Medos grandes de pequenos seres

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Simone M. e Mendes · Maceió, AL
8/9/2011 · 0 · 0
 

O sentir mais intensamente os estímulos do ambiente era explicado por Freud como sintoma da histeria dissociativa. É o caso, por exemplo, do medo de barata, de rã, de lagartixa... Afinal, o que esses minúsculos animaizinhos teriam de tão ameaçador que pudesse fazer com que um indivíduo de 1,80m pudesse escalar uma mesa na frente de uma plateia, sem o mínimo pudor, senão pela simbologia a eles atribuída? O medo, esse sentimento eminentemente humano, produz condutas involuntárias, derivadas de associações inconscientes, dissociadas da realidade concreta; é capaz de provocar as mais inusitadas condutas: tanto a ação como a inação, ou seja, a fuga ou a paralisia. Certamente até mesmo o imperador mongol Genghis Khan temeria algo que não lhe fosse essencialmente ameaçar.
Nesse diapasão, um grupo de amigos, reunido para um café no término de mais um expediente, tomara como mote o susto que uma rãzinha provocara em alguém nessa ocasião para confessar seus medos. Cada um que os ilustrasse com as situações peculiares por que passara, descrevendo-as com toda a teatralidade de que fosse capaz. Uma, dissera do seu terror dentro de um banheiro porque o guardião da porta era um sapo enorme; confessara, ademais, temer todo o ser saltitante ou voador que nela pudesse precipitar: rã, barata, esperança, besouro... “Não, com esses não estou nem aí, mas não me apareça uma aranha; por mínima que seja, largo tudo e saio correndo.” – adverte o outro, como a fazer entender que sequer lhe aparecessem com aranha de plástico.
Um dos relatos dominou a atenção de todos: “estava recém-casado. Eu e minha esposa, deitados numa esteira de palha, na varanda de uma casa de campo, embrenhados no bucolismo do lugar, sob uma lua dadivosa, imaginávamos São Jorge a abençoar-nos, a cravar sua espada em quem nos quisesse açoitar. Estávamos a prometer-nos corpo e alma indissociados... Eu contemplava a aura de minha esposa, mas também sua silhueta revelada pela luz tênue da noite. Nesse ínterim, estava ela a sentir algo repousado em seu quadril; ao descobrir que não era minha mão, teve a certeza de que se tratava de uma rã de bananeira. No salto do bicho, desarvorados, saltamos nós com a destreza gerada pelo pânico... Por minha vez, nunca mais desejo enfrentar tamanho asco”.
“Vocês sabiam que em algum lugar desse prédio há um jacaré perdido?” Como haveria de ser? Era verdade. Um dos colegas havia encomendado uma dada quantidade desses bichos, no escopo de sua criação em cativeiro. Ao recolher a caixa em que estavam guardados, a fim de levá-los para a sua propriedade, percebera que havia um a menos. Com o auxílio dos companheiros de trabalho, envidou a procura do réptil fujão, que jamais fora encontrado. Daí, quando dele todos houverem esquecido, estaria já criado e indomável...
Com o jacaré no pensamento ou sob a tela do inconsciente, a mais medrosa do grupo recolhera-se. Como de praxe, devorara algumas páginas de um livro - lia Rosseau. Uma lagartixa aproveitara-se de seu estado de abstração e saíra detrás do armário rumo aos mosquitos. No susto da leitora, regressou ao esconderijo. A inocente lagartixa suscitara-lhe a lembrança do jacaré, passando a tomar a sua forma e a sua ferocidade. Custoso, muito custoso fora concentrar-se no livro, dele desistindo, afinal. Contudo, mais difícil ainda seria o regresso ao mundo real e entregar-se ao sono...


Simone Moura e Mendes

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Simone Moura e Mendes
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