"Mia Cavalo"

Marcelo Ribeiro
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Bombo-de-Corda · Rio de Janeiro, RJ
19/8/2007 · 178 · 31
 

Canto XIII dos 65 vissungos recolhidos pelo historiador Aires da Matta Machado Filho na década de 30, na região de São João da Chapada, Diamantina, MG, então entoados pelos negros descendentes de escravos que passaram a trabalhar nas minas em busca de ouro e diamante.

Os vissungos eram entoados, em sua maioria, para tornar suportável o esforço no trabalho, mas havia também aqueles entoados para agradecer e pedir bênção (como "Otê" - Canto I, também presente no repertório do Bombo de Corda), aqueles para "encomendação" das almas, outros para cobrar multa, outros ainda para contar vantagem, como é o caso deste vissungo que apresentamos, em que o cantador se gaba das qualidades de seu cavalo e o incita a galopar mais rápido.

O termo vissungo tem provável origem no umbundo ovisungo que significa cantos, hinos.

Registrados na obra "O negro e o garimpo em Minas Gerais", publicado em 1943, alguns desses vissungos foram gravados no disco "O canto dos escravos" nas vozes de Clementina de Jesus, Tia Doca e Geraldo Filme.

Hoje sabemos que muitos daqueles vissungos registrados por Machado Filho estão se extinguindo, restando apenas alguns na memória de poucos moradores.

Obs.: Os vissungos recolhidos e publicados por Machado Filho foram catalogados por números, não havendo nome para eles. "Mia Cavalo" é a maneira "mais chegada" como nós do Bombo nos referimos a este canto.

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informações

Autoria
Canto folclórico recolhido por Machado Filho - São João da Chapada, Diamantina - MG.
Ficha técnica
Atabaque e voz: Ana Clara das Vestes; Alfaia: Dagô; palmas e vozes:
Mónica Brun e Simone Costa. Gravado, mixado e masterizado por Dagô, no Estúdio Gigante.
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AZnº 666
 

Na decada de 80 conheci o Grupo Vissungo no RJ que fazia essas musicas maravilhosas. Este registro deve permanecer no Banco da Cultura, para isso caso voçes nãoconsigam os 60 pontos,sugiro repeti-lo no OVerblog que é aonde atacam a maioria dos musicos e per mite mais recursos como ,Video e mais fotos! Sucesso.

AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ 18/8/2007 17:37
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Andre Pessego
 

Oi pessol do Bombo, muito bom se eu pudesse sugeir o faria no sentido de gravarem em cd, sei lá como e divulgar aqui no overmundo, acho que venderiam, divulgariam, é uma questão de consultar. um abraço andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 18/8/2007 22:08
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Higor Assis
 

Nossa eu adorei.

Higor Assis · São Paulo, SP 20/8/2007 13:40
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Higor Assis
 

Aliás quando vierem em sp por favor nos avise.

Higor Assis · São Paulo, SP 20/8/2007 13:41
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Mansur
 

Tá bonito!

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 20/8/2007 15:11
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Bombo-de-Corda
 

AZn e APessego, valeu pelas dicas! No final das contas conseguimos bons votos e o vissungo pôde ser publicado. Que ótimo! Valeu, Mansur! Valeu, Higor! Queremos muito ir a São Paulo sim! Quando rolar a gente avisa aqui!
Abraços a todos,
do povo tudo do Bombo de Corda ; )

Bombo-de-Corda · Rio de Janeiro, RJ 23/8/2007 15:36
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Spírito Santo
 

Citado acima pelo AZn, chego aqui para tentar contribuir.
A expressão Vissungo é mesmo originária do vocábulo Ocisungo (e não Ovisungo, como se disse aqui. A origem do vocábulo é, efetivamente, o idioma Mbundo, falada no centro sul de Angola, sob a forma que a língua devia ter no século XVII (colaborei com o verbete para a wikipédia).
Estive muito tempo pesquisando este assunto (até estive fazendo pesquisa de campo e recolhendo material lá no local certa vez)
Ao que me consta, Vissungo é um gênero musical puramente africano (não houve simbiose com nenhum outro gênero musical, português, brasileiro ou o que seja)
Há que se considerar também que sendo música, diretamente, relacionada ao tipo de trabalho que se fazia na região (garimpo, lavra de ouro e diamante sob regime de trabalho escravo), segundo práticas culturais ainda desenvolvidas na África, o gênero pode ser considerado hoje como, praticamente, extinto no Brasil.
O livro de Aires da Machado Filho, apesar de ser uma jóia de nossa etnografia, representano uma coleta feita no longínquo ano de 1928 reproduzida em precárias partituras, não servem, infelizmente, de modo algum, como referência para recriaçõe, ou mesmo, reproduções artísticas do que eram os Vissungos que, são, Freqüentemente banalizados por meio de versões que confundem - as vezes irresponsavelmente - o gênero com Jongo, com Umbanda e até com Candomblé (só para se ter uma idéia, os Vissungos originais são cantos responsoriais sem andamento definido, longas cantigas entoadas por um 'mestre' e respondidas pelos demais trabalhadores, geralmente sem nenhum instrumento de percussão que não sejam o som de batéias, enxadas e pás (erro recorrente dos 'recriadores').

Desaparecidas as fitas usadas pelo assistente de Aires da Mata para transcrever as canções, os raros registros em áudio (única mídia capaz de corresponder a verdade) foram gravadas pelo etnólogo austríaco Gerard Kubik na década de 70, por este que vos fala e - o melhor registro de todos- pelo etnólogo Luiz Heitor Correa, a serviço da Biblioteca do Congresso Americano que gravou muita música negra do mundo inteiro, antes da segunda Guerra Mundial (no tempo da política de Boa Vizinhança).
Então vejamos: Vissungo, originalmente, não é jongo, Vissungo não é Maracatu, não é camdomblé e não tem nada a ver com Samba.
Tenho certeza que o Bombo de Corda não anda afirmando por aí que faz Vissungo 'original'. A recriação, o trabalho baseado em elementos de nossa cultura tradicional é sempre elogiado quando não pretende (seja lá com que interesse) ser um sucedâneo, um substituto do que - desculpem o 'essencialismo'- é - ou foi - original.
Até porque no caso dos Vissungos seria bem difícil: O Gênero não existe mais, ativamente, a quase um século.
Sobre o grupo Vissungo vejam, por favor, este link.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 23/3/2008 14:41
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Bombo-de-Corda
 

Salve Salve Spírito Santo!

É uma honra pra nós do Bombo poder contar com sua presença tão generosa, ajudando a clarear as idéias, dividindo seu conhecimento e experiência com todos!

