Quando minha mãe enlouqueceu eu tinha apenas três anos. Fui criado por sua mãe.
Ela tinha apenas vinte e três anos. Dizem que esta é uma idade boa para se enlouquecer.
Com ela foi o que aconteceu. Lembro-me muito pouco dos momentos que tivemos juntos.
Quando ela foi de fato minha mãe. Mas ainda que sejam vagas essas lembranças,
formam um corpo sólido e extenso que não começa nem termina. Diria que essas
imagens e sentimentos caminham comigo de tal forma estável e coerente que bem
poderia dizer que se configuram na palavra chão, na minha raiz. O que me parece bastante
razoável. Às vezes penso se não fui eu quem, com o passar dos anos de minha vida, cerzi esta realidade.
O fato é que hoje minha mãe assemelha-se a um fantasma. Todas as vezes que ela
firma sobre mim seus olhos azuis, meu chão, a minha terra, o meu enraizamento
ganha contornos ainda mais nítidos. Sempre a deparar-me com eles, penso,
num primeiro momento, para logo depois ver a realidade, que ela voltou, que ela é de novo
minha mãe. Eu espero então que ela me pergunte – como se fosse eu quem tivesse
partido: onde você esteve, meu filho?
Elaine Pauvolid
micro conto
texto maravilhoso.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 8/8/2008 19:07
Muito lindo! Se isto naum for ficçao, então este mundo real e louco é coisa maravilhoso de doido! Somente os "raros e loucos" poderão compreender uma situação assim. Aplausos! Bravo!
Nic NIlson · Campinas, SP 9/8/2008 18:44Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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