Escrevi no artigo anterior que a bossa nova trouxe um grande “porém”, uma espécie de preconceito de patrulheiros do bom gosto, coisa que não partiu dos seus principais criadores, mas de alguns dos seus mais entusiásticos seguidores, os quais tinham espaços em jornais e revistas.
Eu transcrevi também o deboche do jornalista Ruy Castro, segundo a história da bossa nova, o livro Chega de Saudade, editado em 1997, às vésperas dos 40 anos daquele movimento. Disse que era inacreditável o que ele afirmou sobre o baião: “o baião era aquele ritmo que, para alguns, só servia como coreografia para se matar uma barata no canto da sala.”
Sobre a sanfona de Luiz Gonzaga, demonstrei que ele esculachou: “Hoje parece difícil de acreditar, mas vivia-se sob o império daquele instrumento. E o pior é que não era o acordeom de Chiquinho, Sivuca e muito menos o de Donato, mas as sanfonas cafonas de Luiz Gonzaga, Zé Gonzaga, Velho Januário, Mário Zan, Dilu Melo, Adelaide Chiozzo, Lurdinha Maia, Mário Gennari Filho e Pedro Raimundo, num festival de rancheiras e xaxados que parecia transformar o Brasil numa permanente festa junina.”
Quando ele afirmou “e muito menos o de Donato” quis dar a impressão de que ele era um músico superior aos outros simplesmente porque aderiu à bossa nova. Na verdade, João Donato se tornou um dos ícones da nova bossa, mas começou tocando sanfona. Em 1956, gravou seu primeiro LP, “Chá dançante”, produzido por Tom Jobim para a gravadora Odeon.
Aqui eu começo, com fatos, a contradizer Ruy Castro. Quero dizer que faço isso com o maior prazer porque para escrever a história da bossa nova ele tinha a obrigação de pesquisar, pois do contrário poderia passar por mentiroso depois. Na realidade, todo aquele pessoal que fez parte do triunfo musical da zona sul carioca, por volta de 1956 já andava de queixo caído com um disco lançado pela Musidisc no Brasil: "Julie Is Her Name", de Julie London, onde ela cantava e encantava com o luxuoso acompanhamento de Barney Kessel na guitarra(violão). O estilo desse grande músico norte-americano foi adotado em seguida pelo bossanovistas.
O que nunca foi verdade é que os músicos da bossa nova detestavam o baião. Isso é coisa da cabeça de Paulo Francis (na época) e de Ruy Castro (40 anos depois). Quando eu citei no artigo anterior o disco “Chá dançante”, gravado por João Donato (às vésperas do movimento de 1958) com a produção de Tom Jobim, eu queria dizer algo que só faço agora.
“Chá Dançante” (Odeon 1956) é uma verdadeira obra prima concebida pelo mestre João Donato e seu conjunto de baile.Paulo Moura foi um dos músicos participantes da gravação. O repertório desse disco foi todo escolhido, a pedido da Odeon, pelo então molecote Antonio Carlos Jobim. O piano e a sanfona de João Donato brilharam com aquela escolha de Jobim que nada mais eram do que clássicos do cancioneiro popular brasileiro, coisas inesquecíveis como “No Rancho Fundo” (Ary Barroso e Lamartine Babo), “Se Acaso Você Chegasse” (Lupicínio Rodrigues), “Carinhoso” (Pixinguinha), “Peguei Um Ita no Norte” (Dorival Caymmi) e pasmem: “Baião” (Luiz Gonzaga), “Baião da Garoa” (Luiz Gonzaga) e “Farinhada” (Zé Dantas).
Vejam vocês que num disco de 10 polegadas e oito gravações, três delas eram do repertório de Luiz Gonzaga e do ritmo baião, sendo duas de sua autoria e uma de Zé Dantas, músicas que foram selecionadas pelo grande Tom Jobim. Então como é que fica aquela história de que o baião era música pra matar barata no canto da sala? O senhor não tem vergonha disso não, Ruy Castro?