Sobre o termo ovisungo citado por nós lá em cima, nas fontes onde pudemos pesquisar, ele nada mais é senão a forma plural para o ocisungo que vc mencionou, e como nós nos referimos a cantos e hinos, no plural, optamos por usá-lo, embora o radical mais conhecido ou difundido da palavra seja mesmo o ocisungo. No final das contas, estamos falando da mesma coisa: no singular ou no plural, estamos nos referindo àqueles cantos que vc soube explicar tão bem do que tratam.

Sob um aspecto, pode-se dizer que os vissungos não existem mais. Estão extintos. Pelo menos na sua essência, já que os motivos pelos quais eles eram entoados já não existem mais. Já não há mais trabalho pesado no garimpo, já não há diamantes que se encontrar, já não há diamantes que se esconder dos companheiros que garimpam ali ao lado...; se morre alguém na vizinhança, não existem mais as longas caminhadas carregando e velando o corpo até o cemitério mais próximo na cidade vizinha, pra onde todos seguiam cantando: o corpo segue agora de carro e a distância já é tão pequena que não cabe mais cantar... O modo de viver daquelas pessoas mudou e, com isso, mudou todo o resto.

Mas numa pesquisa feita em 2001 por uma lingüista que revisitou diversas comunidades do antigo Tijuco, constatou-se que uns poucos moradores ainda sabiam cantar alguns daqueles vissungos. Por isso, sob outro aspecto, os vissungos não morreram, estão lá, guardadinhos nas cabeças de uns.

Ela chegou a recolher o Canto I (“otê, padre-nosso cum ave-maria, securo camera qui t’anganansambê, aiô...") com a letra quase que completamente alterada. Muitos dos termos na língua mãe, não mais compreendidos pelos homens que ainda entoavam os cantos, passaram a ser substituídos por palavras em português que tivessem semelhança fonética com o original e fizessem algum sentido para eles.

Veja bem, à época do Aires, já havia a referência a “padre nosso com ave Maria”, evidência de que a coisa já não era “pura”, estava sincretizada com o catolicismo.

Mas assim é a cultura! Viva! Nada é estático. O homem a cria e a transforma o tempo todo. E por isso ela é tão fascinante! Porque ela é o espelho da vida dos homens de um lugar. Se sua vida muda, se seu mundo muda, muda também sua cultura, em alguns casos acaba desaparecendo...

Mas só de a gente saber que ainda em 2001 havia 3 ou 5 moradores dos arredores de Ausente e São João da Chapada que se lembravam de alguns vissungos... isso dá um certo arrepio, não?

É claro que os vissungos, tal como retratados no livro do Aires (provavelmente o mais acessível dos registros a esse respeito), já haviam sofrido modificações dos seus “originais” (visto os sincretismos já ali encontrados) e estariam por se modificar ainda mais, como no caso do Canto I já citado.

Nesse sentido, os registros que se fizeram até hoje de diversas manifestações populares em diversas ocasiões representam estágios de algo em processo, são retratos de algo vivo, que muda com o tempo. Naqueles retratos, como nos da nossa juventude, não vemos os fios brancos que nasceram depois ou as rugas que já agora aparecem no canto dos olhos...

Resta a nós uma reflexão: se um “original”, ou melhor dizendo, o uso que alguns estudiosos fazem dele, não representaria engessar a cultura de um povo e negar/ignorar que essa cultura é coisa viva, que está em constante transformação e que não se permite moldar, formatar.

Recentemente, acompanhando as festividades de uma Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, observamos um fato curioso. Um dos cantos entoados, ao se referir à Senhora do Rosário diz assim: “Ela é nossa mãe, Ela é nossa guia”. Um menino pequeno, de seus 7 anos talvez, no meio da guarda de Moçambique, tocando sua caixa com paixão, cantava a plenos pulmões e com toda a convicção: “Ela é nossa mãe, Ela é nossa vida”!

Será que dentro de alguns anos, se nenhum capitão “corrigir” esse menino, o tal canto não terá se transformado? E alguém de nós entenderá que aquele menino estava cantando errado?? Creio que não... A cultura popular, essa que tanto nos encanta, é livre e se manifesta independente de conceitos ou preconceitos.

(continua a seguir...)

Bombo-de-Corda · Rio de Janeiro, RJ 1/5/2008 12:34
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Bombo-de-Corda
 

Agora, continuando, no que diz respeito ao Bombo de Corda, nós temos grande preocupação e grande respeito ao tratar da cultura popular. Isso para nós é coisa sagrada. O mestre está certíssimo quando afirma acreditar que não dizemos por aí que estamos fazendo um “vissungo original”, isso seria um tanto leviano de nossa parte. Sabemos que nunca faremos "originais" (e não é essa a proposta do nosso trabalho), nem de um vissungo, nem de uma toada de maracatu, nem de um moçambique, nem de um coco... Para isso, precisaríamos nascer de novo, dentro daquelas comunidades, precisaríamos estar inseridos naquela vivência, precisaríamos ser aquelas pessoas e ter vivido aquelas histórias...

Não sendo possível isso, de fora que estamos, só cabe a nós nos apaixonar e nos render a tanta beleza, a tanta riqueza, a tanta história, a tantos modos de vida, a tanto acorde, a tanto batuque, a tanta dança... Fomos rendidos, estamos apaixonados, e o que nos cabe diante disso tudo é só cantar!

abração!

(Simone)

Bombo-de-Corda · Rio de Janeiro, RJ 1/5/2008 12:36
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Spírito Santo
 

Simone e todo mundo,

Sem muito a comentar sobre a sua ótima dissertação que, de certo modo, está correta (desculpe se me extendendo no assunto) só acrescentaria que, quando digo 'extinto', estou me referindo à manifestação 'Vissungos', como um todo e não à sobrevivência fragmentada de alguns elementos, como uma ou outra canção, lembrada por esta ou aquela pessoa. Eu mesmo (que sou, por parte de pai descendente de escravos da região) estive em Quartel de Indaiá em 1981 e recolhi, facilmente, dois pontos de vissungo inclusive este 'Otê, padi nosso...'. Encontrei também em Viena, Áustria (onde residi) um etnólogo chamado Gehrad Kubik que esteve lá, um pouco antes de mim, e fez muitos registros interessantes (mais ou menos os mesmos, na verdade). São bastante profusos os registros sobre 'vissungos do Tijuco' (embora eles tenham, em geral, pouca profundidade). Praticamente, todo mundo do ramo fala do assunto que é um 'must' antropológico no Brasil, por conta de seu exotismo, talvez.
(Desculpe por usar a minha ácida franqueza, o que faço aqui da melhor forma e com as melhres intenções).
O que tenho me batido ultimamente no entanto, é contra um hábito muito recorrente hoje em dia no Brasil, de grupos como o de vocês, totalmente desvinculados social e culturalmente de manifestações como esta (típica de negros pobres descendentes de escravos de uma remotíssima região), sairem por aí 'representando', de forma imitativa, apressadamente, manifestações populares (danças, ritmos, etc.) com os quais tem uma ligação não mais que superficial, sem nem se dar conta, na maioria dos casos, das consequências que podem advir desta ação, senão fosse pelas conseqüências, digamos assim, meramente 'antropológicas' mais evidentes (distorção arbitrária e involuntária de elementos por falta de conhecimento de causa ou vivência específica, etc), principalmente do ponto de vista ético já que, de um modo ou de outro, estes grupos acabam desenvolvendo algum tipo de relação comercial, auferindo algum tipo de lucro, com esta sua 'rendição', esta 'paixão' pela cultura do 'outro', motivações pra lá de vagas que, neste caso, para os bons entendedores, pode soar um tanto ou quanto falsas, piegas ou mesmo, oportunistas.

