Menina de trem
Fátima Venutti
Aquela manhã de sexta-feira mostrava-se difÃcil de ser digerida. Enquanto do lado de fora o velho São Pedro fazia faxina no céu jogando baldes e baldes de água, eu estava totalmente estático, olhando pra tela do computador, com uma coluna pra ser entregue até o final daquela mesma manhã. Detalhe: sem idéia nenhuma do que iria escrever (como todo colunista que se preze).
Já havia entornado uma garrafa de café e acabava de acender o último cigarro do maço (já pensando que não poderia sair para comprar outro e iria curtir aquele vagarosamente). Olhei para o relógio: 10hs25min. Eu tinha exatos 35 minutos para desenvolver um texto de duas laudas e enviar por e-mail ao jornal. Onde havia deixado a minha inspiração?
Esmaguei pensativo o cigarro no cinzeiro e busquei instintivamente com o olhar um vulto que acabara de passar pelo lado de fora da janela e, num impulso, arremessei a cadeira para trás e fui conferir. Nada havia a não ser um tÃmido desejo de o sol aparecer para secar a água sobre o asfalto e aquecer um pouco mais aquela gélida manhã.
Voltei-me para o computador e num repente avistei aquela menina parada timidamente, recostada ao corte da parede de acesso à cozinha e a sorrir para mim.
- Que susto, menina! O que está fazendo aqui? Como entrou? Quem é você?
Meu coração, em disparada desordenada parecia que queria caminhar do peito à boca, sem escala. A menina, somente sorria. Vestido florido rosa, cabelos de um tom caramelo adornados com duas tranças; meias brancas e sapato de verniz preto. Por um instante, fechei os olhos e pensei: estou vendo coisas, deve ser muito trabalho, a pressão da crônica que não sai... Ao abri-los lentamente, lá estava ela, ainda. Desta vez, esticava os braços e me chamava para acompanhá-la. Irritado, levantei-me e com as mãos na cintura, feito alça de xÃcara, falei em tom mais intimidador:
- Olha aqui, eu não sei quem você é ou como entrou aqui. Tenho uma crônica pra entregar em 20 minutos senão perco meu emprego. Então, quer fazer o favor de ir embora?
Novamente e sem se ater ao meu nervosismo ela sorriu, porém, a passos contados, veio ao meu encontro, pegou em minha mão esquerda e num ato de condução, foi me puxando para acompanhá-la. Sem reação e para finalizar a situação, segui seus passos. De repente, senti tudo escurecer e uma forte pressão na cabeça. Desmaiei.
Havia fumaça por todos os lados, muita conversa em voz alta e um aroma que me era familiar. Aos poucos, a imagem foi se abrindo e pude tomar conta de onde estava. Uma mistura de prazer, dúvida e incompreensão tomaram conta de mim. Eu estava em uma estação de trem.
Era noite e uma enorme lua cheia reluzia no céu cravejado de estrelas. À minha frente, aquele enorme e majestoso vagão prateado com suas janelas quadradas e de meio vidro. A fumaça ia se apagando pelos trilhos e soltando o cheiro inconfundÃvel de óleo queimado adentrando pela minha narina e sendo saboreado pela minha alma. Pensei: deve ser um sonho e assim vou aproveitá-lo nostalgicamente.
Comecei a caminhar, lentamente, hipnotizado pela oportunidade de sentir novamente o vento rasgando meu rosto, de ouvir o apito e de sentar-me nas poltronas desconfortáveis. Eu desejava fortemente entrar dentro dele. Quando percebi, aquela menina ainda segurava minha mão. Meu impulso foi de trancar as sobrancelhas, olhar bem pra ela e num solavanco, puxar minha mão presa à dela. Mas meu coração estava tão radiante por saborear aquele momento que a única atitude que consegui ter foi a de inflar o peito com ar e desenhar um largo sorriso em meu rosto, só para ela.
