Cambaleantes escuridão afora, seus passos sôfregos denunciavam a hedônica noite que se sucedera, ainda nas narinas o odor das meretrizes, “mulheres de bem”, senhoras e senhoritas, o qual trazia à sua memória recente o minuto anterior vivido, as pessoas nas ruas a dançar, os encontros fortuitos responsáveis pela total entrega aos prazeres efêmeros da carne, carne fraca, que neste dia foi libertada para vivenciar seus desejos.
Entretanto, agora Romão encontrava-se só, empenhado na difícil tarefa de voltar à sua casa, a lua iluminava seus passos que ecoavam no vazio da noite, esta por sua vez se preparava para o merecido descanso, cada pisada era respondida por um eco correspondente, que fazia a caminhada parecer, quando em ritmo acelerado, a marcha de um exército cansado voltando do front, talvez por causa de seu estado de embriagues, talvez pelo sono que lhe caia sobre as pálpebras, tornando-as insuportavelmente pesadas, o fato é que sentia algo semelhante a começar flutuar, andar sobre nuvens, nunca andara sobre nuvens, mas caso isto ocorresse a sensação deveria ser similar.
Ao dirigir suas mãos aos bolsos da calça a procura de seu isqueiro, teve a tentativa frustrada pela falta de massa das mesmas, que se tornavam transparentes, voláteis, semi-sólidas, não conseguiam segurar nada; a evaporação no momento de sua descoberta começou a se apossar do resto do corpo, suas roupas ganharam o chão enquanto o corpo começava a ganhar os ares, a altitude se ampliava, árvores, casas e postes distanciavam-se, os passos tal qual uma marcha continuavam em seus ouvidos, mas agora tomavam outros tons, como de cascos de cavalo ou outro animal semelhante, apesar de não poder vê-los, aproximavam-se.
O negro da noite cedeu lugar ao avermelhado dos primeiros minutos do amanhecer, ao levitar pelas vielas da cidade que se preparava para acordar, pôde enfim contemplar o espetáculo se aproximar em ritmo agora compassado e lento, tratava-se realmente de um exército, os primeiros trabalhadores a tomarem o rumo dos pontos de ônibus e linhas de metrô, o som por seus ouvidos capitados era dos pés de tais laboriosos transeuntes, estes possuíam patas de bode e andavam em rebanhos, logo atrás o próprio Mefistófeles conduzia o bom andamento de seus cordeiros.
Eu por minha vez observava atônito, com a inocência de criança, da sacada do apartamento onde minha família e eu morávamos, até hoje não sei ao certo se foi sonho ou realidade aquele amanhecer em que perdi o sono e fui tentar recuperá-lo à janela de meu quarto, só sei que a partir de então passei a acreditar na estória que minha mãe contava, falava para termos cuidado, pois, o diabo andava solto nas noites de carnaval.
Luiz,
Muito bom o seu texto. De fato, o diabo anda à solta, mas na mente dos homens. O carnaval é uma válvula de escape para as pressões sociais. É quando os pobres mortais, como nós, aproveitam para extravazar seus desejos comprimidos pelo massacrante cotidiano. Quanto à parte da volatização de Romão, deu um tom dos contos de ficção científica do passado. Já li algo parecido, mas na história que li a personagem ia perdendo a gravidade, e passava a voar como um balão de gás, vendo as coisas pequenas lá embaixo...
Parabéns !
Abraço
O diabo anda à solta nas noites de carnaval, ou a imaginação, a louca da casa. Afinal, que seria a vida sem as diabruras da louca a meter a casa de pernas para o ar?
Abraços.
Luiz Cabelo · Porto Alegre (RS)
Manuscrito sobre volatilização (a Karl Marx)
Um texto muito bem feito.
Já pode arquitetar mil aventuras e aumentar o acervo do nosso Overmundo.
Estamos num ritimo de elevar o Site e vocé tem muito o que colaborar.
Parabéns.
Abracáo Amigo
Realmente, Azuir, senti o nível aumentar, será a volatização ou então coisa do Demo !
um beijo !
Obrigado pelos comentários, acolho todos sempre com muito carinho!
Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 24/2/2009 00:05
Mto bem construido o texto.
...e os diabos andam mais soltos nesses dias de carnaval mesmooooo.
legião de ciumentos, solitarios; inconformados; consumidores de ilusoes; desejos escondidos em mascaras de "eus"...
Mas ve ? Há um Romão na gente e uma criança na janela do tempo. Poeta.
bjssssssssssssss;)
http://www.overmundo.com.br/banco/manuscrito-sobre-volatilizacao-a-karl-marx
Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 25/2/2009 17:01
Muito interessante e carregado de um simbólico todo especial. Em relação ao diabo tenho a impressão que nos dias atuais não é bem no carnaval que está a solto ...E sobre Marx gosto muito de uma frase sua que caminha em torno da volatização: TUDO Q
Sander Machado · Porto Alegre, RS 25/2/2009 17:18
Apertei algo errado aqui e Marx ficou pela metade, mesmo assim, a frase: TUDO QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR.
