MINOTAUROS
Caio Fernando de Abreu, o autor genialmente infame de “Morangos Mofados”, morou com um Dragão. Ou melhor: recebia repetidas visitas que cheiravam a alecrim e hortelã. E não foram nem más nem boas as línguas que me disseram, foi a dele mesmo.
Dragões eu não conheci, convivi com um seu primo mais acidental, o Minotauro.
Ao contrário dos Dragões, os Minotauros nunca vão à casa de ninguém. Estão sempre encerrados em apartamentos labirínticos. De lá só saem para confundir. Cheiram à terra úmida de orvalho, trazem na pele a fúria primitiva do amanhecer. Não são nem belos nem louros, são Minotauros.
Sexo também não possuem, fazem. E bem. Tanto quanto qualquer outra divindade fértil. É possível identificar sua presença a quilômetros de distância pelo caminhar de semideus. Possuem olhos mansos em rostos monumentais. Cabelos são variados como manchas no pelo.
Não caçam fora do labirinto, porém uma vez dentro, será impossível encontrar a saída. Existe o caso isolado de Teseu e seu barbante. Mas quem deu a idéia foi Ariadne, e Ariadnes estão extintas hoje em dia, infelizmente para os Teseus remanescentes.
Não há como diferenciá-los de outros seres, mesmo dos humanos. Adaptam-se a qualquer natureza com sua pureza brutal; de certo pelo seu todo dúbio. Alimentam-se de flores, ervas e carne fresca. São encantadoramente gentis, gostam de dar e receber presentes. Geralmente tem um bom lado artístico desenvolvido, utilizando-se deste como melancólico hobby. Importantíssimo: nunca prometem nada para que assim juremos o mundo.
A história com a raça é uma série de curtas metragens. Ainda não se sabe se de boa ou má qualidade. Para entes não sobrenaturais como nós, é com certeza uma dádiva e um karma, como todas estórias entre Deuses e homens.
Nunca têm irmãos, tão pouco filhos. Todas as mães morrem no parto de Minotauros, porém sobrevivem as suas mortes. Outro efeito Minotauro: o tempo passa a correr cronologicamente ligado à vontade deles.
Para estar próximo (é inconcebível conquistá-los) siga a seguinte receita: primeiro namore seus castelos e observe pacientemente o ir e vir do corpo taurino. Um dia ele surge no meio da noite. Não perca tempo, permita-se ser atacado, pois aí está um segredo: a força de um Minotauro sempre diminui à luz do sol, talvez por se alimentarem dela. Depois do feitiço em andamento, peça, alucinado, para conhecer o labirinto. Use sua criatividade para ser convidado. Diga-lhe que está curioso pela sua coleção de cd’s (sempre imperdíveis) ou apenas quer ver o sol nascer, afinal Minotauros se divertem com propostas românticas. Uma vez ao lado do mito, guarde seus anjos, questione seus arcanjos e instigue serafins. Uma última dica: Minotauros decoram seus quartos com nossas emoções. Conheci um, em especial, que era pródigo... Bem, do feitiço ao encantamento é um lapso, por isso aproveite tudo com tudo do pouco tempo que já resta.
De repente, sem qualquer espécie de aviso, o planeta treme sob sua fúria tesa e você percebe a lua por sobre os muros. Ordem de despejo sem justa causa. Resta, então, a escolha. Alguns vão por aí a procurar gnomos e sereias. Estas últimas pelo menos nos cantam e vivem no mundo duplo do mar. Minotauros desconhecem oceanos e seus poderes.
Minotauros urram baixo. Seu mugido reverbera no que é intenso como um trovão aprisionado. Treme-se tanto por dentro que acabamos por ansiar a liberdade do labirinto, aquele cheiro na roupa de chuva rala e terra arada... Miojo com leite às duas da madrugada.
No caso de contrair Minotauros, a fuga é uma passagem inútil, sempre retornamos como Ulisses à Penélope, com a diferença de outro final. Minotauros governam suas moradas, paredes com portas que dão para janelas. Preocupam-se apenas com sua manada. De novo entre seus objetos não sabem perdoar...
Brilhante crônica. Conheço um Minotauro que vai adorar lê-lo.
Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 12/12/2006 13:59
Que delícia que você leu e curtiu, esse texto tem história de monte e compartilhar é um presente...
Bia Marques · Campo Grande, MS 12/12/2006 16:24
Um belo conto o seu “Minotauros”. Algumas frases que pincei são irretocáveis: “Sobram poemas roubados e uma leveza incomoda na cama. Restam pêlos trançados, memórias dilaceradas delicadamente”; e “Dizem jamais, mas jamais falam”. Um texto delicada e sutilmente erótico. Sem reparos.
Só duas correções de grafia: o tão pouco (em “nunca têm irmãos, tão pouco filhos. Todas as mães morrem no parto de”) deve ser substituído por tampouco. E o plural da abreviatura de compact disc não cd’s mas cds. Esta forma com apóstrofo não existe em português.
Grande Luca!
Gostei da sua fotografia...
Bia,
preciso falar com vc.Fone?
Abraços
Luca, grata mesmo, tenho uma cagueira gramatical que me faz esses tropeços... Arlindo te mando mail com meus fones.
Bia Marques · Campo Grande, MS 14/12/2006 15:49
Bia, maravilhosa crôncia. e sim conversa com Centauro-Caravela
Ps: coloquei o link na nossa linha de provocação. Tipo: que de quinta categoria comentar e chamr link kkkkkkk
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