Marido incompreensível
De uns tempos pra cá, depois de oito anos de casamento, meu marido começou a se desgastar comigo e passou a me contrariar. Levantava injúrias, às vezes permanecia mudo e às vezes desatava a falar como um papagaio mal humorado. Estava cada vez mais incompreensivo.
Começou a inventar situações, contava estórias para os vizinhos que não aconteciam. Imaginem vocês que começou a me acusar de desvairada, não deixava mais que eu passasse as tardes na janela e cismou que eu estivesse doente, trouxe amigos, buscou médicos. É claro que eu só fazia rir de suas loucuras.
Lembro-me agora de um caso particular que ocorreu no domingo depois da páscoa: estando eu sentada na cadeira de balanço ele começou a gritar em estado de pânico que eu fosse me vestir, que os vizinhos riam e que eu estava fazendo ridículo. Acha mesmo que eu ia sair nua na sacada? Ele estava piorando, seu estado de saúde me preocupava.
Ele como doido que não aceita seu diagnóstico, retrucava que eu é que inspirava cuidados médicos e sua loucura chegou a tanto que começou a participar de uma conspiração contra uma senhora chamada Margô que a minha memória me traía e não permitia que discernisse quem era a distinta senhora. Mas podia ouví-lo em reuniões intermináveis com os vizinhos, policiais, bombeiros, e todos os especialistas, toda espécie de médico; alguns daqueles tipinhos magrinhos recém formados com a cuca fresca do curso de medicina e outros de barba grisalha e com a calvície dando o ar da graça. Sempre falando dessa Margô, que eu temia já pela integridade e que haveria de descobrir-lhe a identidade.
Nessa época eu sentia muito sono, talvez o cansaço de tanto zelo por ele, me fazia passar horas intermináveis na cama, meus olhos sucumbiam ao cansaço e eu, mesmo tendo o visto com os comparsas em volta de mim me entreguei ao sono e desconheço o que pode ter sucedido na ocasião.
O fato é que eu não podia deixar aquela situação prosseguir, até nosso filho já havia sofrido as contrariedades do pai. Certo dia quando acordei encontrei nosso filho amarrado no pilar da cozinha, como se fosse uma presa fugida. Aquilo não ia ficar assim.
Ele começou a me obrigar a tomar comprimidos que eu desconhecia as recomendações, ignorava os motivos de ele ter se tornado tão inimigo dessa Margô que poderia até nessa altura ser uma amante de quem se vingaria, de certo por um desgosto qualquer.
Encontrava na camisa dele receitas de médicos, inúmeros, sem fim, que imagino eu que fossem de consultas a qual ia, e me mantinha leiga a respeito do assunto. Contrariada, prendi-o no porão e decidi que ia fazê-lo gostar de mim como gostava na época do casório, ia esquecer essa Margô, que de certo devia ser mais moça e mais prendada que eu.
Eu conhecia seus pensamentos e eram de fuga. Passei a lacrar as janelas, depois os objetos, por fim as mãos e a boca e fiz o sacrifício de visitá-lo uma vez por semana para dar lhe comida, já que a água ficava a seu bel prazer. Ele não reclamava, estava arrependido ao certo, apenas tinha os olhos vermelhos, de lágrimas úmidas. Se o deixasse falar, tirando a atadura de sua boca, por certo pediria desculpas, juraria amor até meus últimos dias e perseguiria meus passos arrastando-se no chão. Mas queria o tornar ainda mais apaixonado, para que desistisse definitivamente de Margô, por quem já alimentava alguma mágoa desde a época do início de sua doença.
Ele estava emagrecendo, parecia desistir da vida. Outro dia encontrei ele arquitetando um provável suicídio. Não que eu o tenha pego em flagrante, mas deduzi isso ao encontrar um bilhete na escrivaninha enquanto ele dormia.
“ Margô, me perdoe, não posso mais vê-la mal assim...Jamais poderemos nos entender novamente, prefiro a morte..”
Mas creio que ele rapidamente desistiu do plano, porque não encontrei mais bilhetes. No entanto, não queria mais conversar comigo, estava emburrado de fato. Não respondia, nem se mexia mais. Um dia insistí um pouco mais ao balançá-lo. Foi quando aconteceu.
A barriga dele estava funda, e ele não respirava mais. Pronto! Realmente ele havia desistido de tudo. Não pude suportar, depois de tudo que eu havia feito por ele? Ele simplesmente me abandonou.
Peguei meu casaco no armário e comecei a chamar nosso filho, mas ele também havia sumido. Será que todos haviam resolvido me deixar desolada? Os vizinhos ouvindo meus gritos desesperados pelo nosso filho Ernesto, vieram ao meu encontro:
__Calma Margô! Vai ficar tudo bem, onde está Antônio?
__ Ele tá dormindo. No porão. Cadê meu filho?
__ Margô, fica tranquila...agente vai te ajudar...
__ Eu não saio daqui sem o Ernesto!
Ainda pude ouvir os comparsas conversando no fundo da sala:
__ Fala pra ela, ela tem que ouvir que não tem filho nenhum! Ela é louca!
com de costume um belíssimo trabalho.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 1/2/2009 09:32
Quantos vêem o mundo e as pessoas com este olhar deformado da louca?
Quantos de nós juramos que é pau quando é pedra?
Boa técnica. Bom uso do ponto de vista, fazendo-nos crer, no início, que o louco é o marido, até que, aos poucos, vamos nos dando conta de que é ela que vê tudo em volta de maneira deturpada.
Você tem talento!
Onivaldo, é bem essa a idéia: levar as pessoas a refletir que apenas de acharmos que estamos certos, não estamos na maioria das vezes, pelo menos sob um aspecto de vista...Obrigada à todos pelos votos e comentários!
Jô Garoto · Americana, SP 1/2/2009 14:03
...um ponto pelo conto.
gostei.......
bjsssss
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