Matança de porcos - conto

afernandez
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arlindo fernandez · Campo Grande, MS
23/1/2007 · 165 · 30
 

matança de porcos

Sob o sol vermelho e ardente, as folhas das árvores ficaram azuis. Havia um túnel formado por mangueiras, cujos frutos alimentavam os cardumes de baleias que voavam rumo aos mares do norte. A terra tinha aparência do chão do planeta Vênus, vermelho e sépia. Adiante do matadouro, numa das extremidades das mangueiras, havia um grande rio que levava o sangue dos porcos abatidos. Ao lado, um enorme bosque onde moravam Corah e sua família.
O abatedouro de porcos alimentava a população daquele lugar, onde as perspectivas familiares de espaço e tempo eram estranhas. Tudo escapava às regras, inclusive a luz, que viajava a uma velocidade de 80 quilômetros por hora, fugindo a uma lei natural que é de 300 mil quilômetros por segundo. Então, o tempo também caminhava lento e todos os relógios eram muito vagarosos. As bicicletas eram os veículos mais rápidos e a velocidade dependia de cada um. Na ampla casa de pedra onde Corah vivia com os pais havia inúmeros relógios mecânicos, biológicos e estacionários.
Ela estudava no vilarejo, onde a população não passava de cinco mil pessoas. A região era belíssima, e quando chegava o outono os campos ficavam com um azul profundo, que parecia líquido. E todas as tardes, ante à revoada de baleias, ouvia-se um coro de gritos que ecoava por aquele descomunal céu em rosa: eram os porcos sendo mortos.
Olhos amendoados, sobrancelhas intensas que combinavam com o carmim da boca grossa e nariz imponente. Corah nascera em dezembro e quando chegou aos 12 ganhou uma bicicleta toda violeta e rosa. A estrada entre sua casa e a escola era feita de pedras escuras, lisas e as voltas do vilarejo seriam muito mais rápidas e prazerosas.
Assim, numa manhã, quando voltava da aula, a menina pedalou o mais rápido que pôde. Foi na descida perto da ponte que ela chegou muito próxima da velocidade da luz naquele lugar. Como o tempo é mais lento próximo à velocidade da luz, Corah experimentou a relatividade especial - descobriu que suas partículas atômicas não envelheciam em tal velocidade.
Em cinco minutos a estrada virou um buraco de minhoca, um túnel, ela chegou em casa e o lugar já não era o mesmo. As paredes de pedras foram substituídas por tijolos e madeiras. Havia vários vizinhos e crianças por todos os lados. Ela entrou normalmente em casa. Sua mãe preparava o almoço de rotina para o pai, que estava no matadouro de porcos. Agora, na casa, havia um outro quarto que era de Samuel, o irmão que até cinco minutos atrás não existia. Corah caminhou pela casa, descobriu que o tempo havia passado e ela não envelhecera. Mas as folhas estavam amarelando, ainda se ouvia os gritos dos porcos morrendo e as baleias se confinaram em mares profundos.
A menina de pernas longas ficou extasiada pelas leis naturais do Universo e resolveu estudar sobre as partículas atômicas e suas vidas diante de paradoxos como este. E numa outra manhã, de volta para casa, Corah e Samuel desceram juntos numa mesma bicicleta e se depararam novamente com a dilatação do tempo. Em cinco minutos a estrada já estava pavimentada, o bosque havia desaparecido, assim como o rio e o túnel de mangueiras. A cidade havia aumentado, o céu já não era mais vermelho, rosa e sim azul claro, onde aves e nuvens voavam. As folhas ficaram verdes, o matadouro de porcos dobrou suas dimensões e ganhou uma chaminé, que chegava nas nuvens.
Corah e o irmão vagaram pelo apartamento vazio e repleto de conforto. Seus pais haviam morrido há muitos anos. Em cinco minutos eles mudaram suas vidas para sempre.
Mesmo assim, o tempo passou e eles continuaram a viver naquele lugar extraordinário, como duas crianças que eram e que enganavam o tempo.
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informações

Autoria
A.fernandez - contos
Ficha técnica
O conto foi inspirado na teoria da relatividade especial - Einstein
Velocidade da luz 299999999999999999999999 mil Km/segundo.
Isso é uma lei natural e até onde conhecemos, nada físico pode atingir tal velocidade. Se isso ocorrer o corpo se transformará num buraco negro.
A nossa ciência conjectura que o Universo possui 10 ou 11 dimensões, das quais conhecemos quatro. Por falta de conhecimento e uma razão, as viagens no tempo são apenas "fantasias".
"matança de porcos" é apenas uma dessas fantasias.
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Marcos André Carvalho Lins
 

espetacular o conto, surrealismo e ficcão científica mesclados.
gostei muito.há também um certo lirismo...
abs.

