Mais nove sonetos de Alma Welt recém descobertos

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Guilherme de Faria · São Paulo, SP
5/10/2014 · 0 · 0
 


Anjo no Balanço (de Alma Welt)

Naquela árvore rubra do meu horto
De que eu nunca ousei comer o fruto
Mas deixo meu balanço em ponto morto
Para os puros devaneios que desfruto,

Vislumbrei numa tarde o anjo branco,
Jovem ruiva ocupada em balançar
Enquanto entoava um acalanto
Como quem a si mesma quer ninar.

“O sonhado só remete ao sonhador”,
Diz do “código dos sonhos” o axioma
Que desmente em nós o expectador...

Então soube: era eu mesma que eu via,
Que dos meus caminhos todos era Roma
Mas que balançava e não escolhia...



A Calafate (de Alma Welt)

Guria eu tinha tudo pra dar certo:
Beleza, inteligência e coração;
Tinha caráter e um olhar esperto,
“Tenía angel” e poesia por condão.

Quem diria eu dar com os burros n’água!
Embora ouvisse minha avó Frida dizer
Que “poesia boa é a que tem mágoa”,
Eu não tinha bons motivos pra sofrer...

Báh! A vida sempre dói, é nossa sina,
E o fracasso vigia os nossos passos
Como agourenta ave de rapina...

Mas agora que a maré sobe e inunda,
Sou a calafate que enche espaços,
Enquanto o meu pobre barco afunda...


Alma (de Alma Welt)

Houve tempo em que eu prezava ir à missa
Com um lenço na cabeça e um breviário.
Na verdade era guria, em Rosário,
E devia ser ingênua, por premissa.

Eis então que o padre interpelou-me
Para, curioso, investigar a minha fé
Por um gritinho fino que escapou-me
Durante um sermão em que fui ré.

Mas logo o bom padre percebeu,
Pousando minha mão em sua palma,
Que o centro era sempre e mesmo eu.

E disse: “Filha, não és nada devota,
Ou estás a venerar tua própria alma,
E isso, por princípio, me derrota”...


A Vida e a Morte (de Alma Welt)

Temos tudo que a Vida necessita
Para que a desfrutemos plenamente,
Com cinco ou seis sentidos (como a fita)
E um mistério imensurável pela frente.

As perdas e fracassos fazem parte
Para que as vitórias celebremos;
Nossa morte, da vida a contraparte,
É pra mais valorizar o que vivemos...

Mas quê estou dizendo? Uma maçada!
(para usar um termo antigo e brando)
A Morte é horrenda e desgraçada!

E pior: não faz sentido, ninguém quer
Nem se cogita o como e o quando,
E vivemos qual se Morte não houver...



Ícaro (de Alma Welt)

Grandes ratos roem a vida se o deixamos:
O medo, ciúme, ódio... tão mesquinhos.
São pestes por princípio e acalentamos
No seio qual serpentes nos seus ninhos...

Descartemos a baixeza que nos puxa
Para baixo qual pseudo gravidade
Atua sobre a forma mais gorducha.
Não basta o peso físico da idade?

Mas saltar, voar, abrindo nossas asas,
Prerrogativa final do nosso instinto
Que um dia construiu mais do que casas

Com penas de corujas, cera ou breu,
E falhando despencasse ao mar Egeu,
Quis chegar ao sol, de um labirinto…



Nau de mim (de Alma Welt)

Vivi como princesa e nem quis sê-lo,
Venerada por ser bela, quê vergonha!...
Num mundo desigual e em desmantelo
Eu tinha meu diário e minha fronha...

Dos meus tempos, cá não foram nada feios,
Não terei jamais direito de queixar-me...
Ri, cantei, dancei, amei, dei os meus seios
Para os lábios daquele a quem quis dar-me.

Quê importa ser tão branca, rubros lábios!
Como vermelhos são estes meus cabelos
Não desmentidos sequer pelos meus pelos!

Aplicada meditei, li e escrevi;
Meus versos me guiaram, astrolábios
De uma nau de mim em que me vi...



O Eterno Jogo (de Alma Welt)

Hei de saber o sentido disso tudo,
Por quê tantos poemas e delírios,
Por quê tudo é cambiante e eu não mudo
Mas fico em mim fluindo como os rios?

Hei de saber o porquê de ser poeta
Quando em volta nada corrobora
E todos têm em mente outra meta,
A jogar como se nada fosse embora.

Vão-se as horas, minutos e os segundos
E eu só penso em torná-los tão floridos
Como aqueles terrenos mais fecundos...

Mas finalmente cercada de beleza
Que transformei dos lances mais doídos,
Porei as minhas cartas sobre a mesa...



A Razão do Soneto (de Alma Welt)

Fiz o que pude embora fosse pouco
Pra deixar algo de belo e também bom
Neste mundo, convenhamos, meio louco,
Sem precisar mudar o timbre e o tom.

Fluidos versos, catorze, e mais a rima,
Doze sílabas por puro e vão capricho;
Uma canção, uma festa, uma vindima,
Onde encontrei meu verdadeiro nicho.

Mas por quê ?- me perguntas- quê diabo
Te fez querer esse esdrúxulo formato
Como se fora a baba do quiabo?

Manter minha rédea curta, isto sim,
Não pra evitar a disparada pelo mato,
Mas porque a terra é plana e não tem fim...




Propósito (de Alma Welt)

Que Deus me guarde de toda fealdade,
Sobretudo da que possa haver em mim.
Mas se é da alma a responsabilidade,
Toda maldade, por grotesca, terá fim.

A Verdade e a Beleza andam quites,
De guardá-las trata enquanto podes.
A Beleza é a Verdade disse Keats
Na mais pura e bela de suas odes.*

Cantemos e dancemos entre as flores
Mas não deixemos de o solo nu pisar
Onde brotam as mágoas e as dores.

Se ao carente for capaz de dar beleza
Pelo pão que não me sobra para dar,
Possa ao menos enfeitar nossa pobreza...

______________________________

Nota
* A Beleza é a Verdade disse Keats
Na mais pura e bela de suas odes.* - Alma alude à "Ode a uma Urna Grega", um dos mais famosos poemas de John Keats. Os dois últimos versos são assim:

"Beauty is truth, truth beauty,"
that is all Ye know on earth, and all ye need to know.

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informações

Autoria
Alma Welt 1972-2007, poetisa gaúcha, autora de cerca de 4.000 sonetos
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