Arvorar-se em praticante de uma cultura, visivelmente, alheia à sua específica, a partir de contatos tão superficiais, anulando, subestimando e/ou substituindo os praticantes originais (quando ainda ativos) ou simulando a prática de uma suposta e remota sobrevivência de fatores exóticos já extintos, baseando-se apenas no fato deles serem pouco conhecidos pela maioria das pessoas, é um conceito conhecido, a grosso modo, como 'apropriação indébita'. Não afirmo que é o caso de vocês, mas, cuidado. Pode parecer.

A cultura brasileira é rica demais de diversidade e todos nós temos o direito de exercê-la da forma como bem enterdermos, mas, é preciso ter em conta que existe na extratificação social de nossa sociedade, circunstâncias muito peculiares (desigualdade flagrante entre as classes, o racismo e outros expedientes de exclusão social muito ativos, embora sutis) que fazem com que a ética das relações e intercâmbios culturais entre as classes se torne uma questão a ser agudamente observada, por ser de suma importância e gravidade.

Isto sem falar dos problemas, diretamente, artísticos da questão pois, como se sabe, existe uma diferença enorme entre deixar-se influenciar por certos elementos de uma manifestação 'folclórica', mesclando-os com elementos outros, de nossa própria 'praia' gerando a partir daí um produto artístico novo e legítimo (coisa que foi muito importante para potencializar a música popular feita no Brasil dos anos 70) e, simplesmente imitar, canhestramente, este ou aquele elemento mais exótico, banalizando de forma inconseqüente aquilo que nem sabemos direito de onde vem e o que significa.

O registro do que realmente existe ainda por lá (como faz a lingüista), a coleta, a documentação e o estudo de todos os registros do assunto, pode ser a coisa certa a se fazer.

Só como exemplo, pelo que pude constatar, de minha parte, ouvindo os registros a que tive acesso, as escalas
e os modos contidos nas melodias dos vissungos não têm nenhuma relação com a música brasileira convencional (As partituras editadas pelo Aires da Matta contém erros de escala por conta de 'aproximações' com a musica ocidental, feitas por quem transcreveu) ou seja, Vissungo é música puramente africana, angolana, para ser mais exato, talvez os últimos registros de música africana legítima que se tenha no Brasil).
Como se vê, fazer Antropologia e fazer Cultura são coisas completamente diferentes.
Perguntem, honestamente, de que forma o trabalho de vocês pode ser 'revertido', sem interferências substanciais, para aqueles que lhes inspiraram esta 'paixão'. Imitá-los, com certeza, não é nada proveitoso para eles.
Es

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 1/5/2008 16:10
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Bombo-de-Corda
 

Caríssimo,

Sinceramente não consigo compreender sua intenção em apressadamente subestimar os objetivos não do Bombo de Corda, mas sim das 4 pessoas envolvidas nesse coletivo. É óbvio que o Overmundo não foi criado para isso e nem quero fazer desses comentários um debate "gladitório" sobre motivos, intenções e autoridades/autorizações muito embora você não deixe de citar sua origem e suspeite da nossa. Somos todos crias em parte de um outro coletivo chamado Coral Altivoz e durante muitos anos fomos seu vizinho. Aprendemos a respeitar o seu trabalho embora você nunca tenha visto nossa cara em uma de sua oficinas. Mais do que isso, aprendemos nesse convívio do Altivoz a respeitar as iniciativas dentro desse grande "saco de batatas" que é o meio dos "culturalmente culturais". Por quê respeitar? Porque não temos como contabilizar o valor ético de todas as iniciativas e nós, do nosso jeito, limitamo-nos a engarjar naquelas que nos são realmente válidas e investigar e (depois) combater aquelas que, a nós, parecem oportunistas. Parece que foi essa sua ação, mas onde sobrou dedução faltou investigação.

O objetivo de nós quatro enquanto grupo é o mesmo que nos motivou a publicar esta e outras "canções", encontrar pessoas e afinidades, ampliar a rede, os conhecimentos e vivências. Como seria ótimo se a postagem de " " " " Mia Cavalo " " " " por nossa parte movesse você a corrigir-nos com relação a várias imprecisões de nosso arcabouço técnico/conceitual (isso por si só seria um enorme presente ao Bombo de Corda) e num segundo momento o levasse a querer estreitar uma relação de pessoas que vivem numa mesma "capital cultural" tão promíscua como o Rio-da-Lapa-de-Janeiro. Deu tudo errado, você posou como patrulheiro para nós e o Bombo de Corda foi esculhambado e presenteado com a carapuça dos oportunistas e sem-ética. Não vamos vesti-lá porque sabemos distinguir intenções e, sem querermos ser patrulheiros, usamos o nosso dissernimento para procurar as iniciativas que parecem valer a pena. Ficarmos isolados na música pop-carioca só porque somos (teoricamente, quem sabe da nossa história pessoal?) da cidade grande não vale a vida. Sequer somos músicos e, se tampouco queremos ser antropólogos, nos resta sair à chuva e procurar a vivência e o aprendizado dela num espaço-tempo real (e agora até virtual).

Dizer que até hoje não ganhamos dinheiro com o grupo (ou com nossa apropriação indevida) realmente não prova nada. Mas um olhar aproximado sobre o quanto já investimos e o quanto ainda pretendemos investir em nossa jornada rumo ao homem coletivo é mais do que suficiente para comprovar que não estamos na praia a procurar uma dessas ondas perfeitas do pesquisador-destemido-e-bem-intensionado com um patrocínio de nossa grande empresa de extração de petróleo.

Dagô.

