Mais uma vez, querem boicotar Monteiro Lobato

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Terezinha Pereira · Pará de Minas, MG
13/11/2010 · 1 · 0
 

Não é a primeira vez que boicotam Monteiro Lobato (escritor brasileiro nascido em 1882 e falecido em 1948). Querem proibir a distribuição de seu livro “Caçadas de Pedrinho” na escola. Creio que as pessoas que freqüentaram a escola primária no final da década de 50, começo de 60, por um desconhecimento de literatura por parte dos dirigentes políticos e religiosos, não tiveram o prazer de ler Monteiro Lobato na infância. Lembram de um tal de comunismo que a Igreja e os USA impunham ao Brasil naquela época? Pois é. Diziam aos “meninos” do catecismo e da escola daquela época que Monteiro Lobato havia sido ateu e comunista. Por estes motivos, seus livros não deveriam ser lidos. Assim, acabei conhecendo pouco de Emília, Pedrinho, Narizinho e tia Nastácia na minha infância. Resgatei Monteiro Lobato quando foi lançado o “Sítio do pica-pau-amarelo” na televisão e meus filhos viram. Então, fui atrás dos seus livros.
Segundo informações divulgadas, para vetar a distribuição do livro Caçadas de Pedrinho nas escolas, o parecer do Conselho Nacional de Educação-CNE alega haver “assuntos tratados com preconceito no livro, como os negros e as religiões africanas, quando se refere à personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas.” Como exemplo, é citada uma fala da personagem Emília no referido livro: "É guerra, e guerra das boas. Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne negra.”
Fico pensando. Provavelmente, pessoa(s) de pouca intimidade com a literatura esteja ocupando tanto o CNE como a Secretaria de Promoção de Igualdade Social. Nem devem imaginar que personagens da ficção “tem voz própria” que, necessariamente, não é a mesma do autor. E se fosse? Não seria um bom motivo para discussão na escola? Até mesmo para especular que, na época de Lobato, por uma grande injustiça social, o negro ainda não tinha voz, apesar de a abolição ter ocorrido em 1888. Que, naquela ocasião, a fala dominante ainda era a do homem branco escravizador.
Quem sabe não seria hora de se especular que, neste mundo globalizado, capitalista, as coisas que referem ao ser humano não mudam com a mesma rapidez como a tecnologia, como o mercado, etc.. Que a fala dominante de hoje é a do poder econômico. Discutir temas relacionados à ética e moral nas escolas, uma vez que tais disciplinas têm sido deixadas de lado, em razão da carga horária que é direcionada às disciplinas que os alunos precisam dominar para serem bem sucedidos no ENEM, no vestibular. Ser bem sucedido na vida não seria melhor?
Ainda bem que professores, críticos literários, escritores, a Academia Brasileira de Letras e até a OAB se manifestaram na imprensa em favor de Monteiro Lobato, o maior escritor de obras infantis que o Brasil teve até hoje. Em razão disso, Fernando Haddad, atual Ministro da Educação prometeu rever o texto do parecer do CNE. Tomara que ele fique do lado de Monteiro Lobato, dos leitores e principalmente da literatura brasileira.
OBS: Em 2007 escrevi a crônica “Um saci debaixo do colchão”, em que narro as dificuldades por que passei para ler “O saci”, de Monteiro Lobato, quando eu tinha nove anos de idade. Irônico. Será que, quatro anos após escrever essa crônica, vou ter que deletar seu último parágrafo?
(“Um saci debaixo do colchão” já foi publicada neste espaço: http://www.overmundo.com.br/banco/um-saci-debaixo-do-colchao )




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A autora é membro da Academia de Letras de Pará de Minas
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