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MENINOS DE RUA: O SOL

1
Zé Beto · Jaboatão dos Guararapes, PE
24/3/2007 · 52 · 3
 

Passava do meio-dia. Um corpo inerte permaneceu a noite inteira ali. A posição fetal fazia-o nascer todos os dias de sua vida. Os transeuntes quase esbarravam nele. Cinzento, pés pretos, olhos vermelhos, papo amarelo, multicor. A expressão era de um menino; o sonho, de adolescente; o humor de um adulto; a vida, sabe-se lá o quê.

Aos poucos acordava daquele pesadelo para outra vida de horror. Sentou-se e reparou a movimentação de carros e pessoas que passavam ao largo. Pôs a mão dentro do calção tamanho grande, que o deixava perdido na sua magreza e retirou o café da manhã, que fora o jantar e o almoço do dia anterior – cola. Enquanto cheirava, afagava os cabelos castanhos sujos, limpava as remelas da noite sombria e tornava a afagá-los.

Tomado o café, cruzou a rua larga, despreocupado com o vai e vem dos carros. Braços bem abertos, pernas em compassos diferente do resto do corpo, arrastava-se para o outro lado da cidade, o descampado da cidade. Ainda segurava no beiço a garrafa de cola. Parecia um magro ianomâmi pós-moderno, com sua boca esticada e pedaço de graveto enfiado no lábio inferior. Um verdadeiro curumim perdido na floresta de pedra e asfalto.

Parecia saber pra onde ir. Parecia procurar um deus. Mas que deus queria achá-lo. Passou a noite dando bobeira debaixo da velha marquise e ele não o encontrou. Mas parecia procurar um deus. Olhava para o lado, pros pés, pras mãos, pros outros, por entre os prédios, e nada, nadinha de nada. E continuava sua busca. Por certo não saberia explicar esse deus, essa fonte de inspiração para seu delírio de início de tarde. Mais a frente tentava equilibrar a garrafinha de cola na cabeça. Agora parecia uma indiazinha que havia chegado na aldeia depois de apanhar água no igarapé.

Continuava caminhando, olhando a tudo e a todos. Não falava, não balbuciava nada. Parecia tomar decisões certas, seguir os caminhos mais certos, os horizontes mais firmes. Transformara-se num grande cacique, sábio na chefia de si mesmo. Atento aos momentos de perigo, um guerreiro concreto, pronto para o infortúnio, pronto e senhor de si. E assim percorria cada ponto da cidade numa mutação veloz. Parecia crescer, e mais veloz. Parecia esticar, e cada vez mais veloz. Ficava branco de medo, azul de fome, vermelho de raiva e as mutações continuavam cada vez e mais veloz.

Olhando todo o percurso desenhado nas diversas ruas por onde passou, aquela pobre criança havia assimilado a vida dele e de todos os outros que passaram por ele em cada estágio de sua mutação. Seus índios, de diversas aldeias e de diversas raças, desaceleravam próximo ao ponto final. Tinha uma mutação a mais. Mais velha, mais sábia e curandeira. Nosso pequeno rebento havia se transformado em pajé e percorrera toda a cidade para abraçar o deus que descobriu nunca lhe abandonara – o sol. E como em ritual de pajelança abraçou-o amavelmente, elevou as mãos aos céus se cobrindo d’ouro dos raios do sol e tornou a dormir, feliz ao relento.


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ZÉ BETO
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Fê Pavanello
 

Triste realidade.
Adorei o paralelo com os índios.

Abraços

Fê Pavanello · Brasília, DF 23/3/2007 19:17
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Zé Beto
 

Fê,
Obrigado pelos comentários... Tenho publicado no recanto das letras vários meninos de rua... você pode dar uma espiada e ver o começo de tudo...
Abraço,
Zé Beto

Zé Beto · Jaboatão dos Guararapes, PE 26/3/2007 03:47
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Fê Pavanello
 

Assim que tiver um tempinho vou dar uma olhada sim!
Valeu!
Abraços

Fê Pavanello · Brasília, DF 26/3/2007 13:47
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