Bombo-de-Corda · Rio de Janeiro, RJ 1/5/2008 20:13
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Spírito Santo
 

Bombo,

Bem, como temia, vocês não entenderam mesmo a minha franqueza peculiar, que reconheço, foi mesmo bem inconveniente. É o meu jeitão de ser mesmo. Apanho muito por ser assim e, mesmo velho, não me emendo. Como disse, entretanto, as intenções são até boas.
Mas o bom é que vocês entenderam, pelo menos, minha intenção, (só no geral é claro). De vocês, que fique claro, não afirmei nada, só falei genericamente, pelo deixam transparecer, pelas aparências portanto..'Não afirmo que é o caso de vocês, mas, cuidado. Pode parecer..", dizia eu, meio que querndo saber mais.
É meio patrulhismo sim, claro ('patrulhismo' também é cultura). Nesta seara monótona da dissimulação e da hegemonia do 'politicamenteo correto' (muito em voga no 'Rio-da-Lapa-de-Janeiro' como você bem coloca, Dagô) não conheço ainda maneira melhor de estimular um debate que não seja esta. O pior é que dói em mim também.
Saber que vocês passaram pelo Altivoz foi bom saber também porque com o pessoal de lá, Glória, Mario, sempre procedi desta mesma forma 'patrulhista', conseguindo, além da antipatia de alguns, bons debates sobre, exatamente, estas mesmas questões que coloquei aqui, pra vocês. Meio briga em família portanto.
Agora, apagando as minhas suposições apressadas, retirando vocês do foco das minhas críticas já que, foi só um meio impertinente de 'cutucá-los', o que vocês acharam das minhas preocupações? Elas procedem? Não tem nadinha ali que possa servir de bom conselho? Nada que renda uma boa e positiva refletida?
E outra coisa, não que vocês precisem me explicar não, mas, afinal de contas, considerando-se que vocês exercem uma atividade artística (e se assinam como um grupo), assim como proposta, no contexto da minha - ou nossa - conversa, o que significa objetivamente 'jornada ao homem coletivo'? Gente de Deus!
Agora esta de 'pesquisador-destemido-e-bem intensionado' (sem ironia) eu gostei. Só não entendi esta onda de 'com um patrocínio da Petrobras'. Como assim? É comigo isto? Ou viajei?
Também sou um militante voluntário por aqui e em todos os lugares onde falo neste assunto. A Petrobras de mim quer distância (sou um chato 'patrulhador', e 'de galochas', esqueceram?)
Isto me cansa também, mas, por enquanto, sou completamente 'zero-oitocentos'. Sou chato, mas sou sincero (e, talvez no fundo, até maneiro).

Foi bem e foi mal.
Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 1/5/2008 21:38
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O Canto do Bode
 

Cont.
negra de outros contextos, embora ligadas ao movimento anti racista, mas aí não seriam música e sim comportamento, ferramenta de discurso, sem valorar aqui por favor a validade de suas intenções, elas estão formal e condicionalmente atreladas ao mercado fonográfico do entretenimento. Então fica difícil entender como são revitalizantes para o seu trabalho que foi tão mais longe. A pouca discografia que você credita ao Vissungos, é no entanto extremamente importante para a gente. Mesmo que apareça nela as influências daquele momento MPB (esse balaio de coisas tão distintas). Chico Rei, O Canto dos Escravos, Clementina, Aniceto e os trabalhadores do Brasil, estão muito além deste balaio. Você sabe bem disso. Mas este assunto complexo necessita mesmo desse revirar de vista.
Não posso dizer, que não me anima qualquer que seja a classe social, aproximar-se, apropriar-se mesmo do que temos de valor, do que nos faz povo, identidade. Penso que talvez os meios de aprofundarmos nesses contextos, conceitos e valores, vai durar pelo menos o tempo que se passou distante deles. Por isso enxergo e posso falar de carteirinha, pois moro numa cidade onde o que convencionamos chamar apropriação indevida, mesmo que crreditada, corre aos ventos soltos, nesse movimento de fluxo cultural, interclasse, intercontexto, uma necessidade natural e que bom que ainda estamos aqui para quem sabe presenciar frutos futuros deste movimento. Não obstante, carecemos de uma política cultural que não venha a tratar nosso patrimônio imaterial (e incluam aí os que ainda cantam em louvor da memória, já que algumas funções dos cantos desapareceram) como mais uma peça do mundo pop, a exemplo do que fizeram com as cegas e se deixar fazem com todos. Isso é a parte mais difícil de tudo. Outra fundamental é dar os créditos, informar, registrar, trazer a tona.
É por aí, errando, acertando e construindo. Quanto a mim só sei que é difícil dizer o que se passa ao cantar o que sinto que posso, sem precisar de uma provável descendência pura. Aliás, outro assunto controverso, ou será que precisaríamos inventar a física quântica da pele brasileira? Porque a minha certamente por algum processo genético tem sangue minerador e Mia Cavalo, como vêem...
E então estamos todos errados e todos certos?
Do Canto do Bode
(desculpem, não queria me identificar pois sou vinculada a uma instituição que promove cultura e onde vocês todos são bem vindos, mas não poderia deixar espaço para que pudessem relacionar minha fala a da empresa, que talvez seja menos “radical” que eu)
Um grande abraço

O Canto do Bode · Recife, PE 24/10/2008 13:49
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O Canto do Bode
 

