Mais versos de 1975 a 1977

Adroaldo Bauer
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Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS
8/7/2008 · 141 · 16
 

Vigia o regime militar no Brasil. A censura imposta a tudo, do teatro ao cinema , da imprensa à literatura. Da música às manifestações sociais quaisquer. A vida era irrespirável...

Vez por outra paro e não penso.
Quero até morrer
Sentir o beijo da morte, frio.

Que mais querer?
Tudo, todos: nada.

A imundície e as nulidades
Prosperam e aquela continua
Os porcos são os donos
O país ferve de podridão.
E as moscas em louca sanha
Vorazes, varejam os restos do homem.
Daquilo que um dia foi povo,
Hoje, farrapo, pisado, humilhado, escachado.

Vez por outra paro e não penso.
Quero até matar.

08/11/1975

Da vida comum
O relógio marca e rege
O descompasso da vida
Roncam os motores do progresso
Sobre o esforço das massas famintas

Um pila pela tua hora,
Dois pela tua honra,
Três pela tua alma e mais um
Pela tua vida

De fome
De susto, preso,
Roda fábricas e construções.
De marmita
Chinelo de borracha e sapato barato,
Ergues a casa que não é tua
E ajustas parafusos que se perderam em mil mercados.
De fome e de susto, preso,
Continuarás
Até a morte precoce

Também, irmão,
Não nos deram a justa paga
Não, o certo é:
Roubam-nos a vida e a sorte.
08/08/1976


Saia daí e venha pro lado de cá!
Sai da calma, filho,
Que a vida é puro sangue
Hoje
Vem olhar o morto no chão
De fome e frio

Sai daí, irmão,
Que a vida é puro sangue
Hoje
Vem olhar o chão morto
De ganância que tombam matas

Saiam pra rua
Que a vida é puro sangue
Hoje
Pra que se esconder de si mesmo
Venham ao barro receber os tiros da miséria.

Saiam do circo
Que a vida é puro sangue
Hoje
Estamos montando o ato final
Antes de morrer de pura e besta fome, todos.

Saiam de suas cascas e máscaras,
Ogivas e armaduras protetoras
Hoje
A vida é sangue puro
O circo será dos atores
Hoje
Quando a vida mudou o rumo
Porque saímos todos por sangue
Cobrando tudo que a história nos devia

08/08/1976

***
A Primavera que faremos

No momento que desespero
Cada passo à frente do homem
É um retrocesso

Mais e mais desespero
O medo de morrer
Antes da hora mata

Quantas vidas e tempo perder?
Mas,
Sempre perder não é o fim único!

O progresso do homem
É feito com as botas sujas
De sangue do homem

A podridão submete
À fome a massa que trabalha

Só a consciência do desespero
Pode inverter a marcha
Deste podre progresso

Se a Primavera é o mundo novo,
Não é de admirar
Que se tenha que explodir,
Antes, este velho mundo.

Acordem!
Que os donos do velho mundo
Vão apodrecer e secar a árvore.
É preciso retirá-los dos galhos.

23/01/1977

***

As mãos nas amarras

Amarás o irmão
Que sorte não teve
Tiveste a morte
Rainha revelada
Por céus e espada
Na vida em escada
Degrau a degrau
Onde ficaste?
Que teu irmão chora
A fome demora
Não mais foi embora
Ficou-lhe a saudade
O estômago na cabeça
Aos céus suspiros
Para que logo envelheça
E receba pensão
Para comprar o pão

***

No céu, de escuro e profundo azul,
A lua cheia, branca e brincalhona
Contenta-se em ser mais brilhante
Que a lâmpada de mercúrio sob minha janela

Parado na calçada,
Aplaudindo a natureza
Vai o bêbado escorar-se no poste,
Ri pra lua e abusa da lâmpada

Faz pontaria,
Tem como alvo a lua:
Voa a pedra
Quebra-se a lâmpada...
Que a lua solitária permanece brincalhona
E o bêbado vai-se curando, lentamente.

***
A certeza só pode nascer da dúvida

Ter dúvida é estar vivo
Certo de que a verdade
Só inspira confiança
Se for questionada
Como quereis fazer viver certezas
Sem deixar lugar a dúvidas?