Ela correspondeu e, ainda segurando minhas mãos, conduziu-me à frente do trem. Enquanto passávamos pelos vagões, uma outra criança adormecida dentro de mim acordava. De olhos arregalados, buscava em cada imagem um pedaço das viagens que eu havia vivido. Quando me dei conta, eu estava frente a frente ao mais belo maquinário que o homem foi capaz de inventar: a locomotiva. A luz da lua colaborava, iluminando o limpa-trilhos e deixando à mostra toda a imponência do nariz daquela inesquecÃvel peça. Pela minha face, as lágrimas iam saltando sem controle. Podia sentir minhas mãos sendo apertadas mais fortemente por aquela criança, feito uma frase de apoio e de certeza de que o que eu estava sentindo era mais forte do que eu mesmo. Ali, extasiado, embriagado e perdidamente sem compreensão alguma do que estava vivendo, senti o golpe fatal: o primeiro apito da partida.
Aquele som ecoou em minha mente recortando, feito um quebra-cabeça, todas as minhas memórias dos sons que eu guardava cuidadosamente. Ria, chorava, vibrava. De mãos dadas, a menina me conduziu a dar passos para trás, afinal, meu brinquedo de criança ia partir. A fumaça iniciava seu desenho por aquela noite, bailando por sobre a locomotiva e depois, sobre os vagões.
Passageiros apressavam-se em passar pela catraca de embarque, abriam-se janelas, outras se fechavam. Rostos apareciam pra fora buscando enxergar o comprimento do trem ou ainda avistar o amigo, o parente que ficara na plataforma. Novamente o trem apitou e desta vez, segundos bastaram para começar o seu bailado sobre os trilhos, deslizando lenta e deliciosamente. Ah, aquele som, aquele aroma, as luzes internas dos vagões passando em minha frente e o desejo enorme de estar dentro dele, sacolejando de um lado para o outro no corredor, esbarrando em um pé esquecido ou desviando do vendedor de chocolate quente. Ainda pude acompanhar com o olhar a visão do último vagão adentrando na escuridão da noite e a locomotiva surgir com seu clarão na curva, deslizando sob a luz da lua.
Novamente tomei um farto punhado de ar e levei aos pulmões, olhei para a menina que, estática, acompanhava cada sentimento que eu vivia. Levantei os olhos para a lua e os fechei, na intenção de jamais esquecer a visão da sua companhia naquela experiência.
Havia um cheiro forte de café fresco. Quando abri os olhos, debruçado estava sobre minha mesa. Lentamente fui levantando a cabeça e acordando daquele sonho. Fui até a cozinha, preenchi o vazio da xÃcara com aquele negro café e por segundos me perdi na fumaça do café que ainda escorria pelo coador. Olhei pela janela e o sol já assumia sua imponência rasgando o veio dos galhos das árvores e esquentando o asfalto. Do outro lado da rua, lá estava ela: a menina. Estática, sorria pra mim com uma felicidade contagiante. Retribui instintivamente, acenando. Foi quando me dei conta da crônica.
Joguei o resto de café na pia, larguei a xÃcara e fui correndo olhar o relógio na parede: eram 10h55min e eu tinha somente 5 minutos para mandar um texto que nem havia começado. Desesperadamente tomei posse do meu lugar e eis que quando olhei para a tela do computador, lá estava ela. Pronta, linda e perfeita. Só me restou acessar o e-mail e enviar.
(In Terceiro Apito, Fátima Venutti, Nova Letra, 2007, pág, 43)
O tÃtulo remete a "menino de rua", por exemplo... Ficção ou realidade?
Aquele que carrega em sua alma a magia e a nostalgia das viagens de trem entenderá a proposta.
Boa viagem!
Que texto amiga !!!
Eu viajei ao balanço desse trem , seu texto mostrou uma realidade fora do normal , ao ler imaginei um sonho mas no final que vi um conto se transformando em realidade , só quem viaja por esse mundo percebe tantos sonhos perdidos que muitas das vezes só ficam nos sonhos . Bjs...
Deliciosa viagem, privilegiado o cronista! Textão hein, em todos os sentidos! Muito legal... os espaços muito bem retratados, lugares, detalhes... personagens... linda história. Gostei pra caramba da menina! Vou tomar um cafezinho e esperar por ela...
Abraços!! Parabéns!
Passei parte da minha adolescência viajando de trem, vendendo livros e revistas para os migrantes. Aprendi toda malandragem de pátio de estação. Todo apito deixa saudades. Freud teorizava escutando os apitos de trens!
raphaelreys · Montes Claros, MG 13/11/2008 14:27
Esse da imagem é o trem de Piratuba ??
Legal o texto e votado
Fátima
Legal seu texto.