Peço aos senhores licença e digo de antemão que são todos queridíssimos e que muito me anima este tipo de discussão aqui. Vou dizer primeiro como cheguei até então. Realizando trabalho em uma instituição, relacionado ao setor de educação, uma finalização que se intitula Festival, e pretende trazer uma vivência em música no processo de formação de jovens e adultos, deparei com a tarefa de orientar a composição de melodias para poemas consagrados de autores nossos, entre eles O Navio Negreiro de Castro Alves. Com minha prática de musicista, especialista em Etnomusicologia, recebi com entusiasmo essa turma, que primeiramente, na dificuldade com o material musical só pensava em fazer um Hap.
Eu então um pouco mais interessada na descoberta do Brasil pela classe média e pelo povo excluído, oprimido e destituído dos pacotes de disseminação cultural e auto estima que referenciem nosso Ethos Crioulo, a quem bem entenda o sentido destas duas palavras e da sua junção aqui, fui descobrindo junto a eles delicada e pacientemente outras maneiras de “musicalisar” a métrica do poema, a começar buscando o sentido daquele texto, tentando agregar valores ao imaginário sociocultural de Castro e da realidade histórica da época. Foi quando num segundo momento, trouxeram-me a versão Caetana do referido poema, que tem uma mescla de elementos bem a caráter e pertinente a discussão, mas que não vem ao caso agora, a não ser pelo fato de trazer entre as referências musicais um canto de capoeira, nominado Navio Negreiro. Foi este canto que puxou de minha memória os cantos contidos no “Canto dos escravos”, esse título tão importante na nossa discografia, e de onde, pelo menos eu, conheci Mia Cavalo. Fui então atrás de informações mais consistentes, que pudessem dar aquela turma uma fonte digna e coerente para o início do despertar da manhã da provocação... logo deparei com Aires da Mata Machado Filho e seu livro importantíssimo, relíquias da nossa etnografia, ainda não devidamente ao acesso de todos, mesmo eu “Especialista em Etnomusicologia”.
A primeira questão vai para mim, como então “eu” cuja Monografia tratava de tradições advindas da cultura Banto, não deparei com este livro antes? Sei que posso estar sendo exigente comigo, que navego pelo acervo nordestino, de muitos braços e confluências, mas ainda assim prefiro a auto-exigência. Mia cavalo, por exemplo, também retornou ao meu ouvido num momento surpresa, numa encenação de Gota D’água realizada pela Cia. São Jorge de São Paulo, que a utilizava, a meu ver, bastante coerente, no início do espetáculo, numa espécie de aquecimento energético a imantar o que viria a seguir. Portanto outra oportunidade em que poderia ter ido atrás dos Vissungos que já tinha adiado desde quase uma década atrás, quando tive oportunidade de assistir um concerto pelo Sonora Brasil, cujo programa era Jongos e Vissungos.
Enfim, lá vem Mia cavalo de novo. Salve! Salve todos os cantos de trabalho deste país, que ajudaram a erguer nossa história em todos os sentidos. E aqui começo então minha talvez ingênua e simplista provocação, que já teve início em mim mesmo.
Fiquei muito curiosa Espírito Santo, em saber como era a sonoridade do Vissungos, o seu Vissungos, pois suas colocações ao Bombo de Corda, com as quais inclusive compartilho, pois foram os mesmos conceitos com os quais me deparei ao longo de minha trajetória como compositora, instrumentista e cantora, que me fizeram a partir de 1999, só conseguir produzir música para teatro. Mas a questão ética que não me permite realizar um trabalho simplesmente cantando as músicas do Povo do Brasil ou que não me permitem ainda concretizar uma estética onde eu reconheça realmente uma contribuição significativa ao mar de lugar comum ao qual o mercado fonográfico está associado é nocauteada vibrantemente em ver um grupo com gente nova como o Bombo de Corda, eleborar dentro de um repertório uma versão, cheia de elementos crioulos, vou insistir nessa palavra, crioulo nosso, do Brasil, de Mia Cavalo ou de qualquer outra peça de nosso patrimônio. Digo nosso, porque com todo respeito que tenho por todos os pesquisadores desse país, falar em pureza, em puramente africano, puramente ibérico, puramente indígena, hoje considero um pouco mais que ingenuidade, considero uma certa resistência em aceitar nossa raça, nosso resultado crioulo. Por exemplo, sabemos como a língua de origem bantu sofreu modificações em contato com as línguas “nativas”, e não só ela, isto não está expresso nos Vissungos?
Poderia ainda dizer, que visitando os links sugeridos por você, principalmente o do Vissungos, creio que me deixa um pouco intrigada diante sua postura em relação ao Bombo, o fato por exemplo de você colocar como revitalizante de seu trabalho o Regae, o Rapa, Cidade Negra e outras citadas antes no texto. Formas tão filiadas ao pop, ao enlatado, à subserviência cultural, à rendição da indústria fonográfica e que só serviriam aqui como expressões de outras aliterações da cultura

O Canto do Bode · Recife, PE 24/10/2008 13:51
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O Canto do Bode
 

Desculpa a bagunça, mas deu errado o envio, é a primeira vez que entro num forum.
espero que de qualquer forma tenha contribuido.
Até

O Canto do Bode · Recife, PE 24/10/2008 13:53
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Spírito Santo
 

Canto do Bode,

(Acho chato responder a uma figura assim, anônima, principalmente porque não consigo compreender pra que o anonimato numa hora dessas, quando é exatamente sobre identidade cultural que estamos falando, mas, como estou sendo pessoalmente ‘consultado’, vá lá que seja)

A questão colocada por mim para o Bombo é claríssima: Existe música tradicional (esta que as pessoas fazem há trocentos anos, lá no seu cantinho de sempre, com uma finalidade social geralmente determinada, por força de suas tradições mais remotas, aquela coisa que antigamente se chamava de ‘folclore’, na qual a propriedade intelectual é coletiva, social.

Outra coisa que existe é música popular, aquela que qualquer pessoa, de qualquer meio social ou de qualquer lugar faz, baseada, inspirada ou motivada por qualquer outra música, de qualquer origem, tradicional, erudita, ‘folclórica’, com interesse artístico individual, com finalidades, geralmente, comerciais, ligadas ao mercado fonográfico ou ao chamado show business, ou mesmo a captação de patrocínio institucional, para ganhar uma grana em suma.

Johann Sebastian Bach e Bela Bartok, entre outros eruditos, fizeram grandes obras assim, baseados na música tradicional de seus países. Na nossa música popular, aí perto de você tem um trabalho, para mim genial, chamado ‘Nação Zumbi’. Teve o ‘baião’ do Luiz Gonzaga, a Bossa Nova, muita coisa baseada (e não copiada) de nossa música tradicional.

O que eu, muito a grosso modo colocava lá em cima, é que não se pode (para não ferir a ética vigente para o caso) fazer ‘música popular’ afirmando que se está fazendo ‘música tradicional’, vendendo desta forma gato por lebre, usurpando o lugar de outrem ou, o que é pior, distorcendo, confundindo a informação cultural original contida na manifestação tradicional, privando os manifestantes originais das chances de se expressar e, não raro contribuindo até para a extinção daquele traço cultural que será insubstituível no contexto geral de nossa cultura.

É aquela velha questão do ‘original’ e da ‘cópia’, do ‘cover’, do ‘fake’, do produto pirata enfim, aplicada á música popular. Não se esqueça que vivemos numa sociedade das mais desiguais do planeta, cuja elite cultural gosta de ‘levar vantagem em tudo’. Não somos uma sociedade harmônica e feliz, em nenhum aspecto.

Isto se torna mais grave ainda – e é o caso aqui da nossa conversa- quando a cultura ‘copiada’, é própria de grupos sociais segredadas, social e racialmente, por tanto tempo e sob todos os aspectos, pessoas cuja única riqueza é, exatamente, a força de sua cultura, seu ‘patrimônio imaterial’, um bem que, justamente agora que ‘’entra na moda’, ou passa a ser um ‘bem patrocinável’ pelos MinCs da vida, vira interesse de eventuais aventureiros que dele ‘resolvem lançar mão’.