***
Uns chãos que me puxam,
De sob os pés
Qual tapete levado
Por falta de pagamento

***
Dor
Profundo
Escuro
Abismo
Desesperado
E só.

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Adroaldo Bauer Spíndola Corrêa
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Compulsão Diária
 

Adro, passando pra deixar um abraço e boa sorte para estes versos e pra você também.
Volto em agosto. Cuide-se!
mille baci
Bea

Compulsão Diária · São Paulo, SP 6/7/2008 22:05
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Adroaldo Bauer
 

Agradecido, Bea.
Sem compulsão, os dias serão menos movimentados,
mas, fortalecido por tuas próprias recomendações,
sairei ao sol e, talvez, até à lua, para suprir a ausência tua.
beijos mis, meus pra ti, a gosto!

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 6/7/2008 22:15
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Cristiano Melo
 

Adroaldo,
Seus versos remetem a uma época metafórica da sociedade, onde os frascos fracos de ignorância, abarrotados de insana perseguição às diferenças, aos que não eram moscas, fez expressão e contaminou a todo um coletivo de pessoas que não podiam ser quem eram, e que não podiam defender quem queria ser o que quisessem... Hoje a "danada" essência policialesca humana continua, de maneira mais velada, e em outros momentos mais explícita, mas presente, faz parte do ser, essa perseguição do diferente, com a torpe justificativa de manutenção do status quo.
Seus versos são viscerais, de dentro de um coração que simplesmente queria "bater".
Muito inspirador a reflexões.
abraço

Cristiano Melo · Brasília, DF 7/7/2008 08:52
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EdimoGinot
 

Belo retrato de um tempo que não queremos mais.
Um abraço

EdimoGinot · Curitiba, PR 7/7/2008 11:58
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celina vasques
 

Mais um trabalho de "MESTRE POETA" !
Nagnifico!!!

Meus votos humildes diante da grandeza do texto!

Beijo no coração e meus aplausos!

celina vasques · Manaus, AM 8/7/2008 20:41
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Ailuj
 

Um beijo grande e votando em seu maravilhoso texto
Esse trecho é muito real,tem gente que ja começa a morrer quando nasce
''Mais e mais desespero ,o medo de morrer antes da morte mata''

Ailuj · Niterói, RJ 8/7/2008 21:05
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clara arruda
 

Saiam pra rua
Que a vida é puro sangue
Hoje
Pra que se esconder de si mesmo
Venham ao barro receber os tiros da miséria


nesses versos deixo meu imenso carinho.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 8/7/2008 21:34
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EdimoGinot
 

tempos de guerra muda.
Meu voto

EdimoGinot · Curitiba, PR 8/7/2008 21:51
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Doroni Hilgenberg
 

Adroldo,
Teus poemas nos remetem aos negros tempos da ditadura militar e chega até os agonizantes dias atuais quando o meio ambiente esta sendo tão devastado, onde não há solidariedade, a injustica campeia, a corrupção e o perigo se alastram. Mas a lua continua na dela, juntamente com o alegre bebado, enquanto o povo sofre com baixos salarios e nós continuamos num abismo e desesperadamente sós. Tristeza !

Bjsssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 8/7/2008 23:28
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Doroni Hilgenberg
 

E a corrente hem? Ainda estamos presos num regime que nos agride e nos explora. É verdade, não reagimos e nossa fraqueza é a força da corrente. Bravo!!

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 8/7/2008 23:35
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Spírito Santo
 

Adro,
Achei incrível como naquele tempo eras mais Spíndola e Correa do que Bauer. Sou fã daquela época e da maneira intensa com fazíamos versos contra 'tudo isto que está aí'.
A tibiez deste nosso pessoal hoje - até mesmo para fazer versos - me deixa bem ranzinza, sabia?