Com carinho,
Cambaleantes escuridão afora, seus passos sôfregos denunciavam a hedônica noite que se sucedera, ainda nas narinas o odor das meretrizes, “mulheres de bem”
texto maravilhoso, parabéns amigo.votado.
tudo bem...tudo bem...
mas, o velho Max, não merecia um conto tão "luciferiano", né não ?!
votado, abraços "socialistas"...
Meu caro Luiz!
O Tempo é sem dúvida um grande mestre...
Você está de parabéns, pela feitura do Texto com beleza e maestria no desenvolvimento.
Abraços
Interessante o seu texto. Competente, sobretudo.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 26/2/2009 03:07
Luiz,
Texto que prende o leito e de agradável leitura.
Sucesso!
Abs
O seu texto é o núcleo de um romamce meu caro! Parabéns pela obra. Chequei a pensar que fossse combustão expontânea!
raphaelreys · Montes Claros, MG 26/2/2009 06:44
Votado, publicado. aplaudido meu amigo.
Bom dia.
Rico texto, começando a ler dá-se a impressão de que foi escrito na época de Marx mesmo. Parabéns!
beijos
sinva
Carne vale. Criado em Veneza, pelo hipócritas, para poder saciar os instintos, proibidos pela igreja. Esconder-se atrás de máscaras.
Por isso ele é do Diabo. É do mal.
Ivette G M
Meu querido,vou deixar meu imenso carinho e voto.
O que posso comentar?
Todos já o fizeram e seu texto realmente merece estar aqui publicado.
Caro Cabelo!
Você está se especializando em nos brindar com literatura de alto nível. Agora nas alturas; a poetizar nossas voláteis diabruras.
Votos de grande apreço!
Olá Luiz!
No país do carnaval não há crise, não é?! O que há é um percurso de prazeres individuais... pelo menos até a quarta de cinzas,rsrs
Gostei imensamente.
Bjokas
Ótimo texto, Luiz. Aquele que nunca se volatizou que jogue a primeira pedra.
Parabéns. Gostei e votei.
É , o que seria do carnaval sem o Demo. Viva o carnaval,
viva o Demo!
Muito oportuno texto. O carnaval é prato cheio que não tem fim!
Luz e Paz amigo. jbconrado
Super competente, Luiz, em sua escrita!
Nós e nossas diabruras...rsrs...e no carnaval,então,hein?
o diabo é a mente do homem...hehe...
parabéns,querido!
um beijinho azul
Blue
Luiz Cabelo · Porto Alegre (RS
Manuscrito sobre volatilização (a Karl Marx)
De Volta na Quarta feira de Cinzas que pela lenda náo tem nenhuma bronca ou perigo a correr.
Parabéns.
Abracáo Amigo
A alegórica subida, a urbe, as ordas, o rebanho mansamente sendo conduzido para o seu único destino, que todo dia se constrói, sempre o mesmo, sempre o único...
Gostei imensamente desta analogia das ovelhas/homens com o carnaval, onde todos são também conduzidos por algum suposto demônio enquanto imaginam que estão livres.
Realmente, seu texto é primoroso!
beijos
O diabo sempre andou a solta,eu mesma me acho uma diabinha,rsrs
Desculpre o atraso,estava fora da internet
beijos
Parabéns, Luiz!! Ótimo conto!!
Acho que cada um carrega consigo o demonio que merece!!
Meus mais sinceros agradecimentos a todos os amigos do OVERMUNDO, pelos comentários que só enriquecem minha escrita. Um abraço a todos!
Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 27/2/2009 20:37
Luiz Cabelo
Sucesso amigo
Andre Luiz Mazzaropi
www.andreluizmazzaropi.com.br
Oá Luiz,
Belíssimo texto. Nos leva à muitas reflexões...
Votado com louvor ainda que tardiamente.
sinceros abraços
O fato do Brasil esconder talentos como este, nao me surpreende, o que me impressiona e a omissao da midia infantil que ingurgitamos todos os santos dias, Luiz , obrigado por existir, ehhh faz sentido.
Coprdialmente
Cosimo (Kaparao)
Antes fosse um sonho, mas a realidade cerceia de tal forma o homem que precisa de alguns dias para aliviar as tensões de viver em sociedade - aliás, muitos vivem só pq sabem que o carnaval um dia vai voltar.
O problema é que tudo segue uma ordem. Tem coisa mais mecânica e voltada para a eficiência que o Carnaval da Sapucaí? Pessoas especializadas fazem as fantasias e carros, a escola meio que passa correndo para não perder pontos nos seus 82 min. de desfiles. O samba é forjado unicamente para o desfiles, pois depopis ninguém mais lembra do samba de qualquer escola que seja.
Sua mençao a Marx me conduziu pelo texto com um olhar muito mais crítico, pois conheço o autor dos tempos de Ciências Sociais na UFF. Suas contribuições tinham como meta explicar, dentre ouitras coisas, a alienação que sofre o homem nos tempos do capitalismo.
Cabe perguntar se o carnaval serve mais como válvula de escape ou como mascaramento da realidade.
Seu texto é muito bom por conduzir a reflexões.
Parabéns e desculpe pelo atraso no comentário.
Votado.
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