Era para esta possibilidade (talvez não aplicável ao caso do Bombo), que eu chamava a atenção lá em cima.

(concluo abaixo)

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 24/10/2008 21:41
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Spírito Santo
 

Não é, absolutamente, uma questão de ‘pureza’, não é uma questão, meramente, estética. É uma questão de apropriação indébita mesmo, com todas as letras, apropriação do que a nossa cultura tradicional tem de simbólico, dos direitos artísticos coletivos, da ‘marca’, da personalidade emocional, da alma dos vissungueiros (quase todos mortos aliás) – e jongueiros, e maracatuzeiros, etc. - originais que estou falando, justamente na hora em que os eventuais descendentes, ainda segregados em recantos remotos, passando o ‘pão que o diabo amassou’, poderiam auferir alguma vantagem, mesmo que ainda simbólica, desta onda tradicionalista que assola o país. .

Não há, portanto, nada de ‘étnico’ na questão. Há muito de ‘ético’, isto sim.

Não há também, como você afirma enfaticamente, nenhuma contradição nos links sobre o ‘meu’ Vissungo’. O grupo do qual participei jamais trabalhou com cópia da música tradicional de lugar algum ( e bem que poderia). A recriação, a reinterpretação que fazíamos de pontos de ‘vissungo’ era apenas um dos aspectos estéticos do nosso trabalho que incorporava, sem nenhum preconceito xenófobo, a música negra do mundo inteiro, a partir do conceito de uma cultura da diáspora (além do que abominávamos qualquer posição passadista, conservadora em relação á música pop, por exemplo, mesmo atuando na distante década de 1970).

Não éramos, absolutamente, um grupo que fazia ‘covers’ de folclore (aliás, para fazermos esta releitura, pesquisávamos intensa e profundamente, para entender com que elementos estéticos estaríamos trabalhando, ‘transformando’, de forma livre e criativa, com o fim legítimo de fazer música popular e moderna).

É importante frisar também que trabalhávamos de forma completamente integrada com nossas ‘matrizes’, já que eram na maioria das vezes, matrizes genéticas, firmada nos contatos com parentes, de quem éramos descendentes diretos, nosso próprio meio social e cultural enfim.

Vissungo (a manifestação original), já que você perguntou, é uma remota manifestação musical inteiramente angolana, outrora praticada por escravos e seus descendentes, circunscrita a uma pequena região do Brasil e – reafirmo – uma manifestação rigorosamente extinta, há mais de 20 anos, por aí.)

Esta questão da tradicionalidade étnica’ não pode ser confundida com ‘pureza racial’. O conceito etnia não tem nada a ver, diretamente com raça. O conceito raça e a negação dele sob o pretexto de uma remota e ilusória ‘miscigenação’, são construções meramente racistas, que visam confundir as coisas.

O Brasil é um país racista. Ponto. É por isto que esta tentativa de fazer aqui Cultura negra sem negros me parece oportunista, antiética (aliás, esta diversidade de nossa cultura tão dividida entre supostos brancos e supostos negros, desta diferença de cada macaco (em termos) estar no seu galho, é que nos agiganta, culturalmente, perante o resto do mundo. É o lado bom da coisa.

Você pode fazer o que quiser baseada ou inspirada por vissungos, maracatus, jongos, etc. (só sugiro que aprofunde um pouco a sua pesquisa para não subestimar a complexidade destes gêneros e não fazer deles meros pastiches de folclore para inglês ver).

O que é antiético (pelo menos para mim, repito, pois não existe uma lei, uma proibição contra isto) é sair por aí , como alguns fazem hoje em dia, afirmando que o que faz é ‘Vissungo‘ real, ‘Jongo de veradde’, ‘Maracatu tradicional, ‘de nação’, etc. reinvidicando patrocínio, cobrando cachê, principalmente, quando se trata de gente que não tem nada a ver com aquela ‘outra’ gente que realiza a tradição remota lá no ‘seu cantinho’. Só isto.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 24/10/2008 21:41
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O Canto do Bode
 



Já pedi desculpa quanto a minha identificação, não só a você, a todos que entrarem nesta conversa.

Pensamos da mesma forma, mas não lembrava que o Bombo tinha afirmado estar fazendo música de tradição, vi pelo menos o respeito creditando a origem daquele canto, oferecendo a fonte bibliográfica mais antiga e importante até aqui- aliás, você deveria inclusive publicar, doar ou continuar a sua, a partir do material que você coletou.

A música a serviço do mercado do entretenimento e da indústria fonográfica, da dominação cultural-social-econômica, faz com que todas pareçam um produto de prateleira e que inclusive se copiem tanto e ai de quem não parecer com, e aí, todas as reproduções consentidas.

Villa-Lobos, Guerra-Peixe, Antonio Madureira... Ta, mas o Baião não é de Luiz Gonzaga, ele mostrou lembra? Chico? Genial, até a hora que começaram a achar que a embolada, o coco, o maracatu e que vier, ficaram melhor ou se renovaram com a pitada de hip hop, que pitada não é? Parecida com a do Jazz no samba.

Certíssimo. A ausência dos Mestres e dos portadores da cultura oral tem a ver com da política cultural que me referi e da qual estamos desprovidos, da falta de presença desses conteúdos na escola, do desdém do poder público, e, da exclusão total da difusão desses saberes e dessas manifestações nos meios de comunicação. Mesmo que seja no sentido ritualístico de lembrar os antepassados, de vivenciar afetivamente já que igual aos Vissungos inúmeros outros conjuntos de repertório desapareceram por falta de sua função original, mas que são braços fortes da memória sócio cultural.

Estamos aqui para tentar mudar isso. Vivo procurando no que faço, por isso tanto comedimento. Desigualdade parece um problema da humanidade toda,
todos em algum momento sucumbem à oportunidade de exercer um momento de poder, seja em que circunstância for. Somos, pelo menos eu, trabalhadores de uma busca pelo melhor, pela transformação, só precisamos nos ouvir e nos entender para não fragmentar o que podemos construir e mudar.

Sei muito bem, por conta do meu trabalho, o quanto é difícil trazer esse povo á tona e principalmente manter uma estrutura que reabilite e alimente esses valores, a consciência da importância deles e tudo o mais envolvido. Quanto aos pseudo produtores, que encostam e sempre na melhor das intenções dificultam, interferem diretamente na forma e muitas vezes no conteúdo mesmo, isso na é moda é praga.

