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Manuscrito sobre volatilização (a Karl Marx)

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Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS
26/2/2009 · 271 · 42
 

Cambaleantes escuridão afora, seus passos sôfregos denunciavam a hedônica noite que se sucedera, ainda nas narinas o odor das meretrizes, “mulheres de bem”, senhoras e senhoritas, o qual trazia à sua memória recente o minuto anterior vivido, as pessoas nas ruas a dançar, os encontros fortuitos responsáveis pela total entrega aos prazeres efêmeros da carne, carne fraca, que neste dia foi libertada para vivenciar seus desejos.
Entretanto, agora Romão encontrava-se só, empenhado na difícil tarefa de voltar à sua casa, a lua iluminava seus passos que ecoavam no vazio da noite, esta por sua vez se preparava para o merecido descanso, cada pisada era respondida por um eco correspondente, que fazia a caminhada parecer, quando em ritmo acelerado, a marcha de um exército cansado voltando do front, talvez por causa de seu estado de embriagues, talvez pelo sono que lhe caia sobre as pálpebras, tornando-as insuportavelmente pesadas, o fato é que sentia algo semelhante a começar flutuar, andar sobre nuvens, nunca andara sobre nuvens, mas caso isto ocorresse a sensação deveria ser similar.
Ao dirigir suas mãos aos bolsos da calça a procura de seu isqueiro, teve a tentativa frustrada pela falta de massa das mesmas, que se tornavam transparentes, voláteis, semi-sólidas, não conseguiam segurar nada; a evaporação no momento de sua descoberta começou a se apossar do resto do corpo, suas roupas ganharam o chão enquanto o corpo começava a ganhar os ares, a altitude se ampliava, árvores, casas e postes distanciavam-se, os passos tal qual uma marcha continuavam em seus ouvidos, mas agora tomavam outros tons, como de cascos de cavalo ou outro animal semelhante, apesar de não poder vê-los, aproximavam-se.
O negro da noite cedeu lugar ao avermelhado dos primeiros minutos do amanhecer, ao levitar pelas vielas da cidade que se preparava para acordar, pôde enfim contemplar o espetáculo se aproximar em ritmo agora compassado e lento, tratava-se realmente de um exército, os primeiros trabalhadores a tomarem o rumo dos pontos de ônibus e linhas de metrô, o som por seus ouvidos capitados era dos pés de tais laboriosos transeuntes, estes possuíam patas de bode e andavam em rebanhos, logo atrás o próprio Mefistófeles conduzia o bom andamento de seus cordeiros.
Eu por minha vez observava atônito, com a inocência de criança, da sacada do apartamento onde minha família e eu morávamos, até hoje não sei ao certo se foi sonho ou realidade aquele amanhecer em que perdi o sono e fui tentar recuperá-lo à janela de meu quarto, só sei que a partir de então passei a acreditar na estória que minha mãe contava, falava para termos cuidado, pois, o diabo andava solto nas noites de carnaval.


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Gustavo Adonias
 

Luiz,

Muito bom o seu texto. De fato, o diabo anda à solta, mas na mente dos homens. O carnaval é uma válvula de escape para as pressões sociais. É quando os pobres mortais, como nós, aproveitam para extravazar seus desejos comprimidos pelo massacrante cotidiano. Quanto à parte da volatização de Romão, deu um tom dos contos de ficção científica do passado. Já li algo parecido, mas na história que li a personagem ia perdendo a gravidade, e passava a voar como um balão de gás, vendo as coisas pequenas lá embaixo...

Parabéns !

Abraço

Gustavo Adonias · Salvador, BA 23/2/2009 15:58
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José Carlos Brandão
 

O diabo anda à solta nas noites de carnaval, ou a imaginação, a louca da casa. Afinal, que seria a vida sem as diabruras da louca a meter a casa de pernas para o ar?
Abraços.

José Carlos Brandão · Bauru, SP 23/2/2009 16:54
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azuirfilho
 

Luiz Cabelo · Porto Alegre (RS)
Manuscrito sobre volatilização (a Karl Marx)

Um texto muito bem feito.
Já pode arquitetar mil aventuras e aumentar o acervo do nosso Overmundo.
Estamos num ritimo de elevar o Site e vocé tem muito o que colaborar.
Parabéns.
Abracáo Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 23/2/2009 17:12
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alcanu
 

Realmente, Azuir, senti o nível aumentar, será a volatização ou então coisa do Demo !
um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 23/2/2009 22:19
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Luiz Cabelo
 

Obrigado pelos comentários, acolho todos sempre com muito carinho!

Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 24/2/2009 00:05
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Cláudia Campello
 

Mto bem construido o texto.
...e os diabos andam mais soltos nesses dias de carnaval mesmooooo.
legião de ciumentos, solitarios; inconformados; consumidores de ilusoes; desejos escondidos em mascaras de "eus"...
Mas ve ? Há um Romão na gente e uma criança na janela do tempo. Poeta.

bjssssssssssssss;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 24/2/2009 16:52
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Sander Machado
 

Muito interessante e carregado de um simbólico todo especial. Em relação ao diabo tenho a impressão que nos dias atuais não é bem no carnaval que está a solto ...E sobre Marx gosto muito de uma frase sua que caminha em torno da volatização: TUDO Q

Sander Machado · Porto Alegre, RS 25/2/2009 17:18
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Sander Machado
 

Apertei algo errado aqui e Marx ficou pela metade, mesmo assim, a frase: TUDO QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR.

Com carinho,

Sander Machado · Porto Alegre, RS 25/2/2009 17:19
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Gustavo Adonias
 

Luiz,

Vo(l)tando !

Abraço

Gustavo Adonias · Salvador, BA 25/2/2009 19:29
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

Cambaleantes escuridão afora, seus passos sôfregos denunciavam a hedônica noite que se sucedera, ainda nas narinas o odor das meretrizes, “mulheres de bem”

texto maravilhoso, parabéns amigo.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 25/2/2009 20:55
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Luiz Cabelo
 

Valeu!

Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 25/2/2009 22:22
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LAURO WINCK
 

Muito bom. votado!
abçs

LAURO WINCK · Rio Pardo, RS 25/2/2009 22:39
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joe_brazuca
 

tudo bem...tudo bem...
mas, o velho Max, não merecia um conto tão "luciferiano", né não ?!

votado, abraços "socialistas"...

joe_brazuca · São Paulo, SP 26/2/2009 00:18
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Pedro Monteiro
 

Meu caro Luiz!
O Tempo é sem dúvida um grande mestre...
Você está de parabéns, pela feitura do Texto com beleza e maestria no desenvolvimento.
Abraços

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 26/2/2009 01:15
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Juscelino Mendes
 

Interessante o seu texto. Competente, sobretudo.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 26/2/2009 03:07
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Falcão S.R
 

Luiz,

Texto que prende o leito e de agradável leitura.

Sucesso!

Abs

Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 26/2/2009 06:18
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raphaelreys
 

O seu texto é o núcleo de um romamce meu caro! Parabéns pela obra. Chequei a pensar que fossse combustão expontânea!

raphaelreys · Montes Claros, MG 26/2/2009 06:44
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Elio Cândido de Oliveira
 

Votado, publicado. aplaudido meu amigo.
Bom dia.

Elio Cândido de Oliveira · Ibiá, MG 26/2/2009 07:24
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Sinvaline
 

Rico texto, começando a ler dá-se a impressão de que foi escrito na época de Marx mesmo. Parabéns!
beijos
sinva

Sinvaline · Uruaçu, GO 26/2/2009 08:33
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Ivette G.M.
 

Carne vale. Criado em Veneza, pelo hipócritas, para poder saciar os instintos, proibidos pela igreja. Esconder-se atrás de máscaras.
Por isso ele é do Diabo. É do mal.
Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 26/2/2009 09:12
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clara arruda
 

Meu querido,vou deixar meu imenso carinho e voto.
O que posso comentar?
Todos já o fizeram e seu texto realmente merece estar aqui publicado.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 26/2/2009 09:19
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wancisco franco
 

Caro Cabelo!
Você está se especializando em nos brindar com literatura de alto nível. Agora nas alturas; a poetizar nossas voláteis diabruras.
Votos de grande apreço!

wancisco franco · São Paulo, SP 26/2/2009 09:33
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alcanu
 

E precisava ?
ahahahahahahah

alcanu · São Paulo, SP 26/2/2009 10:21
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Marlene Bastos
 

Olá Luiz!

No país do carnaval não há crise, não é?! O que há é um percurso de prazeres individuais... pelo menos até a quarta de cinzas,rsrs
Gostei imensamente.
Bjokas

Marlene Bastos · Goiânia, GO 26/2/2009 10:42
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Ivan Cezar
 

É, tem que se cuidar mesmo ...
abraço

Ivan Cezar · São Sepé, RS 26/2/2009 10:50
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Atila Naddeo
 

Ótimo texto, Luiz. Aquele que nunca se volatizou que jogue a primeira pedra.
Parabéns. Gostei e votei.

