medo de bruxas

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rute vieira · Arapiraca, AL
10/8/2014 · 1 · 0
 

Meu medo e fascínio de bruxas, iniciou em criança. Minha experiência, com o mundo sobrenatural, aconteceu digamos, naturalmente, era criança, criança, meu Deus. Mas, aí de mim. Pobre menina assustada, fazendo xixi na cama de tanto medo. Medo, medo, medo. Medo de tudo, medo de todos. Cresci, o medo cresceu muito mais que eu. De olhos arregalados, tímida, muda, introspectiva. O medo veio com os maus-tratos. Tratada feito bicho, feito um animal selvagem. Selvagemente cresci. Fui, não, não fui, me levaram, não totalmente a contra gosto. Receosa, talvez. Fui, sonhadora. Até. Ah. Até perceber, até tomar ciência, consciência. Da minha infeliz ida. A casa , esta já me era velha conhecida. Paredes grossas , antigas, com seu velho telhado enegrecido pela fumaça do fogão a lenha e pelos cupins. Cercada pela varanda, pilastras grossas, colossais, muitas janelas, porém sempre fechadas , o que dava a casa um tom sombrio, assustador. Em seu interior, sempre a penumbra, a noite o velho candeeiro aceso, com sua luz vermelha e fraca, mal clareava em seu redor. Era difícil se enxergar com luz tão fraca, semimorta. As paredes revestidas de imagens de santos, muitos, e um velho oratório, com velas sempre acesas, o que me causava uma constante náusea. O oratório, ali na parede, acima da mesa, na sala de jantar, comia-se olhando os santos. Assim, de olhos fixos a olhar as gentes. No quintal da casa, reinava imperiosa uma grande mangueira, tão velha quanto a casa e seus habitantes. Eu, pobre sangue novo, naquele reduto velho. Assim seguiam-se os dias, entre uma brincadeira de criança e castigo de gente grande, a surra era por tudo e por nada, dependia do dia. Do humor. Podia ser surrada por uma simples reinação, ou por ter me demorado entre o ir e vir da venda. A noitinha, hora do terror de minha infância, consistia de um velho caneco de alumínio, ah! Como eu temia aquele velho caneco de alumio, sujo, antigo, grande, pesado. Sempre me era oferecido, pelas bordas, transbordante, de mijo quente com açúcar, mijo mijado na hora. Fumegante, para certificar de que a bebida seria tomada toda, sempre tinha no pé da porta um grande galho de goiabeira, sem uma folhinha se quer para aliviar a surrar, de posse do liquido que me era oferecido com um sorriso, acompanhado de um olhar de severidade, e da certeza do castigo, aflita , engolia tudo, rápido, segurava por alguns minutos, ali vigiada por aqueles olhos que me faziam tremer, até ser liberada, saia, de vagar, sem correr, para não chacoalhar na barriga o mijo recém tomado, esperava que se descuidassem de mim, e rápido, ligeiro, enfiava o dedo na goela e vomitava tudo. Não sei que mandinga dos infernos consistia naquilo, não sei. Juro que não sei . Mas, beber o mijo talvez tenha sido dos males o menor. Teve, sei que só uma vez, mas teve, o dia D, aquele dia fatídico que a todos persegue, está ali, a nossa frente, a nos espreitar, de olhar maligino, tecendo todos os dias, esperando a melhor hora de acontecer. Aquele dia, que tudo parece não fazer sentido, ou o sentido não ter razão de ser. O dia que de tão controverso, tão averso a ele mesmo, que desafia a racionalidade, se perdendo na brutalidade dele mesmo. O dia, em que ser humano e ser um monstros tem seu limite ali, fielmente delimitado, afastando tão bem um do outro, que se percebe, sente, ver, claramente, a sua metamorfose, a transformação, o ser dando lugar ao monstro, ali habitado, conservado, mantido disfarçado dentro do espirito, e tão forma, sorrateiramente, espicha seus olhos, arreganha os dentes, a saliva escorre, fria, a baba, lambuja a face, o urro feroz é solto, de uma vez, em sua grandiosidade mais