MILAGRE DA SANTA
Interessei-me por Santa Edwirges, a padroeira dos pobres e endividados — cuja data é comemorada em 16 de outubro — por uma coincidência ou uma graça. Quem tem liberdade para fazer esse julgamento é o leitor, segundo sua devoção.
Eu vivia as aflições da pindaíba que obriga o brasileiro ao exercício do famigerado ‘jeitinho’, que sempre se revela um gastar debalde de forças e um inútil exercício mental em busca de uma vantagem que nunca vem. Fracassada também essa última tentativa de conseguir um trocado, entreguei-me ao ócio analisando com olhos argutos os movimentos da vizinhança. Procurava entender como aquela gente pobre que nem Jó conseguia comer, pagar suas contas, sorrir, enfrentar ônibus lotado a semana inteira para o trabalho e por ainda achar isso pouco, tomar ônibus lotado também nos finais de semana para ir ao estádio assistir clássicos de futebol entre o time do seu coração e o maior rival.
Na tarde do dia 15 de outubro eu experimentava o desânimo que mina as forças dos ‘durangos kids’. Encostado ao peitoril da minúscula janela de meu barraco, ouvia por empréstimo a música sertaneja que vazava as finas paredes do barraco ao lado. Na mesma hora dona Josefina subia cansada a ladeira íngreme da rua estreita; vi primeiro aparecer a sombrinha — como um espectro de vida própria —, depois a cabeça gorducha, os seios fartos no vestido florido, as ancas nédias que alimentavam os suspiros apaixonados de outro vizinho — o Zé Guarda, e, por último, as pernas curtas completando o corpo balofo e sem graça.
Ela suava muito pelo esforço de vir desde o ponto de ônibus no asfalto lá embaixo, subindo ladeiras e zigue-zagueando por becos estreitos e imundos. Contudo jamais perdia a alegria — singularidade conservada a despeito de também ser fiel de Santa Edwirges. Aliás, vim saber de sua devoção quando se aproximou de mim naquela tarde: “Boa tarde, seu Custódio”. Como cortesia nunca custou dinheiro, retribuí: “Boa, dona Josefina, vem do trabalho?” Ela parou, respirou fundo acusando o esforço da subida e o peso excessivo do corpo, e respondeu: “Sim, mas amanhã já pedi folga, vou à igreja”. Pressagiando que pobre só procura hospital e igreja em casos extremos, atentei curioso: “Alguma missa para um finado?”. Ela sorriu, mostrando que também seu sorriso era excessivo: “Não, vou à missa na igreja de Santa Edwirges. Não conhece a padroeira de gente como nós, os devedores? Vá, reze, peça uma graça e será atendido. Eu quero retirar meu nome da lista negra do SPC, vou pedir isso a ela”. Não pus fé na conversa, mas não a contrariei: “Me alerte amanhã, que vou com a senhora”.
E ela não esqueceu.
No dia seguinte bateu à minha porta bem cedo, com um toque firme de cobrador decidido a qualquer parada, que me assustou. Pela fresta da porta vi seu corpo volumoso bloqueando a saída. Por incrível que pareça, suspirei aliviado. “Vamos?”, disse ela. “Vamos”, obedeci.
A igreja estava repleta de gente de rosto grave. Devedores empedernidos como eu e dona Josefina. Senti alívio imediato pelo infortúnio compartilhado. Era gente de classes sociais diferentes, mas todos devedores. Ninguém escondia o rosto, pois sabia que o próximo era um igual. Havia médicos, advogados, corretores da bolsa de valores, donas-de-casa, garçons, aposentados e desempregados como eu. Cada qual com sua dívida, grande ou pequena, porém insolúvel.
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Maravilha de texto, JJ. Li com muito prazer. Fiquei só com um boba dúvida: Aqui no Rio a gente fala sempre Santa Edwiges, sem o 'r'. É o nome real da figura (emboar tenha umas pessoas aqui que também falam com 'r').Você vai ter que fazer uma opção, pelo menos para o título (que é você mesmo falando)
Parabéns e grande abraço,
Opss...Não tem o nome da Santa no título. Fica a sugestão para as partes do narrador então.
Abs
Na realidade, Spirito Santo há as duas grafias. Por um acaso optei pelo nome com R. Acho que essa confusão se deve ao fato de ser um nome estrangeiro, alemão, causando essa confisão toda.
Bom que tenha gostado. Um grande abraço.
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jjLeandro
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Então isto aí. Boa sorte na votação então.
Abs
jjLeandro,
Acredito que seja EDWIGES sem o R. Bem, é assim que é escrito em orações que tenho. rs
Se a Santa Edwiges abrir o leque para os que estão em débito com Deus, questões sociais e coisa e tal, a Santa vai ver as igrejas lotadas... rs
Parabéns!
Marluce
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