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 9/7/2008 07:44
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Adroaldo Bauer
 

Spírito,
Porque os fados deram-me esse tempo de não-trabalho formal, sem as musas por perto, que as dores e mesmo o pânico inicial afastaram, fui às gavetas e achei essas mal traçadas, do que fiz uma reedição rápida, por datas, sem muito nexo a guiar o conjunto, o inverso do que faria um editor literário.
Aí ter surgido o que te parece uma veia minha mais atenta ao social, a de Spíndola Corrêa, do que de Bauer.
E é vero.
Após os anos 80, como se verá num capítulo de Poemethos que talvez já inicie no 4 e vai chegar ao 5, a paixão, o amor, a vida comum das pessoas e o sal delas, que são as pulsações a mais dos corações e mesmo os apelos da libido começam a se emancipar, que reprimidas estavam por aquelas dores todas que não queremos para ninguém e contra o que lutamos.
Eu, pessoalmente, parei de fazer versos por muito tempo, desde que havia uma estratégia política e pública para disputar com milhões em movimento, só retorno a uma ação, digamos assim, mais pessoal e individual em março de 2005, pelas razões que já falei aqui e não me convém mais repetir, mas estão aí na cena, na conjuntura, na ausência coletiva e pública de uma estratégia dos de baixo para si.
Bem observado, guri.
---
O regime é o mesmo de há tantos séculos, os de cima determinados a amesquinhar o poder que detêm fruto das relações sociais que os permitem se impor aos de baixo. Nada humano, tudo muito egoísta e, em alguns, até patético, dada a condição de miséria da maior parcela de semelhantes, da humanidade, quando a tecnologia já resolveu todos os problemas de existência da espécie, Doroni.
---
Muda, surda e de poucos gestos, Edimo.
Mas existente e, pode-se dizer, observada a série histórica, vitoriosa em muitos aspectos, posto que, na resenha do nosso país, vivemos já - e por aquelas sofridas conquistas - o mais extenso período democrático sem a violência generalizada do estado armado contra os direitos do cidadão, embora aqui e ali pipoquem os ecos do passado recente em que a farda paga por nossos impostos é enxovalhada por meia-dúzia de criminosos que vão além das chinelas apenas porque se ajuizam acobertados por ela e, algumas vezes, por superiores imediatos deles.
---
Recebo feliz e solidário teu carinho, Clara.

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Ju, és estímulo agradável e compreensivo a que continue eu perserverando. Agradecido.

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Comovido, agradeço, o coração aos pinotes, feliz, Celina.
---

Metáfora sólida, enrascada em pólvora, chumbo e bala e arame farpado, enrodilhada por fios elétricos e cordas, em paus-de-arara que não eram os singelos meios de transporte do interioor de muitos dos estados do nordeste brasileiro, Cristiano.
Uma metárofa da qual o sangue inda escorre hoje e os cofres guardam segredos além das riquezas amealhadas às custas da opressão e do arbítrio.
Por isso não nos calamos, lá, nem hoje, nem nunca, porque o horror ensina a temer, mais que a dor ensina a gemer.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 9/7/2008 10:27
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Sérgio Franck
 

Adroaldo, virei menino ao ler e reler a cada um dos poemas: uni-du-ni-te... sem jeito, o melhor, eu não sei. Só se sabe, não se mede as marcas do tempo.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 9/7/2008 10:43
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Lili_Beth*
 

Querido Adroaldo:

Um tempo que foi
São marcas que ficam
Fincam na tua bela criação.

Beijos_Meus*
*

Lili_Beth* · Rio de Janeiro, RJ 9/7/2008 19:03
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Pedro Monteiro
 



Amigo Adroaldo.
Em 1975, iniciei minha militância política, fazendo um curso profissionalizante no SENAC-sp, me juntava às corajosas vozes que clamavam nas ruas, contra a tortura e a matança desenfreada, recebendo por vezes golpes de cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo.
- Em nossas almas, para nós os idealistas, ficaram as marcas de sangue daqueles mortos, e a certeza de lutarmos pelos vivos.
Um grande abraço







































Pedro Monteiro · São Paulo, SP 9/7/2008 21:28
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Pedro Monteiro
 

"Desculpe-me pelo exagerado espaço".
-Xiii... acho que foi coisa dos fantasmas da ditadura...
Abraços

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 9/7/2008 21:43
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