bizarra, ali a inocência é estrangulada, e tudo o que fica são os olhos vagos, uma mente vaga, num vazio frio e triste. Por uma semana, lembro, fui bem tratada, cuidada, mimada, comia uma comidinha quentinha, diferente do alimento azedo diário. Todos os dias comia um bom pirão, bem temperado. Pirão de galinha do terreiro. De longe se sentia o cheiro da galinha cozinhando, temperada com hortelã da folha grande, coentro, cebolinho, cebola rocha, cominho, alho amassado, colorau. Era uma mistura de cheiros, aromas, dava gosto sentir, comer? Não havia nada igual, iguaria fina. Aguçava o apetite, a fome. Comia com gosto. Comia e lambia o prato, lambia os dedos. Satisfeita dormia, no colchão de capim, destripado, cheio de pulga. O fedor do mijo que eu, todas as noites, ali mijava, não me incomodou, não. No quarto escuro , sem janelas, sem candeeiro, de luz mesmo, só duas frestas no telhado, que lembravam dois olhos de prata, que incansavelmente me espiavam, velavam, todas as noites, estavam sempre ali, não sei como, de dia, procurava encontrar a fresta, buscava, uma telha quebrada, um lugar onde se permitisse a entrada da luz pelo telhado. Trabalho inútil, infrutífero. Nada existia. Estava lá, o velho telhado, encardido pelo tempo, e cupins. E todas as noites surgiam aqueles olhos prateados a me fitar, mesmo por baixo dos trapos que meu frágil corpo encobria com custo. Eles varavam o tecido puído, e me seguiam. Pois bem, parecia que eu, estava antevendo o futuro, de repente uma alegria fútil, sabe-se lá de onde veio, de repente, uma comida boa , cheirosa, de repente, nem mesmo os olhos prateados me assustavam, entrei em um estado de devaneio, de mal agouro, era como se meus olhos vissem o que minha alma pressentia. Pressenti, no fundo, sentia uma angustia avassaladora. Algo iria acontecer. Mas o quê? Era manhã, cedo, acordei, fui para os afazeres da casa. Carregar água do açude, no velho pote, na cabeça. Subir e descer ladeira, equilibrando-o, e fazia-o tão bem, sonhava, não sentia o peso, ali me via rainha, senhora dona do mundo, meu momento de solidão, naquelas estradas velhas, vez ou outra passava um passante, cumprimentava-o. sorria, alegre sem saber por que. E no fundo, lá no fundo. Uma terrível angustia se abatia sobre meu pobre espirito. Cheguei, desci o pote da cabeça, senti o cheiro do pirão, do perfume da hortelã, cebola rocha, coentro, cebolinho, cominho, ah. Salivei, pensei, no pirão quentinho, a galinha bem cozida, ah. Ah! Pois bem, encontrei um prato cheio, fumegante de saboroso pirão. A minha espera. Lá estava ele, olhei, mirei bem, comi primeiro com os olhos, esperei, como sempre que me oferecessem um lugar a mesa. Fui convidada a sentar, nem percebi o olhar de malicia sobre mim, por que o que mais me interessava era o pirão. Sentei , enchi a colher e levei a boca. Com gosto. Muito gosto. Aí de mim meu Deus! Pura inocência imaculada! Antes mesmo que a colher me chegasse a boca, para meu espanto, vi uma barata! Cozida, inchada, esbranquiçada, estufada, dentro do pirão! Aquela visão me causou náusea, repugnância. Horror! E sem nem ao menos pensar nas consequências das minhas palavras exclamei: uma barata! Tem uma barata no meu pirão! Só então percebi, o plano diabólico. Perverso , que ali se concretizara, que a muito vinha sendo arquitetado, malignamente, pensado e levado a cabo. Barata que nada! Isso aí é cebola roxa, menina besta! Não é uma barata, respondi trêmula. É uma barata sim, disse quase que em um sussurro. Você vai ver a barata. Disse ela, com sua voz de raiva, fúria insana. Barata nada, cebola roxa. Antes que eu pudesse contestar, antes mesmo que eu, esboçasse qualquer resistência , recebi uma dolorida chicotada de galho de goiabeira. Coma! Era essa a ordem. Coma. Comer? Coma. E tome