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MATERNIDADE- O CONTO

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sol casotti · Rio de Janeiro, RJ
10/10/2006 · 62 · 2
 

Fomos apresentados no último verão, desde então viemos descobrindo várias afinidades. Ambos somos um pouco obsessivos. Por exemplo, temos horror a desperdício, estamos sempre checando prazos de validade para não desperdiçar comida e remédio. Quando vemos que não vamos utilizar o produto antes do prazo, imediatamente doamos.

Também somos extremamente preocupados com anticoncepcionais, cada um usa o seu. Também somos completamente obcecados com a idéia de espaço. Cada um mora na sua casa. Mas estamos apaixonados e pensamos em dar uma festa e casar. Só que, primeiro a gente tem que conseguir dividir os mesmos espaços. Segundo, precisamos conversar sobre esta questão dos anticoncepcionais. É que estou doida para ter filho e já estou mais do que na idade.

Outro dia fomos à praia e conversamos sobre isto. O que aconteceu é que enquanto conversávamos a maré ia subindo e éramos obrigados a nos deslocar sempre para trás (ou para frente, dependendo do ponto de vista). Foi no sábado, um dia de primavera esplendoroso. Falei de filho e ele mudou de assunto, lembrou de um concerto de Tom Jobim com piano de cauda e tudo, a que havia assistido ali mesmo, no Arpoador. Um dia inesquecível.

Contrariando todas as expectativas, após mais uma chegadinha para trás, a maré subindo, foi ele quem tocou no assunto. Porque a gente não liberava. Podíamos fazer exames e deixar que o espermatozóide e o óvulo resolvessem um pouco sobre nossas vidas. “Depois a gente pensa e resolve sobre casa e festa. Vamos dar uma chance a um mundo que não tem controle, a um acaso consentido.”

Ao mesmo tempo que fiquei feliz, deparei-me com aquele tal de acaso consentido e comecei a remoer, estava com ódio. Aquele acaso consentido ressonava na minha cabeça e me emudecia.

A maré subiu mais ainda, aí fui eu que tomei coragem para falar com calma, sem meus habituais estouros verborrágicos: “ Eu queria ter um filho que fosse um desejo realizado, não um acaso consentido.” Ele foi bem sincero, disse que estava amadurecendo esta idéia e foi dar um mergulho. Quando voltou, começou a falar da civilização
perdida de Atlântida e não tocou mais no assunto.

Os dia foram rolando, alguns distantes, outros juntos e tranqüilos, outros juntos e prazerosos. Num desses dias, decidimos realmente liberar.

Três meses depois, o óvulo recebeu o espermatozóide. Posso dizer que a partir daí, ninguém mais questionava se era acaso consentido ou se era desejo realizado, pois o que estava materializado ia além de qualquer questionamento. Além do mais, o prazo era outro, tínhamos nove meses.


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informações

Autoria
Sol Casotti, poeta e roteirista
Ficha técnica
Conto apresentado na Tribuna da Off - FLIP, Paraty, 2006
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Jusaad
 

Adorei, eu tô torcendo por você. Meu voto: 16 votos. Beijos, Ju

Jusaad · São Paulo, SP 10/10/2006 12:27
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margot
 

Adorei!!! O Arpoador estava lindo! E a torcida do lado de cah eh forte!!! Milhoes de beijos, M, D & N

margot · Rio de Janeiro, RJ 18/10/2006 08:02
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