E mais decepcionado ficará o decantado historiador da bossa nova quando ele ouvir a sanfona de João Donato tocando “Baião” de Luiz Gonzaga, que ganhou letra de Humberto Teixeira: João era daqueles instrumentistas que marcava o ritmo enquanto solava, característica que o fazia pertencer à escola de Luiz Gonzaga.
Então essas intrigas que alguns jornalistas fizeram na época (e quarenta anos depois) tentando opor os músicos da bossa nova aos de outro ritmo, foi obra deles mesmo, uma futricagem própria do meio jornalístico, partida de quem tentou passar a impressão de um estilo de música muito superior a outro. E olhem que houve reações violentas aos ataques sofridos. Gente do porte de Antonio Maria, Sílvio Caldas e até Humberto Teixeira.
Mas preciso falar um pouco de João Donato esse instrumentista maravilhoso. Vou trazer para cá um resumo que fez da sua vida artística o site Música Brasileira:
João Donato nasceu no Acre em 17/08/1934 e começou a tocar acordeom e piano na infância. Muda-se para o Rio de Janeiro na década de 40 e no início dos anos 50 já atuava profissionalmente na noite carioca. Passou a se interessar por jazz e bossa nova, tocando na boate Plaza, onde o titular era Johnny Alf. Logo fez amizade com Tom Jobim, João Gilberto, Luiz Bonfá e outros. Gravou alguns discos na década de 50, e em 1959 foi para o México, seguindo depois para os Estados Unidos, onde morou alguns anos. Excursionou pela Europa com João Gilberto e de volta ao Brasil, em 1962, gravou o disco "Muito à Vontade". Em seguida, voltou para os Estados Unidos, onde morou por mais dez anos. Lá gravou discos solo e com outros artistas e algumas de suas composições fizeram muito sucesso, como "Amazonas", "A Rã" e "Bananeira", caracterizadas pela originalidade rítmica levada ao piano. De volta ao Brasil, lançou em 1975 o disco "Lugar Comum", com parcerias com Caetano Veloso e Gilberto Gil, seguido por outras gravações. Suas músicas, com forte caráter instrumental, ganharam letras de parceiros diversos. Alguns exemplos são "A Rã" (com Caetano Veloso), "Amazonas" (com Lysias Ênio), "A Paz" e "Lugar Comum" (com Gil), "Nasci para Bailar" (com Paulo André Barata) e "Gaiolas Abertas" (com Martinho da Vila). Suas músicas com parceiros diversos foram gravadas por outros intérpretes, como Gal Costa ("Flor de Maracujá"), Adriana Calcanhotto ("Naquela Estação"), Ângela Rô Rô ("Simples Carinho"), Nana Caymmi ("Até Quem Sabe"). Muito solicitado também como arranjador, Donato fez orquestrações para Fagner, Gal e Martinho da Vila. Passou um período sem gravar no Brasil, até que em 1996 veio "Coisas Tão Simples", seguido por "Café com Pão", com Eloir de Moraes (1997), "Só Danço Samba" (1999) e os três volumes do Songbook João Donato, lançado pela editora Lumiar. Esses lançamentos trouxeram um dos mais originais compositores brasileiros de volta à cena, fazendo shows e turnês pelo Brasil. Em 2000, a gravadora norte-americana Elephant Records lançou o CD "Amazonas", incluindo alguns dos maiores sucessos, como "Sambolero", "Vento no Canavial" e "Aquarius".
Sobre a questão de existir uma música superior a outra, recebi uma esclarecedora mensagem do grande músico pernambucano Isaías Ferreira, ele que é diretor musical, regente, saxofonista e arranjador na empresa UERJazz Band (Orquestra de Jazz da UERJ), mora no Rio de Janeiro, mas continua com um pé no Recife, onde nasceu. Leiam o que ele disse:
“Penso que a música se modifica sempre; isso faz parte do processo evolutivo de todas as manifestações. Sabemos que há manifestações artísticas de boa e de má qualidade conforme o grau de percepção, de conhecimento técnico, teórico, histórico e senso estético de cada um, seja aquele que cria ou aquele que aprecia. Naturalmente isso não engrandece ou deprecia essa ou aquela manifestação, esse ou aquele gênero musical.