lapada. Comecei então a engolir com asco. Náusea. O pirão ia e vinha do meu estômago. O vômito me saia pela boca e nariz direto no prato. E então recomeçava a recomer tudo de novo, de novo e de novo. Se fosse apenas uma barata, quem sabe, talvez , tivesse sido mais fácil. Mas, não era. Eram várias. Um pirão de barata! E eu era apenas uma criança. Uma criança! Sem ter a quem apelar. Apelar aos céus? Mas, não tive tempo de rezar, tamanho era o horror que de mim se apoderara. Engoli. Desciam pela minha garganta, baratas gordas estufadas, cozidas, temperadas. Mas baratas. Asquerosas baratas. Passaram-se os dias, e eu cabreira, temerosa que se repetisse o pirão. Continuei sendo alimentada a noite com uma mistura de caldo de feijão, farinha e ubre de vaca. Comia satisfeita. Feliz, diria. Até um novo dia, aquele velho e bom dia que me perseguia. Chegaram da feira, vi meio que pelo rabo dos olhos bem espichado, um salame. Não um pedaço. Uma peça inteira. Guardaram no quarto, pendurado na parede. Eu bem sabia. As comidas boas. Ditas boas, iam para o quarto. Trancado a chave. Nunca tinha acesso a ele. Nem pra faxina. A chave sempre pendurada no pescoço dela. Eu olhava... ficava imaginando o que tanto deveria existir lá dentro. O salame lá, inteirinho, pendurado na parede. Se dele comiam, faziam em minha ausência. Assim como os doces e biscoitos. Nunca provei nada. Só uma vez ou outra, quando estragavam. Biscoitos moles, velhos com gosto de mofo, frutas podres de maduras, já roídas pelos ratos e baratas. Os bons, esse eu nunca via. Só quando chegavam, e iam direto pro quarto a chave. Comi do salame sim, dias depois. Bem depois, quando o mofo, bolor dele já se apoderara, azedo, ligando nos dedos. Cheiro ruim, ocre. Como incentivo, para comer, um galho novinho de goiabeira, e a certeza do castigo durar, até que o prato ficar limpo O que mais poderia existir... pensei que nas noites de lua cheia, ela pegava sua vassoura, tão velha e desgrenhada quanto ela e saia por aí voando. Fazendo maldades. Assustando as criancinhas inocentes. E sabe-se lá mais o quê. Temia, que os olhos prateados fossem os olhos dela. A me vigiar, ali, severa e grave, assustando-me até em meus sonhos. Pra ser sincera, não lembro de ter tido sonhos enquanto lá estive. Eram tudo pesadelos pavorosos. Horrorosos. Vinham bruxas cabeludas, desdentadas, gordas balofas, a me cutucar a ponta de varas, que me feriam a carne parca, e me chegavam aos ossos. Talvez, quem sabe? Não seria apenas as pulgas a me sugar o pouco sangue que me restava. Talvez fossem os delírios causados pelos vermes e me acometiam a noites mal dormidas, entrecortadas entre um assombro e outro. Ou quem sabe, fosse a temeridade daqueles tutores, que me assombravam até nos sonhos. Enfim, um dia. Ah! Um dia. Tomei rumo , tomei prumo, me aprumei, remei pro mundo, tão vasto e pequeno, cheio de demônios de mim velhos conhecidos. E convencida que de todos os males, maior mal, não me poderia acometer, segui por aí, de chinelos velhos, roupas velhas, um molambo humano, perambulando, vagando, por aí. Sem hora de chegar. Sem ter aonde chegar. Indo. Apenas. Se cheguei, não sei. Não desenhei um mapa. Não saí em busca de um tesouro. Apenas fui. Ao sabor do vento. Dormindo no relento, comendo poeira e vento. Vivendo até não mais poder. Caminhando até inchar os pés. Invisível a essas gentes. Passantes. Como eu. Indo e vindo. Seguindo. As vezes, a noite, olho a lua , fechos os olhos. De terror. Temo ainda ser surpreendida e ver sem querer a imagem de um ser em uma vassoura voando, indo em direção a lua. Então fecho os olhos com força, e soluço baixinho. Que seja só um pesadelo meu Deus.

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rute vieira
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