Que toquem os sinos, pequeninos ou graúdos, sinos de Belém — mesmo que seja o do Pará! Morri! Mas não guardo rancor de quem me caçou, assou e afirmou que eu estava um pouco seco. É a vida. Ou o fim dela.
Morri num feriado muito temido pela minha espécie: o Natal. Ah, o Natal. Creio que seja o mais bizarro de todos os feriados “civilizados”. Pelo que pude apurar, antes de ser degolado e devorado, trata-se da celebração do aniversário de um deus, ou filho de um deus, algo do tipo. O aniversário é dele, mas quem ganha presentes são as pessoas. Até aí, tudo bem, é a mesma linha de propagandas de supermercado — “o aniversário é nosso, mas é você quem ganha”.
Quando vou aprendendo mais é que começo a me complicar. A princípio eu achava que o tal deus era um senhor de barba branca e roupão vermelho, pois, afinal, é tudo o que se vê nessa época do ano. Fora isso, pensei também que tivesse a incrível habilidade de se multiplicar, pois eu via o barbudo em várias lojas e shoppings ao mesmo tempo! Mais para frente arrepiei minhas penas ao descobrir que ele não usa carro nem avião, mas um trenó (!) voador (!!) amarrado a renas também voadoras (!!!). Ah, e uma delas tem o um nariz vermelho brilhante (?!).
As vitrines e ruas se enchem de enfeites, luzes que piscam e neve artificial. Esta última é outro dos aspectos estranhos da festa, pois num país do Hemisfério Sul como o em que vivia, antes de ser assado e fatiado, é verão em dezembro. Talvez estivesse lá para combinar com as roupas do barbudo, que de maneira alguma eram de verão. Há também o costume de armar dentro de casa uma réplica de pinheiro e também enchê-lo de enfeites. E luzinhas que piscam. Dispenso comentários. Ah, e tem quem traga árvores de verdade para dentro de casa. Não faltava mais nada.
Já as pessoas não poderiam ficar mais simpáticas. Num mundo em que uma vaga de estacionamento é disputada a punhos cerrados e dentes quebrados, o Natal aparece como uma dádiva àqueles que ainda acreditam em relações humanas harmoniosas. Uma família que se senta cada membro num cômodo e liga a televisão para assistir a mesma coisa de repente se ama e se adora. Trocam beijos, abraços e presentes à meia-noite do dia 24 para o 25 de dezembro. Até certos parentes que preferiam ver outros debaixo de um ônibus tratam como os mais estimados seres do planeta. As pessoas correm e sofrem para adivinhar o que o outro gostaria de ganhar. Altruísmo! Nem tanto — esperam um presente em troca.
O fato é que os seres humanos são criaturas fascinantes. Só de tratarem com naturalidade um feriado tão bizarro como este, sinto que não poderia ter morrido em época melhor. Meus primos lá do Hemisfério Norte reclamam de serem decepados e temperados em mais um feriado, um tal de Dia de Ação de Graças. Deixo para eles, porém, falarem sobre o tal. Quanto a mim, fico esperando que “o dia” do tal barbudo chegue para podermos finalmente conversar. Estou um pouco pessimista, porém, pois já me disseram que o infeliz vive há mais de mil anos.
Crônica originalmente enviada ao blog Blônicas numa promoção de Natal. Foi uma das três escolhidas para publicação no blog. É também minha primeira contribuição ao Overmundo, então, me avisem se estou fazendo alguma coisa de errado :)
perfeito!!! original, estilo 10, e super interessante.
parabéns e bem-vindo ao overmundo.
mande mais material!!
parabéns!!
abs.
nossa ricardo ,. adorei muito seu texto , muito bem humorada, seu peru tirou as palavras de minha boca , natal é o nascimento de jesus e nós comemoramos um aniversário de papai noel. muito legal. abrçs
JuNiN · Ribeirão Preto, SP 22/12/2006 21:22Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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