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 20/1/2007 20:50
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arlindo fernandez
 

Salve Marcos André!
Gostei do comentário.Tenho preocupação em não perder o lirísmo,sempre.
Valeu.
saudações pantaneiras do sul

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 21/1/2007 13:46
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Vitória Maria
 

Lindo Arlindo. Tantas cores, uma narrativa que dispensa qualquer imagem. O tempo veio mesmo como mágica, como uma brincadeira. e as crianças com a medonhice inocente e sábia, que somente uma criança pode ter; enganar o tempo. viver sempre num lugar extraordinário. me encantei!

Vitória Maria · Suíça , WW 21/1/2007 15:38
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arlindo fernandez
 

Vitoria,
O teu comentário me certificou de uma coisa ...
Cada pessoa vê de acordo com os seus principios,seus conhecimentos e sua fé ou filosofia.Fantástico!
Agora voce, por exemplo, pode começar uma outra história...
E também propagar inspiração para outros e outros ...
abraços

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 21/1/2007 18:44
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Sebastião Firmiano
 

Só a arte e a literatura pode proporcionar uma nova fenix.
Muitos e muitos porcos viraram presuntos, exceto para aquelas,
que já nasceram com almas aptas a transcendencias.
O matadouro esta de portas abertas. E creio que:' Á agua não
conseguira lavar todo o sangue.
Abraços.
( Quando você vier dai. Traga uma flôr do pântano pra mim).

Sebastião Firmiano · São Paulo, SP 22/1/2007 14:46
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arlindo fernandez
 

Firmiano,
Vc foi longe agora! Alguns servirão de alimentos.Outros já estão mais além...E assim sucessivamente até a eternidade. Um dia, um dia muito distante, todos serão alimentos.
Sobre a flor do pântano. Esta vc poderia vir colher - existem mil.
A minha flor preferida é da guavira (uma fruta,uma iguaria cujo sabor é inexplicável. Ela é a prima,caipira, da pitanga).
Saudações pantaneiras.

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 22/1/2007 15:46
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jjLeandro
 

Belo conto, Arlindo.
Enchi-me de uma inveja saudável, aquela que nos leva à inspiração ao meditar sobre a beleza do que escreveu e cujo resultado não é o despeito, mas a produção artística.
O seu conto é carregado de significados, assim entendi. É na realidade uma metáfora sobre a vida, o nosso cotidiano. Nesse conto, como em muitos meus, vi nas entrelinhas a sua desilusão com o futuro e o progresso. O fim de tudo (sermos devorados pelo Sol) como o resultado final dessa equação é o futuro que nos aguarda; e apesar de tudo isso, o homem não colabora para que o progresso em vez de acelerar essa destruição nos proporcione conforto e bem-estar ilimitados respeitando o meio. Sobre o matadouro: para mim a matança de porcos muito bem pode ser o sofrimento de toda a espécie humana ao longo de sua existência, sempre imolada. Tudo no conto tem uma aura onírica, a única nota destoante (no sentido de que não é onírico, apenas isso) é a matança de porcos. E, para decepção de Corah, ela vê que conhecer antecipadamente o seu futuro não lhe trouxe felicidade, mas inquietação e tristeza. E isso está expresso não na fala da personagem, mas através do autor explicitando que as crianças sabem disso, porém não entendem: "O que aquelas crianças não sabiam é que as implacáveis forças da natureza eram indiferentes para sonhos e anseios de criaturas como elas."

Uma pergunta: esse belíssimo conto está entre os de seu "livrinho" que vai lançar?

Um grande abraço Arlindo.

