasmos: bípedes, quadrúpedes e outras fixações animais”.
O que ele não contava era com o surgimento de uma nova estrela que viria substituir Luiz Gonzaga no panorama musical nordestino a partir da década de 70, que com a ajuda fundamental de Gilberto Gil reintroduziu o baião e o forró nas grandes cidades e capitais brasileiras. Falo de Dominguinhos, o Tom Jobim do Nordeste, citando a afirmativa do cantor e compositor Geraldo Azevedo, um cúmplice de seu Domingos nessa incansável tarefa de não deixar morrer a música de Luiz Gonzaga.
O baião de seu Luiz nasceu nas feiras do Nordeste, tocado em rabeca ou viola pelos cegos pedintes de esmola e pelos poetas repentistas da mesma região nas suas célebres cantorias. Sobre este gênero que imperou no Brasil por uma década (para desgosto dos preconceituosos), disse o mestre Luiz da Câmara Cascudo “que em 1910, nos sertões do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, um pequeno e curioso trecho musical executado por viola e rabeca ostentava a denominação de baião ou rojão”.
Atento a essas células rítmicas foi que Luiz Gonzaga “criou o baião” fazendo dele um dos três mais importantes ritmos brasileiros, ao lado do choro e do samba. Críticos de música consagrados como Tárik de Souza reconhecem isso. Os despeitados não.
Mas o que é que tem o músico Cláudio Rabeca com essa polêmica? Tudo, porque ao dar à sua música o nome “Luz do Baião”, para mim é merecedor de todo reconhecimento, principalmente quando descobri que ela foi inspirada no saudoso rabequeiro do Ceará chamado Cego Oliveira, um homem que cantava versos ao som de uma rabeca, movido pelo sofrimento de não poder enxergar com o fim de ganhar alguns trocados para sua sobrevivência. A bossa nova jamais prestaria homenagem a um cego pedinte do Nordeste porque ela foi o triunfo da zona sul carioca. Conheçam um pouco do cego Oliveira por ele mesmo:
Bem, meus senhores, não vou contar pra vosmecês toda a minha vida e nem todo o meu sofrimento. Dou uma explicação: meus pais eram José Cazuza e Maria Ana da Conceição, eram alagoanos e vieram para o Juazeiros em 1904. Chegando aqui foram morar no Sítio Baixio Verde, mas o meu batizado foi em Juazeiro e quem me batizou foi o meu Padrinho Cícero. Quer dizer que eu sou de Juazeiro, que no lugar onde a gente se batiza é que é o natural da gente. Nasci cego e fui me criando no sofrimento, na obrigação de pedir esmolas, o que eu achava muito ruim. Pedi a Deus que me desse uma luz, um seguimento, para eu deixar esta vida de “porta em porta” . Quando foi no ano de 1929, um tio meu comprou e me deu uma rabequinha. Bem, eu fui tentando, tentando, comecei a aprender. Aí Nosso Senhor me deu este dote de eu pegar em cantoria. Meu irmão sabia assinar o nome e lia pra mim os versos dos “rumances”. Lia uma quadra e eu decorava, lia outra quadra e ei decorava. Eu já cheguei a cantar mais de 75 “rumances”. Primeiro aprendi os versos do “Preguiçoso”, depois desembestou: “Princesa Rosa”, “Pavão misterioso”, “Negrão André Cascadura”, “João de Calais”, “Zezinho e Mariquinha”, “Juvenal e o dragão”, “O papagaio misterioso”, “O valente Vilela”, “O Capitão do navio”, “Coco verde e melancia”, “A peleja de Zé Pretinho com Cego Aderaldo”. Era um mundo de poesia. Aprendi também muitas cantigas bonitas. Eu aprendia com o povo, nesse tempo não tinha rádio e essas coisas modernas que tem hoje. O povo cantava e eu aprendia. Tinha muita música bonita, de amor, de gracejo, de causos de valentia, de reinos encantados. Essas músicas navegavam no mundo. Eu toquei muito nos reisados, depois perdi o gosto. Um menino que eu tinha brincava nos reisados, quando foi um dia ele morreu e eu perdi o gosto pelos reisados. Eu também tinha muito interesse em tocar “pife”. Quando eu ia para uma festa, a coisa mais bonita que eu achava era uma banda cabaçal. Eu me interessei e aprendi a tocar “pife”, eu tocava o tempo todo, chegava a tocar um dia mais uma noite. Mas depois eu peguei mesmo foi na vida de cantoria, com a rabeca. Comecei a cantar nas feiras, em todo lugar onde eu fosse convidado. Eu cantava em casamento, em batizado, em aniversário, em festa de renovação dos Santos e até em sentinela de defunto. O defunto estirado na sala e a gente arrodeado, cantando. Eu achava era bom uma sentinela. O povo tomava muita cachaça. Era a noite inteira à custa da cachaça para aguentar a função.
A música “Luz do Baião”, feita na 1ª pessoa, consegue trazer essa dolência do Cego Oliveira para o século XXI ricamente vestida do ponto de vista melódico e com uma letra que é um primor de poesia. É como se fosse o baião voltando às suas origens mais remotas. A autoria é de Cláudio Rabeca e José Mauro de Alencar, este que é mais conhecido como Júnior do Bode. Rabeca (instrumento) tocada por um cego pedinte nas feiras, e bode (animal) que se juntou ao nome Júnior para identificar uma pessoa apegada à música e aos costumes sertanejos, são coisas consagradas da nossa cultura popular. A gente sente o cheiro do povo nisso!
