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MARUK 3-3

1
LAURO WINCK · Rio Pardo, RS
25/2/2010 · 13 · 10
 

Depois de um confortável e demorado banho preparou algo para comer e ligou o computador. Sua caixa de correspondência estava abarrotada, mas não leu nada. O Orkut possuía também uma infinidade de mensagens de suas amigas querendo saber porque ela sumira. Naturalmente estavam havidas por novidades que abasteceriam seu estoque de fofocas. Lembrou-se do Google, ela lembrava o local do entreposto e acharia no satélite. Depois de algum tempo conseguiu encontrar a montanha e ampliou o suficiente para vê-la com detalhes. Lembrava que Maruk, falara em algo no lado oposto da montanha. Os acontecimentos que culminaram na morte de Passarinho e sua viagem haviam impedido que Maruk lhe mostrasse o que pretendia.
Ela rodou a montanha até ver o outro lado, então seus olhos se deparam com um incrível vale cortado por um riacho e cercado de montanhas.
– Era isso que Maruk queria me mostrar. Era para ali que ele queria levar seu povo. Naquela noite Francielhi não conseguiu dormir. Pensava o tempo todo em Maruk e no sonho que ele tinha. Ela relembrava cada momento da aventura que vivera junto aquele índio e não conseguia esquece-lo. Ligou para sua amiga Claudia que era casada com um deputado influente junto ao governo. Marcaram um encontro para o dia seguinte em um shopping perto dali. Encontraram-se no lugar combinado e ela contou à sua amiga a história em seus mínimos detalhes. Claudia prometeu falar com o marido que viria para o fim de semana. Ela voltou para casa entusiasmada e a primeira coisa que fez foi ligar para Maruk. Mas o telefone chamava e ninguém atendia. Depois de várias tentativas desistiu.
– Aquele cretino! Será que não aprendeu uma coisa simples como atender um telefone?
Maruk levava a mão para apanhar o aparelho que deixara sobre uma pedra, mas uma avestruz intrometida engoliu o aparelho de um só golpe.
– Droga! Ela foi embora, porque quer me ligar? Se não podemos viver juntos é melhor esquecer. Maldirá avestruz, ainda te pego. Será que se eu fizer uma casa ou alugar uma perto do entreposto ela volta? Conversava com Tuka que alem de não ouvir nada, estava apenas preocupada em dormir. Então Maruk teve uma idéia. Talvez funcionasse. Ia dar bastante trabalho, mas ele achava que valeria a pena.
Passaram-se 3 meses desde que Francielhi voltara da viagem. Havia parado de ligar para ele. Ou não atendia ou a mensagem acusava fora de área ou desligado. Então o telefone tocou e ela correu para atender ansiosa. Era Claudia. Informando que o projeto finalmente fora votado na noite anterior. Raul estava planejando a viagem para dentro de dois dias. Claro que ele iria aproveitar a oportunidade para promover-se pois planejava concorrer ao senado nas próximas eleições e o que acabara de conseguir lhe garantiria um expressivo número de votos.
Maruk estava no entreposto negociando algumas peles e carne de Javali. Um alvoroço no bar da esquina fazia com que muitas pessoas corressem para o local. Ele ficou curioso e foi também. Uma TV ligada mostrava uma reportagem no noticiário sobre a votação da matéria e entrevistava ainda no avião o deputado Raul Rodrigues e logo passaram a entrevistar Francielhi. Maruk não acreditava no que estava vendo. Finalmente ele teria a terra para seu povo e Francielhi deveria ter algo a ver com isso. Ela estava no avião do deputado e sendo entrevistada. Claudia conseguira convencer o marido de que Francielhi deveria entregar pessoalmente o documento.
Maruk, meio atrapalhado comprou umas roupas no brechó do local e preparou-se para a ocasião. Quando o avião desceu na pista da força aérea a população do local em peso aguardava. Tinha até banda de música. Após o inevitável discurso do deputado devidamente documentado pelos repórteres que o acompanhavam. Francielhi orgulhosa se preparou para entregar o sonhado documento a Maruk que não cabia em si de felicidade. Ele apanhou o documento e ali mesmo a envolveu em um longo e demorado beijo aplaudido pelo povo que congestionava a pequena sala de embarque. Após o termino da cerimônia ele a fitou demoradamente, mas não sabia o que dizer.
– Não diga nada, apenas me leve para casa. Disse Francielhi abraçando-o pela cintura.
Seguiram antão até o rio onde tomaram o caiaque.
– Droga! Porque não atendeu os meus telefonemas? Perguntou Francielhi observado as fortes remadas que impulsionavam a frágil embarcação.
– Porque uma avestruz engoliu o telefone.
– Puxa, agora tem uma avestruz também? Acho que você não quis atender.
– Bem! Eu ia ligar amanhã pra você. Achei que se não queria ficar comigo, porque me ligaria? Mas agora você está aqui e tenho uma novidade para você.
– Que novidade?
– Você verá! É surpresa. Ela notou que ele estava desviando a canoa para um afluente à direita.
– Hei! Você está pegando outro caminho?
– Sim! Mas não faça perguntas senão perde a graça.
A canoa estava contornando a montanha e ao penetrar na planície ela viu o paredão de rocha onde escavações provavelmente de antigos habitantes do local demonstravam que serviam de habitações cavadas na rocha. Desceram e começaram a subir a elevação em direção as rochas então descortinou-se diante dela uma caverna especial. Havia uma construção interna de alvenaria e Maruk sorria feliz. Ele havia construído uma casa dentro da caverna e Francielhi ficou espantada com o esforço que ele deveria ter feito para construir aquilo. Era espaçosa e tinha muito do conforto da cidade. Até máquina de lavar roupa e é claro um bom gerador elétrico.
– Maruk! Você é louco? Como conseguiu fazer isso em tão pouco tempo?
– Meus amigos me ajudaram. Eu ia ligar pra você assim que voltasse do entreposto. Tinha muito medo que você não quisesse vir. Mas você está aqui. E isso me deixa muito feliz.
– Meu deus, você fez tudo isso pra mim?
– Sim! Mas você também fez muito por mim e meu povo.
– Seu bobo! Eu sempre sonhei em voltar, só não sabia como conseguiria viver no meio de tanto perigo.
– Bem, fique tranqüila, a casa tem portas e não tem cobra no teto, nem ratos. Procurei trazer uns confortos da cidade pra você. Tem até televisão. Afinal tem coisas dos brancos que também já fazem parte da nossa cultura. Vou ver se consigo fazer alguma coisa dessa mistura. Acho que dá pra conciliar as atividades da aldeia com as manias dos brancos. Sem exageros, é claro.
Desta vez ele havia também comprado arroz, óleo e vários outros ingredientes e Francielhi estava feliz, podia agora preparar uns pratos diferentes de carne seca com farinha. Prepararam-se para dormir e agora havia um chuveiro decente com azulejos como os da cidade. Maruk desta vez havia caprichado e tudo isso era para ela. Maruk recostou-se na cabeceira da cama enquanto ela ia para o banho então de repente ela irrompeu nua aos gritos e jogou-se novamente sobre ele.
– Puxa! O que foi desta vez?
– Um sapo enorme lá no banheiro! Tenho medo de sapos!
Maruk riu e desculpou-se.
– Bem! Nem tudo é perfeito.
Passado o susto prepararam-se para uma noite de amor que os dois estavam merecendo. Na manhã seguinte Maruk decidiu que iriam até a reserva, ele queria apresentá-la ao cacique seu pai. Precisava marcar a data para remover seu povo para a nova aldeia e tomaria Francielhi como esposa
– Francielhi, amanhã meu pai abençoará nossa união e então seremos perante a tribo, marido e mulher. Só tem um pequeno problema, ele irá dar-lhe um novo nome.
– Desde que não seja difícil de pronunciar...
O cacique fez uma oração evocando a benção dos deuses e a chamou de Yara. Declarou-os casados.
Mais tarde ela perguntou a Maruk.
– Porque Yara?
– Na cultura de nosso povo Yara foi uma deusa que caiu do céu e fertilizou a terra. Significa também que meu pai quer muitos netos.
No dia marcado para a remoção da tribo, Maruk acordou muito sedo estava ansioso e decidiu que iriam contornar a montanha até sua antiga morada, de lá poderiam ver seu povo se movendo. Será que eles viriam? Subiram quase ao topo da montanha e ficaram namorando sobre a grama. Ao longe viam o cortejo que andava devagar. Maruk estava feliz, seu povo poderia agora recomeçar uma nova vida e retomar seus costumes.
– Veja, tem até alguns brancos no meio ajudando. Não é legal?
– Sim! Mas olhe quem está ali. Francielhi, ou melhor, Yara o puxou pelo braço. Deitada sobre a relva Pinta branca lambia um belo filhote enquanto outros dois brincavam. Ela então andou até a onça e a acariciou alisando-lhe a cabeça. Tinha agora uma amiga na floresta. Maruk que imaginara um dia ter que enfrenta-la olhava-a agora com respeito e a tinha como um membro da família.

