Massa Fermentada

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Isabel Seixas · Rio de Janeiro, RJ
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É segunda feira, o despertador toca. Uma aventura é subitamente interrompida. Aciona uma fórmula batida, mas infalível. Mais cinco minutos, menos uma torrada. Fim da soneca. Com gosto de sono, resiste ainda. Mas não muito, o tempo não para. Segue o manual. Já o sabe de cor, na verdade. Prática e persistência, melhor forma de aprendizado.

Comprou o jornal e separou o dinheiro do ônibus. A condução demora, e quando chega, esta cheia de mais tantos outros cornos, exatamente como ele. Conforta um pouco. O coletivo anula a marginalidade.

Normalmente vai calado, espiando o jornal do afortunado vizinho do ponto final. Não pode abrir o seu, mas afinal, são quase todos iguais. Mas o domingo havia sido Fantástico, e a discussão estava sendo calorosa. As opiniões tendiam para um discurso de 50 centavos: Barato e tentador. Mas ele não era destes que se contentam com conhecimentos de meia página. Quer informação elaborada, seu estudo e seu emprego o permitem ter acesso a ela. Água e azeite não se misturam, mas podem estar no mesmo recipiente.

Foi prestando atenção nos diálogos, triálogos, multiálogos... Ecos. Se orgulhava de enxergar ângulos diferentes, e, consciente, pensava nos putos políticos que armavam o teatro social. Era ele também um corno, sim, acordara cedo, pegara a condução lotada, estava em pé, com calor e sono e ainda era obrigado a ouvir tanta estupidez. Mas pior eram eles, coitados. Afinal, quanto menos chifre menos corno.

Esse dia tinha que descer para entregar documentos. Pediu informação. Pegava o mesmo ônibus todo dia e não sabia que ele passava no Teatro Municipal. Piloto automático, a rotina é isso. Desceu, fez o que devia e foi para o escritório. Lá, leu seu jornal e no almoço pôde discutir pontos de vista de igual para igual. Óbvio, estava entre iguais.

O dia passou bem, graças a deus. Fez seu trabalho, conversou, teve um bom almoço e não levantou suspeita alguma de desmerecer o que tinha. Foi para casa, jantou, viu TV e lembrou-se que precisava de uma nova geladeira. As novas garrafas de coca-cola não cabiam na dele. Deitou. Pensou nas contas atrasadas, espanador de seu sono. Iria resolver, só precisava de umas horas extras para comprovar o mérito de uma promoção. Mas queria viajar e ainda tinha o curso de inglês....?Prioridades?, repetia, ?prioridades?. A agonia enfim se cansou e ele dormiu. Amanhã vai ser outro dia. Mas não amanhã, amanhã mesmo, pois este será nada menos que um novo hoje. Para ele e para todos. Cada peça no seu devido lugar. Configuram o mosaico de uma imensa maioria de Indivíduos a mais....

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informações

Autoria
Isabel Seixas de Mello é estudante de Produção Cultural na UFF, onde esta concluindo sua graduação com trabalho de conclusão de curso sobre as perspectivas de compartilhamento da Propriedade Intelectual na Era Digital. A autora gosta de escrever crônicas sobre o assunto, usando sempre de metáforas do dia a dia para abordar questões como monopólio midiatico e os reflexos da restrição do fluxo de informações na subjetividade do homem contemporâneo. Antes de mais nada, a autora acredita que "o que divide, multiplica".
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Esso A.
 

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Esso A. · Natal, RN 16/5/2006 15:11
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