Mãe, posso dormir no seu quarto?

Gabriela Camerotti
1
Alcy Filho · Jataí, GO
8/1/2008 · 133 · 22
 

- Mãe, posso dormir no seu quarto?


- Não, Maria. Hoje você vai dormir na sua caminha, ok?
A garota soluçou e abaixou a cabeça. A luz do abajur iluminou as lágrimas que escorriam por seu rosto.
- Maria, olhe pra mim - disse Clara. - Não tem nada no seu quarto. Já procurei debaixo da cama, dentro do armário, no banheiro...
- Mas não olhou atrás da cortina - interrompeu a menina, soluçando.
- Está bem. Se eu olhar atrás da cortina, a senhorita dorme na própria cama?
- Sim...
Clara calçou os chinelos e segurou a mão de Maria, estava gelada. As duas saíram para o longo corredor. Os grandes quadros nas paredes pareciam vigiá-las. Estavam por toda parte.
- Essa casa é mal-assombrada - falou Maria.
- Por que acha isso? - perguntou Clara, virando à direita para um novo longo corredor.
- Os quadros conversam comigo, mamãe. Quando eu ando aqui sozinha, eles perguntam meu nome.
- E você responde?
- Não... Mas isso me dá arrepios.
- Quando eu tinha a sua idade também pensava ouvir vozes. É uma coisa que a nossa cabeça cria para não nos sentirmos solitárias. Não deve sentir medo da sua imaginação.
As duas pararam em frente a uma porta no fim do corredor.
- Por que eu tenho que dormir tão longe do seu quarto? - disse Maria.
- Porque já é uma mocinha e são os únicos quartos da casa.
- Pra que serve uma casa do tamanho de um quarteirão que só tem dois quartos?
Clara abriu a porta e as duas entraram. O quarto não era nem um pouco infantil. Havia pinturas surreais por todos os cantos, o guarda-roupa era de mogno, enorme. As cortinas tinham uma aparência estranha, como se fossem de madeira. A cama rosa de Maria, com edredons ilustrados com flores, não se encaixava no resto do quarto. Tudo ali tinha um ar antigo. Maria soluçou mais uma vez.
- Por favor, mamãe. Eu não quero dormir aqui.
- Nada disso. Vamos cumprir o trato... - disse Clara, abrindo as cortinas e balançando-as. - Viu, minha filha? Não tem nada aqui.
- É porque é invisível - falou Maria.
- Já chega - Clara encaminhou a menina para a cama. - Você já viu que não tem nada aqui. Que tal descansar agora?
- Mas e a coisa, mãe? Ela não pára de falar comigo.
- O que eu disse sobre a sua imaginação? Não tenha medo dela, ela faz parte de você.
A mãe beijou a filha e saiu, fechando a porta. Maria ficou olhando a janela, esperando algo acontecer.
- Ela já foi? - perguntou uma voz aguda vinda de debaixo da cama. - Não quero que ela me veja.
Maria puxou o edredom para cima da cabeça e fechou os olhos, tremendo.
- Não quer falar comigo? Eu só queria conversar.
- Vá embora... - sussurrou a menina. - Eu quero dormir.
- Está frio lá fora... Posso ficar aqui, quietinha?
A menina abaixou o edredom e abriu os olhos lentamente. Não havia nada ali. Seu corpo tremia, não queria fazer aquilo.
- É só a minha imaginação... - disse baixinho. - Não preciso ter medo de você.
Ela pulou para o chão e olhou debaixo da cama. Estava claro, pois a janela permanecia aberta. Ela pôde ver uma boneca de porcelana de cabelos marrons e cacheados, usando um vestido que seria branco se não fosse a poeira do chão. Maria suspirou aliviada e pegou a boneca. Tirou o excesso de sujeira do brinquedo e pulou de volta para a cama.
Ficou brincando com a boneca por algum tempo. O sono foi chegando, as pálpebras foram se deixando cair. Maria dormiu tranqüila abraçada a um retrato de madeira, sujo e rasgado. Retrato de uma menina de vestido branco e cabelos cacheados, com um sorriso no rosto. Parecia feliz em estar ali ou, simplesmente, sentia o forte abraço da menina.

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Autoria
Alcy Pereira Dutra Filho
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jjLeandro
 

Alcy, meu caro,
grande imaginação vc tem. Isso é requisito fundamental para um grande escritor. Vejo que é jovem e tem futuro. Aposte nisso, com certeza. A pertinácia faz parte de todos os grandes autores.
Algumas pequenas sugestões de edição estou mandando p seu email. Nada que não seja comum a qualquer texto.

Um grande abraço

jjLeandro · Araguaína, TO 5/1/2008 19:36
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Alcy Filho
 

Leandro,
Agradeço imensamente teu comentário. Quando receber suas sugestões irei imediatamente colocá-las em prática!
Forte abraço!

