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memória de uma infância perdida

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alexman · Maceió, AL
10/3/2007 · 74 · 9
 

O obstetra descobriu as pernas magrinhas da menina e, com um arrepio, fez o toque genital para avaliar se existia alguma possibilidade de parto normal. Como esperava, não havia nenhuma, graças a Deus, pois notara, neste ultimo exame, que toda área em torno da vagina e o canal vaginal estavam repletos de uma secreção fétida, vermelhos de irritação e de verrugas de HPV, tudo contra-indicação para um parto normal em qualquer mulher, quanto mais uma pré-pubere, sem seios, sem quadril, de pernas finas e olhar de criança, doze anos, a idade de sua filha única.

Solicitou e realizou a cesareana de madrugada, acompanhado por um anestesista que não parava de contar piadas sujas, uma pediatra solícita, mas calada, seus olhos vendo aquela menina mais como uma paciente de seu consultório. Retirou a criança, pequeniníssima filha de outra criança, outra mulher para ser enfiada no mundo. Mas o útero da menina protestou contra uma gravidez antes de sua maturidade e contra a moderna cirurgia, e retirada a placenta, não cessava de sangrar.

Massagem, medicametos, toda a habilidade de médico experiente, obstetra de pronto-socorro, nada adiantou, e teve de reverter a cirurgia para uma histerectomia total. Fechou aquela fonte de onde brota gente, arrancou totalmente o centro da feminilidade e da reprodutibilidade, castrou sua paciente para salvar-lhe a vida. Sentia-se culpado, pois podia ser sua filha, podia ser que Deus quisesse mais dele, que soubesse mais, que fisesse mais, que tivesse mais do que sua fé vacilante e mal-orientada.

Frustrado, saiu da sala para comunicar à mãe da menina o ocorrido. Recebeu um silêncio resignado e timido em resposta.

Pôde, como em muitos outros dias não pôde, descansar o resto do plantão. Pela manhã, revisando o prontuário, viu que faltava entregar um documento a mãe da paciente, que ainda estava na UTI. A mulher, quase sem perder a indiferença, perguntou sem meias palavras: Doutor, minha filha ainda vai poder gozar? Se não, como há de voltar a trabalhar?

O obstetra sentiu seus dentes rangerem, uma queimação em seu estômago, uma revolta, e uma determinação ir logo para casa abraçar sua filha muito apertado, muito tempo.

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Autoria
Alexandre Mansão
Ficha técnica
Médico e Acupunturista
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Roberta Tum
 

Alex, seu texto está pungente. A história, ou estória, é um soco no estômago. Te sugiro abrir parágrafos, e colocar maiúsculas no início de uma nova frase. Acho que vai facilitar a leitura!
Abraço!

Roberta Tum · Palmas, TO 7/3/2007 10:43
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alexman
 

Roberta, valeu, não tinha percebido que a proposta de linguagem se perderia fora do blog original. A história é real, assim como as outras do blog original.
Obrigado!

alexman · Maceió, AL 7/3/2007 12:43
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Felipe Obrer
 

Alex, já visitou o site da Rehuna?

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 9/3/2007 16:57
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Felipe Obrer
 

tá aqui o link

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 9/3/2007 19:43
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Celio Soares Jr
 

gostei do teu texto.... abraços!

Celio Soares Jr · Pelotas, RS 9/3/2007 21:32
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alexman
 

Obrigado, Felipe!
Obrigado, Célio!

alexman · Maceió, AL 9/3/2007 23:13
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Geovanna
 

esta otimo parabens pai!

Geovanna · Maceió, AL 10/3/2007 19:30
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Zéduardo Calegari Paulino
 

Ultra-realismo na veia!
Bom e necessário.

Zéduardo Calegari Paulino · Campo Grande, MS 11/3/2007 00:01
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fleand
 

Meu caro Mansão, você está de parabéns como esse relato...
Este relato me fez refletir três facetas da humanidade : O primeiro - um relato humanista e comovente da luta médica contra as mais adversas condições da profissão encontrada em diversos locais do imenso Brasil; a segunda - a cruel mesquinhez, seguida de uma pequenez ou ignorância humana quando a "mãe" desta jovem pensando em lucro e na exploração de sua jovem filha, esquecendo de ver a filha como parte de sua família e vendo esta jovem criança como apenas um objeto de trabalho para a infame prostituição infantil....
E o terceiro momento de reflexão que cabe ressaltar em seu relato é: que tipo de valores, ou melhor que a falta de valores faz gerar adultos com mentalidades toscas como essa "mãe" que ao invés de lutar por um futuro digno para sua filha como muitos pais desejam, usa-a como ferramenta de trabalho descartável, por mais que seja sua filha....

fleand · Rio de Janeiro, RJ 11/3/2007 22:40
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