FIM



Sobre a obra

Maruk tem que escolher entre sua vida na floresta e o amor de Francielhi Ou será que dá pra conciliar os dois?

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Autoria
Lauro Winck
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R. Marcchi
 

Caro Lauro,

Muito bom!! Envolvente e bem contado!! Escreva mais!!!

Abraços,

R. Marcchi

R. Marcchi · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2010 18:31
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clara arruda
 

Adorei meu querido.
Acho que dá para conciliar a floresta efrancyeli
Bjus

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2010 19:08
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kfarias
 

Como tudo que é criado por sua pessoa, está ótimo.

parabéns,
kfarias.

kfarias · Águas de Lindóia, SP 25/2/2010 22:21
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Cintia Thome
 

A escolha é difícil, as voce acabou bem...até dá outro desenrolar...

Gosto muito. Venham outros

ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 26/2/2010 06:48
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Doroni Hilgenberg
 

Lauro.
além de bonita e influente, Francielle teve uma sorte danada, pois ficou amiga da Onça pintada.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 26/2/2010 10:32
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azuirfilho
 

LAURO WINCK · Rio Pardo, RS
MARUK 3-3
Um Belo desfecho com um povo conquistando a sua Terra Sagrada.
Mais um belo Trabalho que se completa e que mais eleva a sua obra tão admirada que orgulha a todos nós.
Parabéns Mano Poeta.
Abração Amigo a Todos.

azuirfilho · Campinas, SP 26/2/2010 11:17
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raphaelreys
 

Sempre dá para conciliar!

raphaelreys · Montes Claros, MG 26/2/2010 14:55
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gteixeira
 

A reconsiliação vem sempre no final.
Gteixeira

gteixeira · Salinas da Margarida, BA 26/2/2010 15:31
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Greyce Kelly Cruz
 

acredito que vá haver reconciliação...

Greyce Kelly Cruz · São Luís, MA 27/2/2010 08:12
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

um texto espetacular amigo, abraçossss

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 27/2/2010 08:35
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