Alcy Filho · Jataí, GO 5/1/2008 19:44
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Branca Pires
 

Olá Alcy, garnde imaginação sim! Cocordo com o Leandro.
Nossa, fiquei arrepiada, imaginado fantasmas.
Abração

Branca Pires · Aracaju, SE 6/1/2008 11:58
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Alcy Filho
 

Branca,
Que bom que gostou!
Sua reação é o que me agrada ;)
Grande abraço!

Alcy Filho · Jataí, GO 6/1/2008 12:05
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Cintia Thome
 

Alcy

Ímpar teu imaginário! Quisito fundamental!
Show!

abç

Cintia Thome · São Paulo, SP 6/1/2008 12:32
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alcanu
 

Você cativa com seu texto, entremeado por diálogos muito bem sinalizados, pra mim isso torna-os muito atraentes, todo mundo gosta de ler um texto onde os personagens conversam entre si, ainda mais com a sua clareza e capacidade de distinguir inclusive as personalidades, o medo, a autoridade da mãe diante de uma situação já bastante conhecida e muito bem explorada por você ! Parabéns, volto pro voto.
Um abraço, Alcanu

alcanu · São Paulo, SP 6/1/2008 20:47
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Alcy Filho
 

Cintia,
Tua visita que é um show! :D
Valeu!

Alcanu,
Falando sério? Fiquei inchado agora... Receber esse tipo de comentário é o que me anima a escrever!
Obrigado!

Abraços a ambos!

Alcy Filho · Jataí, GO 6/1/2008 22:53
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Marluce Freire Nascasbez
 

Alcy,

Nossa Alcy, que retorno maravilhoso!
Belíssimo postado!
Parabéns!

Um aBRAÇO, Marluce

Marluce Freire Nascasbez · Carnaíba, PE 7/1/2008 20:35
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Cintia Thome
 

Votado. Pois é, lembrei quando eu falava com amigos que criava na infância, fantasminhas para brincar comigo. Belos companheiros... rs deixa prá lá!rsrs
texto ímpar.
abçs

Cintia Thome · São Paulo, SP 7/1/2008 21:18
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Alcy Filho
 

Marluce,
É bom retornar e receber um comentário seu :)
Muito Obrigado!

Cintia,
Também me lembro dos meus amigos de infância. Eu não chegava a conversar com eles... Era algo diferente. Apenas uma presença para eu não me sentir só ;)

Abraços!

Alcy Filho · Jataí, GO 7/1/2008 22:15
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brigitte
 

Alcy, me fez lembrar as bonecas que tinha no meu quarto me fazendo companhia, quando era criança. Voltei à minha infancia!!!
Belo conto!
Parabéns!

brigitte · Goiânia, GO 7/1/2008 23:23
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Alcy Filho
 

Brigitte,
Que bom que meu texto conseguiu isso! :D
Muito obrigado!
Abraço!

Alcy Filho · Jataí, GO 7/1/2008 23:54
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Saramar
 

Alcy, gosteimuito.
Você escreve muito bem, sem exageros. O bom foi o suspense que, desde o título você sustentou.
Parabéns!

beijos

Saramar · Goiânia, GO 8/1/2008 06:59
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brigitte
 

Sensacional, mais uma vez!

brigitte · Goiânia, GO 8/1/2008 08:04
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Benny Franklin
 

Excelente!

Benny Franklin · Belém, PA 8/1/2008 08:53
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Alcy Filho
 

Saramar,
Agradeço imensamente seu elogio :)

Brigitte,
Obrigado mais uma vez!

Benny,
Valeu pelo comentário!

Abraços!

Alcy Filho · Jataí, GO 8/1/2008 10:42
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victorvapf
 

Muito bom !

victorvapf · Belo Horizonte, MG 8/1/2008 16:06
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Alcy Filho
 

Obrigado, Victorvapf!
Abraço!

Alcy Filho · Jataí, GO 8/1/2008 16:56
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Alcy Filho
 

Acabo de averiguar que o arquivo para downloads contém erros. O texto sem erros é este do post.

Alcy Filho · Jataí, GO 8/1/2008 16:57
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carlos magno
 

Olá amigo alcy,

você tem se demonstrado um exelente escritor a cada dia que passa e eu fico muito contente porque sou seu amigo e admirador dos seus escritos. Adoro a sensibilidade e a imaginação fertil com que você desenvolve os seus temas, este último então está uma beleza. Meus sinceros aplauso e abraços, amigo.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 8/1/2008 19:36
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Alcy Filho
 

Amigo e poeta Carlos,
Receber um comentário seu é sempre uma honra. Sabe que sou fã de teus escritos, então considero um privilégio que admire minhas produções.
Muitíssimo obrigado!
Forte abraço!

Alcy Filho · Jataí, GO 9/1/2008 00:35
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Regina - poesia em volta
 

Muito lindo, simples e de imaginação doce. Parabéns!

Regina - poesia em volta · Volta Redonda, RJ 17/3/2008 09:35
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