Cláudio Rabeca já foi focalizado por mim quando fiz neste espaço uma resenha sobre um dos mais importantes lançamentos de 2011: o disco “Rabequeiros de Pernambuco”. Naquela ocasião, ilustrei o meu texto com um belíssimo baião instrumental de sua autoria, Rabeca Enxerida, que consta do citado disco. Para ler esse texto e ouvir esta música é só clicar aqui.
Para finalizar, só tenho a acrescentar que o baião não morrerá jamais porque assim como o samba ele também é filho da dor. Quem duvidar disso aí que escute Juazeiro ou Assum Preto (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), do final da década 40, Sanfona Sentida (Dominguinhos/Anastácia), da metade da década de 70, e Luiz do Baião (Cláudio Rabeca/José Mauro de Alencar) do fim da primeira década do século XXI.
É com o baião de Cláudio Rabeca “Luz do Baião” que resolvi homenagear também este gênero musical inesquecível que fez a parte principal da grande música do saudoso mestre Luiz Gonzaga do Nascimento!
Escute “Luz do Baião” na voz de Cláudio Rabeca clicando aqui.
Escute Rei Bantú na voz de Luiz Gonzaga diretamente do Memorial Luiz Gonzaga em Recife, clicando aqui.
Escute Rei Bantú na interpretação de Cláudio Rabeca clicando aqui.
Para gravar o disco “Luz do Baião”, Cláudio Rabeca se juntou a músicos de respeito que atuam no cenário pernambucano. Até o coro é uma maravilha, com destaque para as vozes de Maíra e Moema Macedo, as gêmeas que encantam rodas de choro, samba e forró. Seguem abaixo as fichas técnicas das duas gravações:
Luz do Baião (Cláudio Rabeca e José Mauro de Alencar)
Cláudio Rabeca - Voz e rabeca
Bozó 7 Cordas - Violão de 7 cordas (e arranjos)
Alexandre Silva - Sanfona
Marco Lorenzo - Clarinete
Guga Santos - Zabumba e caixa
Guga Amorim - Triângulo e mineiro
Bruno Vinezof - Pandeiro e agogô
Maíra Macêdo - Cavaco e vocal
Moema Macêdo - Vocal
Marcelo Tompsom - Vocal.
Rei Bantú (Luiz Gonzaga e Zé Dantas)
Cláudio Rabeca - Voz e rabeca
Mestre Walter - Voz
Bozó 7 Cordas - Violão de 7 cordas (e arranjos)
Maíra Macêdo - Cavaco e vocal
Alexandre Silva - Sanfona
Marco Lorenzo - Clarinete
Guga Santos - Zabumba e caixa
Guga Amorim - Triângulo e mineiro
Bruno Vinezof - Agogô
Maíra Macêdo - Cavaco e vocal
Moema Macêdo - Vocal
Marcelo Tompsom - Vocal
Participação especial do Mestre Walter do Maracatu Estrela Brilhante.
Um axé para todos!
O baião de Luiz Gonzaga ressurge com força na primeira década do século XXI. O preconceito de letrados contra a música de Luiz Gonzaga. A bossa nova e seus ardentes defensores.
Ilustre pesquisador Abílio Neto: Algumas modestas abordagens do seu excelente trabalho:
1) Parabéns pela bela homenagem ao extraordinário artista Cláudio Rabeca;
2) Está na fila de livros para minhas leituras uma biografia de CARMEN MIRANDA escrita por esta figura chamada Ruy Castro. Acredito que não conseguirei ler depois de saber destas opiniões preconceituosas deste biógrafo.
3) Acredito que você já conheça, mas, transcrevo a seguir os versos feitos pelo Cego Aderaldo quando a genitora dele faleceu. Esta publicação é do livro VIOLAS E REPENTES de F. Coutinho Filho, Edição de 1953:
"Já tive muito prazar;
Hoje só tenho agonia!...
Não sinto porque sou cego.
Eu sinto é falta da guia!
Quando mamãe era viva,
Eu era um cego que via!"
Abraços e continue na luta pela nossa cultura!
Obrigado, caríssimo Jorge Macedo, pelo incentivo que é sempre bem vindo. Eu não conhecia esta sextilha do Cego Aderaldo do Crato. Valeu muito! Abraços do
Cultura assim dá gosto na gente !
Ao contrário de certos percalços já vistos e ouvidos, né ?
Quem mandou a gente num nascer surdo ?
É isso que dá ter ouvido bão, né ?
Um beijo !
Pois é, Alcanu, o maracatu é lindo, o baião é belo, mas a música de Teló será passageira como chuva de verão! Abraços do
Abílio, a cultura se preserva com textos como o seu. O bairrismo neste caso, é válido, porque as diversas regiões do país têm o seu som. Abraços.
yayaetextos · Curitiba, PR 27/1/2012 07:38
Minha clara blogueira, se fosse isso, o bairrismo ou coisa parecida, até que seria aceitável. Não foi. Foi preconceito mesmo de gente que não pesquisa, não se informa e depois sai inventando coisas. No próximo texto, eu provarei por que Ruy Castro é um mentiroso! Obrigado pela visita.
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