MANJAR CELESTIAL

MARCELO SEABRA (in O Liberal, Belém, 7/2/2008)
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"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA
6/3/2008 · 140 · 12
 

Sobre a obra

MANJAR CELESTIAL
Diz um velho ditado popular que "quem narra um conto aumenta um ponto" mas, no presente caso, aumentei em muito as 3 ou 4 linhas encontradas num velho alfarrábio, que registrava para a posteridade as peripécias e os valorosos feitos de um desbravador jesuita nas plagas até então desconhecidas da Terra do Pau-Brasil... e de outros paus menos votados.
Surgia mais um sol primaveril a aquecer os costados floridos do gigante deitado eternamente em berço esplêndido e o Novo Mundo descobria, boquiaberto de espanto, que havia mais que água e gaivotas ao norte da linha do Equador.

Havia homens barbudos e mal-cheirosos, enrolados em toneladas de tecidos coloridos, vindos meio século antes em enormes "pirogas" movidas a velas & cordames, para convencer canibais em pêlo a cobrir suas "vergonhas" e, por fim, a crer que outro deus maior do que Tupã exigia a construção de imensas ocas onde ninguém morava, além de estátuas e cruzes.
Frei Barnabé Tello recebeu a dádiva divina de ser um dos primeiros missionários a pisar nas terras até então pagãs e começou com presteza uma abençoada catequese que prosperou de tal maneira que quase aposentou o temido pajé da tribo dos patas-chocas, no litoral baiano, reduzido depois da intromissão do jesuíta a mero curandeiro receitador de mezinhas e garrafadas, isto para não ficar desempregado pois a Igreja sempre se preocupou com a classe trabalhadora.

Muita gente na aldeia admirava aquele espantalho esquelético, de olhar perdido na distância, a mesma grosseira e surrada batina o ano inteiro, se sacrificando em prol de todos, sem jamais pensar em si. A taba ficara famosa nas redondezas com a presença e as realizações do sacerdote, algumas curas milagrosas segundo a plebe ignara, além de reformas gerais em tudo.
Contudo, nem todos estavam satisfeitos com o andar... da carruagem, digo, do caraíba invasor, entre êles o velho chefe, tuxaua de muitas luas, o cacique "Raposa Vermelha", infeliz por ver extintos seus mais gratos costumes como o de fazer e beber cauím, andar como Adão no Paraíso (e não com aqueles trapos ridículos), ter várias concubinas, fora a deliciosa tradição de desvirginar cunhãs por diversos machos.

Nayara, filha única e dileta do cacique era um esplendor, deusa feminina e bela, orgulho da tribo, uma amazona completa, guerreira sem igual na região, cantada em verso e prosa. Foi o padre bater os iluminados olhos na beldade e jurar a si mesmo conquistá-la para a seara do Senhor, seu mais agradável troféu a culminar um trabalho de catequese que já durava dez anos. O frade acompanhara o desabrochar daquela cobiçada flôr das selvas, com o homem dentro de si quase desperto ao admirar as belas formas sendo acariciadas pelas águas, no banho diário no rio da aldeia.
Nestas horas, o crucifixo ardia-lhe sobre o peito hirsuto, enquanto seu voto de castidade naufragava sob sensuais ondas de pensamentos impuros e desejos inconfessáveis.

Nayara não lhe era de todo indiferente, o jesuita servia a seus propósitos de causar ciúmes aos maiorais da tribo, entre os quais estaria seu futuro esposo. Daí, frequentemente acompanhava o pregador em suas andanças e catequeses, ouvia mortificada a lenga-lenga religiosa e, vez ou outra, frequentava o ritual litúrgico, do qual não entendia patavina. Já Frei Barnabé, fiel a seu juramento, sepultava nos porões do inconsciente o prazer sexual que sua companhia lhe trazia.
Sumiram no horizonte diversos invernos, Nayara casou, teve filhos que o frade batizou com a graça de Deus e....
(continua abaixo, no COMENTÁRIOS)

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"NATO" AZEVEDO

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MANJAR CELESTIAL (trecho final)

Sumiram no horizonte diversos invernos, Nayara casou, teve filhos que o frade batizou com a graça de Deus e, com o falecimento do idoso pai, a temida amazona passou a reinar, assistida pelo marido, que em tudo a ouvia e seguia. Como primeiro decreto Nayara pôz meia aldeia à disposição do missionário e ela mesma transformou-se na maior das devotas, não perdendo uma missa sequer. O pajé foi "promovido" a varredor de vielas da taba, enquanto a guerreira armava os espíritos para tornar os patas-chocas o terror daquela área.

A pedido do frade, a aldeia encheu-se de gentios capturados em tribos vizinhas e de negros dos primeiros quilombos que o Nordeste viu nascer, todos "empregados" a serviço do Senhor. Com a força escrava construi-se o primeiro colégio da região -- pago, é claro, e só para os filhos dos "galegos" -- além de uma rendosa usina de açúcar, padaria, hospital, um ferreiro e a suntuosa Matriz, marco da nóvel província, tudo para a glória de Deus.
Até que um dia... um Deus certamente canhoto, escrevendo torto por barrocas linhas, fez com que Nayara voltasse de uma daquelas refregas mortalmente ferida, o fatal curare da flecha assassina a corroer-lhe o último sôpro de vida. De nada adiantou o emprêgo dos renomados remédios trazidos de Coimbra ou o quinino e a morfina importados de França. Nem as rezas do decrépito pajé, suas defumações e emplastros resolveram qualquer coisa.