Muito bom que você usa a sua regionalidade para expressar a universalidade. Isso é estar anos-luz à frente.

jjLeandro · Araguaína, TO 23/1/2007 09:58
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Higor Assis
 

Muito Bom!

Uma viagem, um ilusionismo gratificante daqueles que a volta depois do texto lido nos torna inseguros com o que nos aguarda, entretanto entusismado com o que nos revela.
Nos conte mais sobre este seu livro ? Abraços.

Higor Assis · São Paulo, SP 23/1/2007 11:37
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Rangel Castilho
 

Corah, sua filha, deveria pedalar ao passado.
Falar com Einstein, e alterar alguns genes humanos....
Existem tantos porcos ultimamente.
Salve, Arlindo!!

Rangel Castilho · Anastácio, MS 23/1/2007 12:24
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Nivaldo Lemos
 

Interessante e criativo. Uma bela metáfora da luta existencial entre transitoriedade e imortalidade. Ao mesmo tempo, uma metáfora da condição humana, dividida entre o progresso, o passado e a saudade de um futuro efêmero e vão. Lírico, fantástico, angustiante e belo. Parabéns, meu caro Arlindo.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 23/1/2007 14:56
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arlindo fernandez
 

Salve Nivaldo!
Instigante visão!
Comentário como o teu é um alento.Tenho alguns outros contos aí no banco do Overmundo.Eu te convido a ler "Prelúdio para um tango".saudações pantaneiras do sul


arlindo fernandez · Campo Grande, MS 24/1/2007 09:17
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arlindo fernandez
 

Rangel,
Salve poeta!
A Corah nem imagina sobre o conto - ela está em sampa.
As viagens no tempo são apenas elocubrações ou fantasias. Mas se fosse possível, só viajariamos para o passado. Esta é a lei.
saudações pantaneiras com coscorão e café!

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 24/1/2007 09:21
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Glaiddhe
 

Caríssimo Arlindo,
Com a imagem "Sob o sol vermelho e ardente, as folhas das árvores ficaram azuis" fiquei corada de vergonha. Diante de tamanho poder imaginativo não poderia ser diferente. Findei por mergulhar em "quando chegava o outono os campos ficavam com um azul profundo, que parecia líquido". Meu querido, que Azul!!! Quase me afoguei nele, risos!
Uma palavra paea resumir: extraordinário.
Minhas humildes reverências.

Glaiddhe · Paulo Afonso, BA 24/1/2007 09:22
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arlindo fernandez
 

Higor Assis,
Salve Higor. Estive fora do ar (problemas na minha rede).Adorei teu comentário e te convido para ler "A extraordinária vida de Clorofila"
acho que vc vai gostar.
Sobre o livrinho.
Estou preparando um livro de contos. Pensei em chama-lo de "O homem da Lua" ( uma reunião de anotações de um sujeito que nasceu e viveu na Lua). Este conto tb. está aí.
saudações pantaneiras do sul

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 24/1/2007 09:27
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arlindo fernandez
 

JJleandro
Fiquei entre o deslumbrado e o cismado, sobre teu comentário.
Mas, confesso que fiquei inspirado.Principalmente porque vc é um grande contador de histórias. Sei disso e dou fé porque já li teus contos.São fantásticos tanto quanto.
saudações pantaneiras com café e queijo fresco.

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 24/1/2007 09:33
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arlindo fernandez
 

Grande Glaiddhe!
Obrigado por aceitar o convite e ler o meu conto.Preciso do seu comentário.(isso é oficial).
No livro que vou lançar "O homem da Lua", estou pensando em escolher alguns comentários desses.(vc viu quantos?).Quero dedicar a segunda capa só pra comentários.
Saudações pantaneiras.
af.

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 24/1/2007 09:40
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Glaiddhe
 

Arlindo,
Lê o que tu escreves me causa enorme prazer, portanto nem careces convidar, podes intimar, mesmo. Não me farei de rogada, obedecerei, prontamente!
Um cheiro, afinal sou baiana.