Não entendo como se possa enxergar um determinado gênero de música como valiosíssimo, dentro de um esfera global, e, ao mesmo tempo, reputar um outro como inferior. Acredito que seja possível percebermos uma diferença, sim, quanto a um determinado aspecto que envolve um lado chamado cultural e outro dito comercial.
O nosso Baião transpira tanta poesia, tanta sensibilidade, tanta musicalidade; é exuberante em tantos aspectos... Há tanta beleza na obra do Mestre Luiz Gonzaga, de Jackson do Pandeiro, de Dominguinhos, e de alguns mais jovens como Cláudio Rabeca, de quem acabo de ouvir uma de suas peças. Por outro lado temos outros dignos Mestres na Bossa Nova como nosso Tom Jobim, nosso Carlos Lyra, João Gilberto e tantos outros... Esses, enveredando por caminhos harmônicos diversos daqueles que encontramos no tradicional Baião, muito contribuíram para que se firmasse esse gênero com seus acordes inovadores e outras características.
A Bossa Nova e o Baião são representados por músicos, poetas, escritores, autores, compositores, portanto por pessoas. As pessoas pensam diferente e se expressam de modos diferentes de acordo com sua sensibilidade, percepção, conhecimento e noção de respeito, enquanto na sua essência e em todos os aspectos que constituem a sua natural evolução, o Baião e a Bossa Nova continuam sendo duas das mais expressivas e belas expressões da nossa música e de nossa cultura.”
É isso aí, Mestre Isaías!
Para escutar “Baião”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, na voz de Luiz Gonzaga, diretamente do Memorial Luiz Gonzaga em Recife, clique aqui.
Para ouvir “Baião” na notável execução instrumental de João Donato, clique aqui.
As intrigas que jornalistas queriam fazer entre os músicos da Bossa Nova e os seguidores do baião de Luiz Gonzaga. O desmascaramento do jornalista Ruy Castro, o historiador da bossa.
O jovem pesquisador Bruno Negromonte (Musicaria Brasil) me mandou o comentário a seguir, que casa perfeitamente com a minha tese. Vejam:
"Estimado Abílio Neto, lembrei agora do violonista e compositor paulista Laurindo Almeida que no início dos anos 50 (já radicado nos EUA) somou o seu talento ao do saxofonista norte-americano Bud Shank. Conseguiram, nessa parceria, adaptar a linguagem jazzística a temas brasileiros e gravaram alguns álbuns intitulados Braziliance, sendo o primeiro de 1953, salvo engano. Estes álbuns influenciaram significadamente os futuros bossanovistas e neles há clara influência da "dança de matar barata" como se refere o Ruy Castro. Prova disto é a canção "Blue Baião" (adaptação da canção "Baião")".
Para ver Laurindo Almeida e seu quarteto tocando "Baião" de Luiz Gonzaga, clique aqui.
Parabéns Mestre Abílio Neto pelo excelente artigo sobre João Donato, mostrando fatos e virtudes de sua carreira e que a maioria de nós brasileiros, desconhecíamos. E quanto ao biógrafo enganador,você, literalmente, "Matou a cobra e mostrou o pau!". E está foi enterrada brilhantemento pelo seu pupilo e excelente pesquisador Bruno Negromonte. Livros desta figura, cujo nome prefiro não declinar, JAMAIS!!! Tentarei deletar os que já lí, inadvertidamente ! Sem desmerecer os biografados. Abraços!
Jorge Macedo · Recife, PE 2/2/2012 13:42Caríssimo Jorge Macedo, obrigado pelo seu incentivo que é muito importante para mim. Quanto ao Bruno Negromonte, trata-se de um pesquisador pronto para a luta da verdade contra a mentira. Abraços!
Abílio Neto · Recife, PE 2/2/2012 14:40Quero confirmar aqui, após a brilhante intervenção de Bruno Negromonte, que Blue Baião foi realmente gravada em 1953 por Laurindo Almeida e Bud Shank. Está no LP Brazilliance nº 01 e só para tranquilizar o nosso querido maestro Dadá Malheiros, a autoria da música foi registrada em nome de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Maravilha isso, não?
Abílio Neto · Recife, PE 2/2/2012 21:32Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!