Já nos estertores da morte, logo após a extrema-unção, a jovem sussurra ao jesuita seu último pedido, o derradeiro desejo, o testemunho mais sincero:
-- "Meu bom homem, daria tudo o que fui na vida, a fama e as conquistas, o que tenho e o que fiz, trocaria minha fé por um dedinho gordinho de um curumim caraíba bem assado, com ervas aromáticas e pimenta brava. Que o seu Deus me perdoe... é isso o que eu quero"!

O jesuíta deu um urro de estupor, enquanto o céu caía-lhe sobre a encanecida cabeça e o chão lhe faltava sob os maltratados pés. Acordou "lelé", biruta, resmungando frases desconexas em latim, grego e francês. A balzaquiana Nayara foi sepultada em rica urna funerária, com honras de cacique e tomaram as rédeas do próspero vilarejo indígena o antes desmoralizado pajé e o viúvo da índia.
O missionário macambúzio foi posto a correr do local a tacape, a escravaria libertada, tudo o mais destruído e, pouco tempo depois, não havia um só sinal do homem branco na aldeia, exceto um ou outro vocábulo em bom vernáculo.

Quando uma nova caravela aportou à região os silvícolas rasparam os caldeirões enferrujados pelo desuso, fizeram esplêndida recepção aos navegantes com iguarias e frutas e, depois, os exterminaram todos, inclusive uma espécie de pavão bem alimentado que os demais tratavam com cerimônia e ao qual chamavam de "Dom Sardinha".
O ex-bispo ficou para sobremesa e aos canibais empanturrados o "acepipe" caraíba tinha o suave sabor de um manjar celestial. Nayara, presente em espírito, deliciou-se com a cena !
"NATO" AZEVEDO

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 2/3/2008 20:24
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Benny Franklin
 

Salve, Nato!
Esses seus longos escritos ainda farão cessar a dor do mundo...
Valeu!
Abçs.

Benny Franklin · Belém, PA 3/3/2008 20:48
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Cintia Thome
 

Nato. Vocee não existe, rs. Nayara no céu?
Um beijo.

Cintia Thome · São Paulo, SP 4/3/2008 19:59
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Andre Pessego
 

Rapaz,
e eu tava de saída pro parque quando vi o retrato. garrei
a maginar.
estas contações de índios e suas sabedorias, suas sensibilidades
ainda te deixam mais sensível...
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 5/3/2008 06:39
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Ora, ora... meus leitores mais fièis sempre presentes aos rabiscos que cometo nesse belo espaço cultural. Grato aos 3 pela visita!
Ah, NAYARA não foi para o Céu, não, dona Cíntia... depois da confissão, o sacerdote deve tê-la excomungado. Eu o faria! Abs,

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 5/3/2008 20:48
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Saramar
 

Nato, essa mistura do contemporâneo com a raiz histórica dos nossos povos é uma delícia.
Permita-me repetir que a história deveria ser ensinada assim, nas salas de aula.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 6/3/2008 01:26
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Kais Ismail
 

Nato,

Concordo com a Saramar, que história assim deveria ser ensinada nas salas de aula.

Um forte abraço

Kais Ismail · Porto Alegre, RS 6/3/2008 11:04
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Meus queridos KAIS e SARAMAR... não entendi bem o que deveria ser ensinado nas escolas 1) como devorar um Bispo? ou 2) que deixar mulher dirigir tribo "dá em m..."?

Brincadeiras à parte, a idéia inicial deste conto foi simplesmente homenagear uma senhora (casada e mãe de 3 ou 4 filhas) que conheci como dona de uma Academia de balé e ginástica, isto em 1987/88, aqui mesmo no bairro.

Dona SÔNIA era um sonho (continua sendo até hoje), um mulherão de balançar o coração e inflar as artérias todas (é, essas também!), algo parecido em altura e tamanho a àquela peladona que desfilou recentemente lá no Sambódromo carioca.
Aliás, eu ía ilustrar esse texto com ela, mas a bem da paz pública, resolvi deixar a foto para uma outra ocasião. Portanto, o conto não tem (ou não tinha) nenhuma conotação educativa.

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 6/3/2008 15:09
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Lígia Saavedra
 

Nato, vc é demais!!!

Belíssimo conto. Eu já o tinha lido e continuo achando que vc é um escritor de rara categoria.

Um bj

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 6/3/2008 19:14
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Lili_Beth*
 

Olá Nato!

Deliciou-se com a cena fora de cena...
Bela, por óbvio!
Toda a cena encenada por ti!

Beijos_Meus*
*

Lili_Beth* · Rio de Janeiro, RJ 7/3/2008 01:53
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Lena Girard
 

Muito bom, menino!!! Parabéns! Beijos

Lena Girard · Belém, PA 7/4/2008 06:13
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LILI_BETH... minha flor, só hoje voltei ao texto e me surpreendo com vossa presença por aqui. (Você anda sumida, querida!)

Cara LENA GIRARD... nos encontraremos qualquer domingo desses lá na Praça "dos pobres", digo, da República. Entre os fantasmas dos antepassados escravos -- ali já foi cemitério lá por 1800 e tal -- e a "turma da cachaça" que pontifica por aquelas bandas. Beijos,

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 7/4/2008 21:08
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