Atila Naddeo · Brasília, DF 26/2/2009 11:09
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Vasqs
 

É , o que seria do carnaval sem o Demo. Viva o carnaval,
viva o Demo!

Vasqs · São Paulo, SP 26/2/2009 12:22
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ayruman
 

Muito oportuno texto. O carnaval é prato cheio que não tem fim!
Luz e Paz amigo. jbconrado

ayruman · Cuiabá, MT 26/2/2009 13:09
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Raiblue
 

Super competente, Luiz, em sua escrita!
Nós e nossas diabruras...rsrs...e no carnaval,então,hein?
o diabo é a mente do homem...hehe...

parabéns,querido!

um beijinho azul
Blue

Raiblue · Salvador, BA 26/2/2009 16:07
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camuccelli
 

camuccelli · Rio de Janeiro, RJ 26/2/2009 16:15
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azuirfilho
 

Luiz Cabelo · Porto Alegre (RS
Manuscrito sobre volatilização (a Karl Marx)
De Volta na Quarta feira de Cinzas que pela lenda náo tem nenhuma bronca ou perigo a correr.
Parabéns.
Abracáo Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 26/2/2009 16:36
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Saramar
 

A alegórica subida, a urbe, as ordas, o rebanho mansamente sendo conduzido para o seu único destino, que todo dia se constrói, sempre o mesmo, sempre o único...

Gostei imensamente desta analogia das ovelhas/homens com o carnaval, onde todos são também conduzidos por algum suposto demônio enquanto imaginam que estão livres.

Realmente, seu texto é primoroso!

beijos

Saramar · Goiânia, GO 26/2/2009 19:43
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Ailuj
 

O diabo sempre andou a solta,eu mesma me acho uma diabinha,rsrs
Desculpre o atraso,estava fora da internet
beijos

Ailuj · Niterói, RJ 26/2/2009 20:50
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wagnerodrigo
 

Votei!

wagnerodrigo · Jacareí, SP 26/2/2009 21:44
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N.Lym
 

Parabéns, Luiz!! Ótimo conto!!
Acho que cada um carrega consigo o demonio que merece!!

N.Lym · Fortaleza, CE 27/2/2009 00:45
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Luiz Cabelo
 

Meus mais sinceros agradecimentos a todos os amigos do OVERMUNDO, pelos comentários que só enriquecem minha escrita. Um abraço a todos!

Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 27/2/2009 20:37
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Andre Luiz Mazzaropi
 

Luiz Cabelo
Sucesso amigo

Andre Luiz Mazzaropi

www.andreluizmazzaropi.com.br

Andre Luiz Mazzaropi · Taubaté, SP 27/2/2009 21:40
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Agenor
 

Oá Luiz,
Belíssimo texto. Nos leva à muitas reflexões...
Votado com louvor ainda que tardiamente.
sinceros abraços

Agenor · Aquidauana, MS 28/2/2009 22:00
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caipiraroll
 

Muito bom!
Parabens!

caipiraroll · Piracicaba, SP 4/3/2009 11:06
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Kaparao
 

O fato do Brasil esconder talentos como este, nao me surpreende, o que me impressiona e a omissao da midia infantil que ingurgitamos todos os santos dias, Luiz , obrigado por existir, ehhh faz sentido.
Coprdialmente
Cosimo (Kaparao)

Kaparao · Divino de São Lourenço, ES 14/3/2009 15:25
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Vinícius Motta
 

Antes fosse um sonho, mas a realidade cerceia de tal forma o homem que precisa de alguns dias para aliviar as tensões de viver em sociedade - aliás, muitos vivem só pq sabem que o carnaval um dia vai voltar.
O problema é que tudo segue uma ordem. Tem coisa mais mecânica e voltada para a eficiência que o Carnaval da Sapucaí? Pessoas especializadas fazem as fantasias e carros, a escola meio que passa correndo para não perder pontos nos seus 82 min. de desfiles. O samba é forjado unicamente para o desfiles, pois depopis ninguém mais lembra do samba de qualquer escola que seja.
Sua mençao a Marx me conduziu pelo texto com um olhar muito mais crítico, pois conheço o autor dos tempos de Ciências Sociais na UFF. Suas contribuições tinham como meta explicar, dentre ouitras coisas, a alienação que sofre o homem nos tempos do capitalismo.
Cabe perguntar se o carnaval serve mais como válvula de escape ou como mascaramento da realidade.
Seu texto é muito bom por conduzir a reflexões.
Parabéns e desculpe pelo atraso no comentário.
Votado.

Vinícius Motta · Rio de Janeiro, RJ 18/3/2009 13:33
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