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Mar de Barbados

Foto de Spírito Santo
1
Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ
17/9/2007 · 133 · 10
 

Conto



Nervosa, demais da conta. Atormentada por capetas íntimos e desconexos, ela precisava mesmo espairecer. Foi por isto que fiz o favor.

Desanuviador de mentes conturbadas que me fiz, ali, naquela época, peguei meu fusca velho de guerra e fui, levei a pobre para conhecer a estrada da vida e se fazer mais calma. Gosto de uma boa conversa com ela. Amigos íntimos que éramos, ela também gostava, além da conversa, de chão e de estrada.

Gasolina cara (pelo menos para mim, que andava duro feito casco de cabra, naquele tempo), rodamos não mais do que um tanque até que o carro – ou a vida - parou, ali mesmo, entre um pedágio e uma reta margeada por uma verdejante imensidão. Havia chovido, bem fininho, e o verde era limpo, brilhante. Olhar aquilo espremia a alma de tão bom. Fazer o que?

Achamos bom sim. Os dois. Vida parada sempre foi igual á história dando partida e seguindo célere, ao rumo imprevisível que as histórias transcorrendo têm.

----------------

Mar de Barbados. Estava escrito num cartaz destes de turismo, velho e amarelado, pregado num canto escondido do restaurante, ao lado do pedágio. O cartaz acabou sendo o fio da meada da história que resolvi contar ali, algo assim, exagerado, parecendo verdade, como documentário do Discovery Chanel. Disse a ela que ia lhe contar um caso acontecido - não comigo, frisei, para dar veracidade a prosa - com alguém meu conhecido.

Daí, depois que comecei não dava mais para parar. De início, mentindo, fui contando como se o fato narrado dissesse a mim mesmo respeito. Quando bem me dei conta da fantástica credibilidade que conseguira incutir nela e nos expectadores (sim, porque, a esta altura, todo mundo no restaurante estava ligado, grudado na história, como insetos inocentes num papel de pegar moscas)

Fui, assim, perdendo inteiramente o juízo do que era verdade ou mentira. Pronto, sem saídas, também pego pelo pega-moscas das inverdades verossímeis, fui enveredando, me enredando, eu mesmo, naquela história toda, cabeluda, descabelada mesmo que só vendo.

------------------

Mar de Barbados? O que poderia significar isto? - Pensei eu. Uma imensa multidão de homens barbudos? Um mar tormentoso, encapelado? Ou uma misteriosa história de amor transbordado de algum mar simbólico destes, esparramado por aí?

De raiva pela longa espera, enfiei na história algumas mulheres ruins que conheço (entre as quais não está ela, de modo algum), no papel das bandidas, das vilãs, algozes de alguém. Nem fui eu, a vítima, fui logo dizendo, para lavar, e deixar bem limpinha, alguma dúvida. Qualquer coincidência será, portanto, mera semelhança.

Vocês vão sentir, no transcorrer da história, uma dificuldade imensa em reconhecer as insanas e cruéis criaturas, instigadoras de despeitos, líquidos e certos como profecias. Elas, as bruxas malvadas, personagens indelevelmente feitos, exatamente, como praga de mãe. Podia dizer aqui que elas, de tão poucas, nunca existiram, mas, não digo. Existiram sim. É que quero purgar a raiva que tenho delas, aqui, impunemente.

O mais não afirmo ser verdade. Nem que sim nem que não. Deixo fluir.

O fato é que, verdade ou mentira, tempo de história flue mesmo, tão rápido que nem se vê. Quando é mentira, melhor ainda porque, a mufa que o contador queima para dar consistência e conteúdo às mentiras mais deslavadas que conta, anima a história de fogos e chispas maravilhosas, mais ou menos como quando riscamos curvas sinuosas com um tição em brasa, formando aquela cobra de fogo que inscrita no ar, se move louca, apesar de nem existir. Pura eletricidade sem eletricidade ser. Energia cheia de nada que não seja beleza inexplicável. Lindeza primitiva como cinema de homem das cavernas de Cro-Magnon.

(Segue no Download)

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Spírito Santo
Setembro 2007
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Spírito Santo
 

'Voltei, aqui é o meu lugar...'

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 15/9/2007 18:33
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Saramar
 

Ainda bem!
Estou continuando a leitura, mas como tudo o que escreve é agradável e muito bom, já votei.
Gostei desse inventar para tornar outra pessoa feliz.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 17/9/2007 20:33
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Elizete Vasconcelos Arantes Filha
 

Spirito santo:
Já tava com saudade, que bom que voltou. Gostei do conto só que não consegui ver o resto. Porque vc não coloca o texto todo como eu faço?
Fiquei querendo ver o resto.
Um grande abraço,
Elizete Arantes

Elizete Vasconcelos Arantes Filha · Natal, RN 17/9/2007 20:36
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Spírito Santo
 

Elizete,

Também gostaria de colocar o texto inteiro, mas, para isto ele só poderia ter 3800 caracteres. Como tinha mais, o jeito foi publicar a íntegra só no Download. É esta a regra por aqui.

Abraços.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 17/9/2007 21:25
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Roberta Tum
 

Li mais cedo em edição e voltei para votar.
Abraços!

Roberta Tum · Palmas, TO 17/9/2007 22:33
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Ize
 

Gostei, Spirito, gostei muito "do poder insofismável da história mal contada" pra moça, mas muito bem contada pra nós aqui.
Admirável a imaginação do narrador!
Abrçs

Ize · Rio de Janeiro, RJ 17/9/2007 23:03
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Benny Franklin
 

Muito. O conto é envolvente. Por isso, votei para publicar.
Benny.

Benny Franklin · Belém, PA 17/9/2007 23:14
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Francinne Amarante
 


show!

Francinne Amarante · Brasília, DF 18/9/2007 03:44
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Adroaldo Bauer
 

Como as histórias mais inverossímeis, é a mais pura e tocante verdade.
O inicío meio lerdo, como o fuca e o bar anônimo de gente comum, o miolo repleto de quem sabes e talvezes, um final após o final cândido e emocionante.
Uma linda história de amor, amigo.
Gostei muito.
Gratíssimo pelo convite ao deleite.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 19/9/2007 11:42
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anamineira
 

Cheguei! Li e reli seu texto. Muito linda a história. Um abraço mineiro. Votado.

anamineira · Alvinópolis, MG 20/9/2007 07:59
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