Glaiddhe · Paulo Afonso, BA 24/1/2007 09:47
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Glaiddhe
 

Ah! Esqueci de avisar. Vou citar a "...laranja azul pregada na eternidade..." em minha monografia, com referência, lógico.
Cheiros

Glaiddhe · Paulo Afonso, BA 24/1/2007 09:50
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arlindo fernandez
 

Glaiddhe,
Paulo Afonso é onde fica aquela cachoeira?
Pode citar,pode citar o poema inteiro...
Estou feliz e agradeço o cheiro (pode ser ervas aromáticas?)
Um cheiro com aroma de tomilhos!
af

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 24/1/2007 10:03
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arlindo fernandez
 

Tunisia,
O meu parceiro Geraldo Espíndola vai fazer uma "tour" na Tunisia.E com certeza vai cantar "Prelúdio para um tango" ( a canção).
As nossas músicas já foram pra França, inclusive escrevi uma poesia em francês.(taí no Overmundo).Falta a música.
"Un jour quelconque" ( tá no banco literatura).
abraços

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 24/1/2007 10:12
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arlindo fernandez
 

Vem aí!!!!!

"Teorema da incompletude de Deus" conto

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 24/1/2007 11:50
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Glaiddhe
 

Sim, Arlindo. Paulo Afonso é onde ficava a cachoeira, porque agora, depois de tantas hidrelétricas, ela só surge quando permitem, ou ainda, quando o rio São Francisco enche muito as represas... infelizmente. Depois te mando algumas fotos por e-mail.
Cheiros

Glaiddhe · Paulo Afonso, BA 24/1/2007 13:03
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Luciana Hernandes
 

arlindo, seu texto, com a face pueril de realismo fantástico trata de forma profunda a solidão. gostei!
parabéns!
bjo

Luciana Hernandes · Cuiabá, MT 24/1/2007 22:29
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arlindo fernandez
 

Salve Hernandes!
Talvez seja um reflexo da minha... Sou profundamente solitário e gosto da minha solidão - mesmo quando estou com pessoas ao meu lado.
Voce vai descobrir mais "disso" em outros contos!!!! (serio).
Vc descobriu meu segredo (risos).
beijos
Saudações pantaneiras

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 25/1/2007 08:57
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Nivaldo Lemos
 

Arlindo, ainda não sei bem como funciona o Over, mas publiquei o conto Azul-Celeste e ninguém ainda o leu, ou se leram não quiseram opinar. Gostaria de ouvir sua opinião, pro bem ou pro mal, não importa. O conto ainda está na fila de edição por quatro horas. Então, se der tempo, e você puder, vê se dá uma espiadinha, ok? Abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 25/1/2007 11:23
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arlindo fernandez
 

Nivaldo!
Funciona assim mesmo. Algumas pessoas já fizeram downloads (eu vi)
Eu deixei meu recado na fila de edição, mas a maioria gosta de votar e comentar.(agora ele deve ficar 48 horas na fila de votação. Vc terá que obter pelo menos 40 pontos.Então ficará no banco de cultura do Overmundo).
Um grande abraço!

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 25/1/2007 12:34
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Letícia Lins
 

Grande Arlindo!!

Letícia Lins · São Bernardo do Campo, SP 26/1/2007 14:45
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Rodrigo Nogueira
 

A arte do século XXI será a ciência e nada melhor do que um conto que mistura a vida com viagens no tempo para abrir as portas da percepção. Quem sabe a nossa geração verá o dia que uma nova dimensão " vai surgir no horizonte". Novas formas de ver o universo e de fazer arte. Dá licença que agora vou pegar a bicicleta.

Rodrigo Nogueira · Rio de Janeiro, RJ 30/1/2007 13:03
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Luca Maribondo
 

Filoginia
Quando desenho formas possíveis e impossíveis em minha mente, quase sempre chego a curvas que bem poderiam estar nas reentrâncias e protuberâncias da anatomia feminina. Deve ser porque sou um filógino.

Luca Maribondo · Campo Grande, MS 7/2/2007 18:08
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Jairo Oliveira Ramos
 

Muito bom esse conto com sua realidade e sua física paralela. Ganhamos todos, de brinde, algumas lições de astrofísica. Só não achei uma anã branca entre as estrelas.

Jairo Oliveira Ramos · Aracaju, SE 16/1/2008 20:16
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