Aqui começa a complexidade em questão. Pois desprovidas do intento “malicioso” perdoem o peso da palavra, dos aventureiros, caçadores de “novidades”, aqueles que falam em nome da comunidade/ manifestação cedem muito espaço em favor de promessas que incluem a entrada no mercado fonográfico e/ou show business (coisas para mim incompatíveis com o contexto/ conteúdo/ evento desses patrimônios) o buraco é bem mais fundo e a ética bem mais comprometida com um contexto geral. Simplesmente não tem quem realize trabalho de base, sustentação em diversos âmbitos.
Daí, a questão da difusão, de alguma forma, se vem de grupos externos ao meio de sua produção, colabora para abrir os olhos ou ouvidos. E muitas vezes, colabora com o próprio núcleo de produção da manifestação que em alguns casos assumiu a relação dominadora e foi perdendo a noção de sua importância, substituindo ou mesmo abandonando a memória. Então o problema não é só quem faz, mas também como se faz. O aspecto coletivo, social, vai reverberando com o tempo, através da força que carrega, vai saindo, vai ondeando através do tempo, transpondo as barreiras que queiramos impor.
Pena de quem sucumbir á onda tradicionalista, porque essa onda é gigante e velha, pra frente e pra trás, o movimento dela é outro, não tem nada de morta, nem de estática, nem de eventual, esta onda não tem fim.

Será que todo mundo não já sabe disso? E a solução qual é? Ficar imitando o que a TV, o jornal e a indústria ditam? Se for pra imitar, sinto muito, mas é preferível sim imitar o que me diz respeito, limitar a urbanidade a sua cara de nada ou cara de tudo é pouco. Existe uma brasilidade, existe associações que a identidade cultural não pede licença.

Não falei em contradição, falei em possível equívoco, o parâmetro que você utilizou para questionar o Bombo, com o mesmo questionei o seu trabalho. Mas lembre-se que foi levianamente, pois não tive oportunidade de ouvir. Fiquei com as informações e referências que você registrou lá e não foi só com você, para você, foi para o Bombo também, para um monte de gente. Por exemplo, você fala do acompanhamento da versão Bombo, mas o acompanhamento lá no canto dos escravos também não foge às referências que temos da música afro religiosa que de alguma forma é pertinente que apareça numa leitura deste repertório. Enfim, são vários pontos, várias questões.


continua

O Canto do Bode · Recife, PE 27/10/2008 14:02
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O Canto do Bode
 

Francamente, que bom, fico feliz de poder conhecer sua história tão próxima e apropriada. O que me confunde é se esse fato e sendo você quem é, então diga quem deve se interessar, registrar, pesquisar, aproximar-se, difundir e mostrar, cantar, dar a conhecer a quem não teve a oportunidade. Quem deve fazer ou quem pode? Se você mesmo que registrou alguns desses cantos não publicou. Creio é importante entender as transformações, coletar em outro momento o que ainda existe, fortalecer a memória, conceder a oportunidade de ritualizar a história, os entes passados, a resistência e o trabalho dessas pessoas.

Espírito, rigorosamente extinta, foi a função do garimpo, a função canto talvez não, é muito forte, deixa a gente pensar que ainda tem gente em Minas cantando Vissungos, mesmo que seja pouca, ou que tenha perdido uma boa parte do todo. E assim você subestima uma função essencial dessas músicas que é relembrar, resistir, reafirmar, suceder. Inteiramente angolana quando chegou aqui, depois de algum tempo, foi certamente e consentida mente, por uma necessidade humana, por que é a única raça a qual vale nos referirmos, a humana que é uma só.

Étnica ou Ethos, para mim, no meu discurso, dê licença, não tem as cores no meio não, tem os jeitos, as maneiras, menos tom e mais modos, e se quiser me ligar a algum conceito de miscigenação por favor considere que me refiro ao resultado da confluência destas maneiras, à consumação da mutua interferência, de trocas e assimilações culturais e isso aconteceu e ainda está acontecendo, mesmo que não queiram, mesmo de maneira desigual, mesmo sem perceber.

O Brasil é um país racista e hipócrita, o racismo brasileiro é exercido por todo mundo, por toda raça, porque é fruto do desconhecimento, da opressão sutil e escamoteada do poder que fragmenta o que está a baixo dele. De minha parte sinceramente, preferiria pensar em cultura brasileira, porque ela existe. Influências todo povo colonizado teve, mas na seqüência há um construto que merece respeito e que só pode vingar pela mão da coletividade.
Tudo que você falou lá no último parágrafo é real e verdadeiro, concordo plenamente. Se foi só isso,

Agradeço a atenção, um abraço e me retiro

O Canto do Bode · Recife, PE 27/10/2008 14:04
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Spírito Santo
 

O canto do Bode,

(Mesmo havendo se retirado, você me pediu para explicar algumas coisas, certo? Permita-me então:)
------------
Ora, quem sou eu para dizer ‘quem pode’ isto ou aquilo. Já disse, claramente, que qualquer um pode fazer o que bem entender. Além do mais, jamais afirmei que fui o único a registrar alguns vissungos (registrei apenas um ou dois).

É por demais sabido por todo mundo que estuda o assunto (eu mesmo já disse lá em cima) que quem registrou primeiro foi o grande folclorista mineiro Aires da Mata Machado Filho, mais ou menos por volta de 1928, registrando sua pesquisa num livro famosíssimo chamado ‘ O negro no garimpo em Minas Gerais’.

Já disse também que em 1938, o etnólogo brasileiro Luiz Heitor Correa de Azevedo, a serviço da biblioteca do congresso norte americano registrou dois cantos de Vissungo in loco. Em 1979 o etnólogo austríaco Gerhard Kubik também fez pesquisas de campo na região. Agora mesmo sei de excelentes pesquisas e teses sendo realizadas sobre o tema no âmbito da UFMG e por outros pesquisadores, cineastas inclusive, um dos quais, coincidentemente, me consultou por e.mail há uma semana atrás.

O tema é público e notório, portanto. O que não falta é fonte para se pesquisar e se aprofundar sobre um assunto.

Os vissungos – a manifestação em sua função original - estão extintos sim. Resta um ou outro cantador com alguns cantos na memória. Enquanto durou, foi uma manifestação de escravos trazidos á força de Angola para cá. É, pois uma manifestação musical especificamente angolana, cantada exclusivamente em idioma típico de Angola, com algumas poucas expressões em dialeto ‘crioulo’, ou seja, com apenas alguns vocábulos (e não gramática e semântica, bem entendido) assimilados do português, não necessariamente, diga-se de passagem, aqui no Brasil. Isto é um fato antropológico indiscutível.

As manifestações culturais são reflexo do que as pessoas são. Venham elas de onde vierem, a cultura delas não se transforma assim, tão facilmente, em contato com a outra. (no caso dos vissungos é bom se ressaltar inclusive que nem sequer contato com outra cultura houve, de nenhuma espécie já que as relações interpessoais no regime de trabalho escravo nas minas de ouro e diamante, por razões óbvias, não envolviam contato cultural com portugueses, brancos e, em sua maioria, feitores e senhores proprietários).