As vezes a inspiração vem com as lembranças de nosa infância,
e das maravilhossa viagens de trem
bjs
bjs
Adoro TRENS...Trens são mágincos...E sua historias, idem !...as surreais ainda mais !...
Fantástico, perfeito, arrepiante...ADOREI e GUARDEI !
votado
beijo
Eu entorno uma garrafa de café todo dia eheheh.ótimo trabalho e bem votado
bjs
Pronto fatinha, já te eternizei, agora vou ler.. e deps comento
Thiers · Rio de Janeiro, RJ 14/11/2008 23:01linda imagem um belo texto.publicado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 14/11/2008 23:09
Acabei de ler, levei precisos 6 min.
Fátima, o conto é forjador de um sonho. Misto de sonho /realidade ele vai se encaixando na falta.. falta tudo para o cronista, dsd tempo, até idéias e eis q suge do fundo da sua cabeça uma imagem idealizada de uma fada... não as fadas de historinhas infantis, mas a fada da atual, adulta, trazendo ainda na mão a história q irá salvar o crnista de tudo, até da sua tristeza.
Surreal e perfeito conto
Fiqei feliz em te ler
Belo texto, imagem maravilhosa... Quantas saudades que a lembrança trás...
Airton
Estrela-RS
Grande overmana. Amei seu texto. O trem está presente em quase todos os recantos do Brasil como um ponto marcante na memória afetiva do nosso povo. Eu por exemplo, tenho a imagem do trem como algo indelével nas minhas reminiscências de criança e adolescência. Cresci praticamente às margens das linhas e da estação...É lamentável que o Brasil não priorize o setor ferroviário, posto que aqui mesmo no Ceará grande parte dos ramais estão desativados, com prédios históricos abandonados. Parte importante da nossa história jogada ao ostracismo para o esquecimento total. Parabéns. Votado.
José Cycero · Aurora, CE 15/11/2008 05:56
Fátima
Em todos os lugares sempre existem e existirão anjos celestiais, ficção ou realidade, está no coração e na alma de que os vê. Belamente escrito. Saudades que o tempo não apaga.
Beijos
Noélio
A fixão é uma realidade abstrata!?
O texto é real e estimulante.
Abraço fraterno,
Herculano
Texto primoroso, senti saudade das marias fumaças
bela imagem ab
flávia...que belo conto...que sonho lindo realmente...
viajei uma vez só de trem...é bucólico realmente...
beijos
Fátima
Viajei um bocadim.
"Vida é trem comendo estrada
a toda hora há partidas e chegadas" (versos da canção Maria de Aldy Carvalho)
votado
Bjinho
Fátima,
Embarco nesse trem dos sonhos, extasiado com a beleza da obra.
Beijos
Sonho? Realidade?
Até quando um é um e outro é outro?
Belo texto
Um abraço
Fátima,
Que bom passeio fui parar no trem de Paranagua,rs
Parabéns
Claudia
Eae Fátima, na pazzz??
Texto maravilhoso. Baixei para ler com mais calma.
Parabéns!!
Abração e ótima semana!
Menina, que beleza de sonho lindo é esta tua cônica. Sensacional. Meus sinceros aplausos e beijos.
Carlos Magno.
Mais um belo texto, e eu, sortuda que sou, tive o provilégio de ouvi-lo de voçê ....Amo seus escritos!!!
Beijos Fáttima!
Fátima,
Que bela viagem você nos proporcionou com esta crõnica cheia de talento e sentimento.
As locomotivas contam as histórias de muitas cidades Brasil afora. De onde eu vim - Três Rios - tudo girava em torno dos trens e trilhos.. Sente-se nas esquinas a nostalgia de um tempo que não não volta mais.
Quanto ao seu texto, a imagem da menina me pareceu um recurso muito bom. Um fio condutor para acessar as lembranças do trem deslizando sobre a noite enluarada e, desta forma, trazer à tona a inspiração.
Oi. Lendo e apreciando tão belo conto.
Feliz Natal e próspero 2009. jbconrado.
Fátima Venutti · Blumenau (SC)
Menina de Trem
Uma verdadeira viagem ao extraordinário porque ficamos impressionados com o aparecimento da Menina..
A Existéncia da menina assume um ar de mÃsterio e magia.
Enáo fazemos uma viagem ao fant\astico.
parabéns.
Um Conto impressionante.
Abracáo Amigo.
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