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Meia hora na cadeia.

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Valéria Araújo · Natal, RN
30/9/2008 · 99 · 6
 

No ato de dois extremos, hoje, entrei num mundo que nem todos querem – ou merecem - visitar.
Às nove horas recebi a incumbência de visitar a carceragem de uma delegacia de plantão. Preparada para o pior, não sabia que seria tanto. Não, não fui mal tratada ou coisa do tipo. Apesar de terem cometido delitos, aquelas pessoas é quem sofrem maus tratos diariamente nas mãos desse sistema de múltiplas faces.
Cheguei à delegacia e, enquanto esperava ver um corredor de celas, existiam apenas duas. Duas celas de três metros por três, ventilação tampada e, pasmem-se – ou não: mais de vinte presos em um lugar onde não cabem nem oito.
Em um misto de terror, surpresa, agonia e pena. Comecei a ouvir aqueles homens, mesmo não sendo o que eu deveria fazer ali. Fui apenas tirar fotos. Mas aqueles homens, que sequer podem ver ou tocar suas mulheres e filhos, precisavam de alguém que não fossem os detentos para, ao menos, ouvir suas reclamações e que pudesse recorrer a alguém. E essas não são poucas... Acabei prometendo visitas mas não sei se serão feitas.Dar uma chance de melhora pode mostrar alguma luz no fim do túnel.
De acordo com eles, vários presos chegam até à delegacia apanhando dos policiais. A policia, de vez em quando, joga as quentinhas de comida pelas portas deixando cair dentro das celas e faz ameaças aos encarcerados com frases do tipo “se alguém teimar a gente chama o BOPE”. O BOPE, como todos sabem, é o batalhão de operações especiais da policia. Em linhas miúdas, soldados que são treinados para não ter pena de ninguém. Além disso, vi vários presos com necessidades de remédios e transferência para lugares que recebam detentos com problemas mentais. Um deles estava com o braço baleado e os policiais não recebiam o remédio para que ele tomasse. Outro está preso há mais de cinco anos e ainda não foi julgado, mesmo sendo réu primário e não tendo sido preso em flagrante. Em relação a essas primeiras entradas, grande parte deles é réu primário e há mais de cinco meses se encontra no local. Um rapaz, conhecido como Hippie, preso por pegar 20 centímetros de fio de cobre que estava sobrando de um poste, desabafou:
- Que Deus me livre de sair daqui pior, mas é por essas condições que todo mundo sai.
Eles até entendem quem têm de pagar pelo que fizeram, mas alegam dificuldade naquelas condições.
A realidade do sistema prisional brasileiro é desoladora tanto para quem está de fora como quem tem que conviver nesse tipo de situação. A Secretaria de Segurança do Estado prometeu tirar todos os presos das delegacias e transferir para Centros de Detenção Provisórias ou Cadeias Públicas. Essa iniciativa tomada depois do Ministério Público impetrar uma ação que já deveria existir na prática. Contudo, presos continuam superlotando as celas das delegacias e o governo ainda precisa de uma autorização do IDEMA - Instituto de Defesa do Meio Ambiente, para poder continuar com o projeto das cadeias públicas. Então daqui que saiam as licitações e a empresa seja contratada... Enfim, vai demorar um tanto.
A verdade é que não estou protegendo essas pessoas que são acusadas – uma vez que ainda não foram julgadas – de corromper a sociedade com seus crimes. Ouço pessoas falando que bandido não tem de possuir direitos humanos. Acho que essas pessoas nunca sentiram de perto, o cheiro de agonia que sai de uma cela superlotada. O mormaço que sai dali, algumas decepções, até mesmo aqueles que não têm medo de voltar para lá. Antes mesmo de entrar no “xadrez”, a gente sente uma sensação estranha de angústia. Não defendo as propostas de não fotografar presos ou procurados, de não divulgar suas imagens à imprensa, de não usar algemas. Não sou contra prender bandido nem deixá-los na cadeia. Mas o presídio é o lugar deles e onde deve haver ressocialização. Caso contrário, ou como vemos “casos concreto”, esses homens voltarão à marginalidade piores. E sem menos piedade.

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Autoria
Valéria Araújo
Ficha técnica
Estudante de Jornalismo da UFRN, amante dos livros, das artes, fotógrafa de uma pequena menina e escritora de casos cotidiano.
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FILIPE MAMEDE
 

Muito bom Valéria. Agora veja se não para de publicar mais por aqui, hein? Um bjo grande pra srta e pra sua pqna Duda.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 29/9/2008 12:04
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clara arruda
 

Valéria,bem sei o que deves ter sentido.
Antigamente eu fazia parte da pastoral e visitava presídeos.
O sistema carcerário não recupera ninguém.
Gostei imensamente do seu texto e deixo meu carinho.
Publicado.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 30/9/2008 07:42
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JOSE MAURO CANDIDO MENDES
 

OLÁ MENINA MULHER, PARABÉNS PELO SEU TEXTO.
CONTINUE EM NOSSO CANTINHO LITERARIO.
BEIJOS DESSE GOIANO AMANTE DAS ARTES E DO AMOR.

JOSE MAURO CANDIDO MENDES · Goiânia, GO 30/9/2008 09:12
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Bruno Lira Alves
 

Olá valéria, tudo bem? Parabenizo sinceramente pelo texto escrito. Realmente são cenas que nos causam um misto de pavor, medo, raiva e piedade simultaneamente. É bem verdade que eles cometeram delitos, erros que vitimaram outrem, quem sabe um cidadão honesto e cônscio daquilo que é certo e errado, mas a situação em que eles se encontram é de uma penúria plena. Todos nós sabemos que o sistema carcerário brasileiro nunca foi digno de elogios, pelo contrário, recebe críticas veementes cotidianamente, entretanto, se o bem e o mal existem eles poderiam ter escolhido o bem, não acha? Não me considero um desumano, não! Sensibilizo-me com quase tudo e me sensibilizei com isso também. Confesso que um pouco, o mínimo para ser sincero. Parabenizo você mais uma vez pelo ótimo texto, mas se o bem e o mal existem eles podem e devem escolher. É preciso saber viver. Continue escrevendo. Um abraço.

Bruno Lira Alves · Natal, RN 6/10/2008 16:50
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Marcos Pontes
 

E os custos de manutenção desses presos é maior que o das crianças em escolas. Não há luz no fim dessas celas nem mesmo a longo prazo. O sistema está viciado, as autoridades cegas e a população de costas para o problema.

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 16/10/2008 18:32
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MarcosVitorino
 

Muito legal seu texto, a forma simples e, sobretudo, a sensibilidade da/na exposição.
Forte Abraço,
Marcos Vitorino (Rio Branco/Estado do Acre)

MarcosVitorino · Rio Branco, AC 25/6/2010 20:01
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