MEU AMIGO NO RESTAURANTE
Ah! Meus amigos há momentos que não nos sentimos em nossa praia. É aquela velha história do deslocamento. Não se sentir bem num determinado lugar, sabe? Quando isso acontece e a gente percebe, por maior que seja o constrangimento, às vezes o mico é evitado. Quando não, a bandeira — como se dizia em meu tempo — ou o “mico” acontece. Será que se não perceber o “mico” fica-se mais à vontade, mas nosso acompanhante fica em situação delicada?
Olha, isso aconteceu com um amigo meu. Ele estava de viagem comigo. Fomos à cidade grande de carro. Eu dirigindo, ele ao lado ouvindo música ou conversando potoca para passar o tempo. Ele é boa praça, o João, homem alegre, bonachão. Desses para quem tudo está bem. O interior é o seu lugar. É homem da lida na fazenda. Gado, porcos e galinhas. Disso aí ele entende, e só.
Pelo quase vexame que passei — ele parece que nem percebeu a situação — arrependi-me de tê-lo levado ao Sea’s Chanson. Mais por ele do que por mim, pois o garçom percebeu o seu desentendimento e também o fato de ele ter passado batido.
A história foi a seguinte: Chegamos ao hotel quase à hora do almoço, banhamos, voltamos à rua para a refeição em um restaurante.
Ele disse, sem esconder a fome:
— Estou por sua conta. Mas não demora a achar o lugar.
Sorri. E no intuito de lhe apresentar algo diferente, acho que exagerei.
Entramos no Sea’s Chanson. Ambiente refinado, poucos clientes naquele dia e uma música suave para ajudar no relaxamento. Procurei uma mesa a um canto do amplo salão, o mais afastado possível da luz direta do sol, que esplandecia lá fora. O garçom aproximou-se. Fiz o pedido e retornei à conversa com o João.
Quando o garçom trouxe nossa comida e pôs tudo sobre a mesa, vi apenas o sopapo do João no réchaud, o grito e o pulo de sobre a cadeira, derrubando a travessa de frango que ele mantinha aquecida.
— Tá pegando fogo! Você não viu?
Não pude esconder o riso, embora procurasse contê-lo ao máximo.
— Calma, João. É apenas o fogareiro para manter a refeição aquecida.
— Uhhh! — ele suspirou, sentando novamente.
O garçom limpou tudo. Mas claro que o prejuízo estava incluso na conta.
Novo pedido e, enquanto aguardávamos, o garçom trouxe uma entrada com a qual nos entreteríamos. João, sem qualquer encabulamento, pôs-se a devorá-la. No primeiro intervalo de boca vazia, olhou para o lado e, antes que eu pudesse adverti-lo, pegou a tigela com a lavanda e bebeu todo o conteúdo de um só gole. Era bem a hora que o garçom chegava para atender-nos com a bebida. Este fez que nada percebera.
Perguntou com ares de afetada cordialidade, como sabem bem eles fazerem:
— E para beber, senhores?
João falou rápido, antes de mim.
—Eu já bebi.
O garçom olhou para ele e depois para mim. Tornou a pôr os olhos sobre o João.
—A lavanda, senhor?
—Isso que você colocou aqui ao meu lado para beber.
O garçom não desfez o mal-entendido. Insistiu.
—Mais alguma coisa para beber, senhores?
João uma vez mais falou antes de mim.
—Só se for ele aí, eu bebo pouco. E já bebi.
E completou antes que o garçom se voltasse em minha direção.
—Quanto custa essa bebida?
Após uma pequena pausa, o garçom respondeu impassível.
—Senhor, é cortesia da casa.
João sorriu para mim depois que o garçom se afastou para trazer a bebida que eu havia pedido.
—Tô começando a gostar desse lugar. Você sabe mesmo escolher. Será que ainda é grátis se eu pedir outra lavanda?
Aonde o Sr. arrumou essa estória?
Já sei: O Sr. é pescador, não é?
Muito bom cara... Muito bom.
perfeito. um conto interessante e bem-humorado.daqueles que dá vontade de ler mais de uma vez...
abs.
Beleza, Camafunda. Obrigado pelo incentivo
abcs
Hahahaha, me chamo Marcelo, e Camafunga é estranho mesmo.
Camafunga · Pelotas, RS 3/2/2007 15:45Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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