O passado delas, destas pessoas, como de quaisquer outras é sempre simbólico, viaja com elas porque diz respeito á alma delas e, por isto ele é indelével, no tempo, mesmo quando não o é no espaço. É óbvio também que as culturas, como as pessoas que a exercem, também morrem, naturalmente, se acabam. Geralmente se transformam em outra coisa.

Logo, não estou subestimando nada. Só constatando. É da vida. Honestamente, me surpreende muito que você se incomode tanto que assim seja mesmo sem ter elemento algum, nenhuma base consistente para questionar.

Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 27/10/2008 18:06
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O Canto do Bode
 

Eu não tenho base mas é você que faz de conta que não leu direito o que escrevi, inclusive repetindo coisas que eu disse ou substituindo pelo que você quer, por exemplo que você foi o único que recolheu Vissungos: paciência... Também não entenda minhas colocações e inquietações como perguntas ou consultas. Semana que vem, estarei aí no Rio a cavalo, quer dizer, a trabalho. Quem sabe em algum momento não nos cruzamos nesse mundo over e aí dependendo do espírito eu humildemente me apresento. Quanto ao meu incômodo, vai ver que eu também tenho alma e que ela viaja indelével no tempo e no espaço, com direitos inimagináveis e completamente fora do seu alcance, completamente ilógica, desmedida, cuja base nem eu sei.
Ah! Já que você tomou tudo pra si, devo desculpas ao Bombo e também devo dizer que dei meu voto com a crença nos caminhos, numa mão que leva à outra, nas descobertas, no mergulho e no respeito ao que nos fizer sentir em comum.
Minha última gratitude

O Canto do Bode · Recife, PE 27/10/2008 21:41
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Spírito Santo
 

???????????

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 27/10/2008 22:57
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Spírito Santo
 

O Canto do Bode,

(Em tempo)

Das duas últimas falas suas, perdi a penúltima (o programa do site me lança diretamente na última postagem). Lendo agora o início da fala, ela me pareceu muito esclarecedora sobre coisas relevantes contidas na nossa divergência (que agora me pareceu bem menor e mais clara)

Então, realmente, por conta disto e, logicamente, sem querer, eu admito que não li direito (inteiro) o que você falou e isto insejou na minha resposta uma enfatização desnecessária de coisas que já havia dito respondendo assim a questionamentos que você nem chegou a fazer. A parte que faltou (a que eu nã li antes), fez uma falta enorme a compreensão e à clareza das suas colocações, com as quais concordo em grande parte.

O que fica de divergente talvez seja puramente ideológico e para ficar mais claro e afinado, só se a gente conversasse pessoalmente um dia, talvez em breve.
Fico aguardando a chance.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 28/10/2008 09:58
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Spírito Santo
 

Atenção!

Se alguém deste debate ainda estiver interessado neste assunto, aproveite: Acabo de voltar do ôco deste mundo (coletando vissungos hoje, in loco) e estou contando pra quem quiser o que vi (e concluí por lá) neste post.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 19/1/2009 18:52
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Marquinho Garcia
 

Olá Spirito Santo. Muito salutar este debate e mais ainda sua instigação pelo misterio dos vissungos. Quero saber mais. Abraço

Marquinho Garcia · Brasília, DF 6/2/2009 18:41
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Spírito Santo
 

Marquinhos e todo mundo,

Acabo de voltar de uma viagem fantástica para prosseguir a minha pesquisa de campo sobre este assunto. Fiz um longo relato ( em tr~es partes)sobre o tema (que aliás, me foi 'cobrado' há tempos por alguém aqui deste mesmo forum), com todas as minhas conclusões atualizadas por muita pesquisa (que vão ajudar a entender bem melhor a natureza de todo o debate que rolou aqui).
Gostaria muito que vocês lessem e comentassem lá neste endereço (estou pensando em um dia publicar aqui também)

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 6/2/2009 19:45
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Marquinho Garcia
 

Eita Spírito Santo, escrevi a vera num post anterior e el se perdeu nas infovias desconhecidas de meu laptop abarrotado... Bem, estive por aquelas bandas do Milho Verde há uns três anos atrás em missão oficial pelo Iphan/MinC e pude verificar e levantar superficalmente alguns dos nós que você foi até o ôco. Bem, gostaria de interlucutar mais sobre o assunto. Se puderes me contactar pelo e-mail: marcusvcgarcia@gmail.com tamos aí. Sucesso na elaboração do filme mais que necessário. Abraço.

Marquinho Garcia · Brasília, DF 9/2/2009 23:30
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Spírito Santo
 

Marcus,

Bacana!
Vamos conversar sim. É fundamental que se converse sobre estas coisas que, no que diz respeito a natureza dos 'nós', são bem importantes e urgentes.
Vamos lá, por e.mail então.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 10/2/2009 08:45
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Marquinho Garcia
 

Olá Spirito Santo, sabe o que toda esta história da Lapa do Makemba me lembra? "El reino de este Mundo" de Alejo Carpentier, romance que inaugura o realismo fantástico en nuestra américa. Conta entre outros aspectos as desventuras do brujo Makendal no contexto da revolução haitiana. será que é possível algumas correspondências? Vá saber... Abraço.

Marquinho Garcia · Brasília, DF 12/2/2009 17:14
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Spírito Santo
 

Marquinhos,

Pois é isto mesmo. Este livro é um arraso e me inspira muito, até hoje.
Makandal fez uma revolta química, parecida com os também míticos ataques de antraz dos terroristas muçulmanos de nossa era.
Você lembrou muito bem. As correspondências são totais.

Me lembro que Makandal 'desapareceu' no meio da fumaça da fogueira em que iam queimá-lo. Deve haver lendas dele na América central inteiar, até hoje. Deve ser irmão (conterrâneo) do Makemba
Saberemos um dia, com certeza.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 12/2/2009 22:54
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Spírito Santo
 

(Explicando para quem não leu o livro do cubano Alejo Carpentier : 'A revolta química' do Mackandal, a que me refiro é a seguinte: Em vez de se rebelar contra os escravagistas (Haiti) com armas flechas lanças, mosquetes, etc. como um quilombola comum, Makandal usou a sua larga experiência de feiticeiro no preparo de poções venenosas. espalhou pela colônia outros quilombolas como emissários da morte. Escravos domésticos, mancomunados com os quilombolas de Mackandal contaminaram a água que os brancos bebiam e mataram centenas de senhores de escravos e suas famílias.

A Revolta química' do Mackandal no Haiti colonial deve ter tido um impacto tão terrível quanto o ataque às duas torres em Nova York
Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 13/2/2009 08:17
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