- E é isso que acontece ... Não é que eu queira desobedecer mamãe ou papai, maninho, mas eu acho que eles nunca vão entender, num é mesmo ?
- Eu acho é que você só de pirraça não quer obedecer eles. Custa fazer a vontade, que é que tem, meu querido ? Cê tem que gostar deles, sempre.
- Por mim, eu só ficava é por aqui, brincando com você, sabe ? Não aquelas brincadeiras chatas que eles querem que eu faça com os outros meninos, ou ainda conversar com o padre, a benzedeira, ou um qualquer que apareça ...
- Não fala assim, meu Miudinho. Tu sabe que entre a gente não tem frescura, é jogo aberto. Mas que tu deve de obedecer eles, deve ...
- Mas se eles num quiserem que eu me encontre mais contigo, que qui eu faço ?
- Não leva a coisa tão a sério, Miudinho, que tu bem sabe que eu e você somos irmãos, isso é coisa de Deus. Não é vontade alheia que separa, e como te disse, não custa nada fazer a vontade de mamãe mais papai ...
- Ih, até você cum essas conversa ? Tudo bem, pois de ti, eu guento ... Mas tu não acha que eles tão ficando muito impressionado cum esse negócio de religião, de acreditar em monte de coisa esquisita ? Pois que não foram eles mesmo que falaram aquele monte de coisa ... que era pra gente pensar sempre em viver bem, viver feliz, com pé no chão, e tocar nossas vida ? E agora vêm eles cum essa conversa fora de hora, monte de coisa qui num entendo ...
- Pois é, maninho, mas tu tem que considerar que mamãe tá muito abalada, foi muito recente pra ela, o acidente e tudo mais ...
- Num quero falar disso. Se continuar, eu vou embora !
- Deixa de ser teimoso. Sempre que nós tamo junto tu quer desviar a conversa desse assunto. Tu não repara que é isso mesmo que faz eles tá desse jeito ? Eles porque não têm outro assunto, e tu porque foge da conversa que nem diabo da cruz.
- E lá vem você com essa conversa de religião de novo, que eu num gosto. Já basta aquele padreco me dizendo o que devo e o que num devo fazer ...
- Não fala assim do padre Amaro, que é uma criatura de Deus, homem muito bom.
- Só porque falou no teu nome um monte de vez ontem, na missa ...
- Não é nada disso, Miudinho, tu sabe que eu nem sei direito no que acreditar, mas sei quando uma pessoa é boa ou não, principalmente agora. Dá pra separar quem é que gosta da gente de verdade de quem só quer se aproveitar da situação. Aquela velha esquisita, que mamãe enfiou dentro de casa ... eu falo pra ti não discutir com ela, finge que concorda com tudo e até que gosta dela. Ela não vale muita coisa, fala pelos cotovelos e fica gritando aquelas palavras esquisitas, fingindo que tá me vendo e ouvindo.
- Eu sei, bem sei de tudo isso, pois na última vez ela corria, corria , e gritava, mas ia pro outro lado, não o lado que tu tava. Me deu uma baita vontade de rir.
- Tu não aprende, Miudinho, às vezes a gente tem que fingir. Só quando é pro bem. Tu sabe que quando eu acordei naquele dia achei tudo muito esquisito, encontrei um monte de gente diferente, mas fingia que nem via, sabe por quê ? Ficavam me azucrinando, Miudinho, e eu nem sabia o que eles tavam fazendo aqui nas nossas terras. Fiquei uma arara, sabia ? Até pensei em avisar mamãe e papai, mas depois deixei pra lá. Vez em quando eles voltam, mas nem ligo. Agora mesmo tem um atrás de você, me fazendo sinal e careta !
- Ai, maninho, tá falando sério ?
- Brincadeira, queria só ver o que tu ia falar.
- Num brinca com essas coisa que eu num gosto, já te falei ?
- Tu morre de medo, não é ? Morre de medo que nem todo mundo ...
- Tenho medo não, porque se tivesse num tava aqui falando contigo !
- Mas eu sou teu irmão, num vale. Queria vê com gente estranha .
- Aí tu tá pedindo demais.
- Tá bom, Miudinho, tudo bem. Tô só implicando, meu querido. Agora se prepara, que o padre Amaro tá vindo aí.
- Como é que tu sabe ?
- Não acredita mais em mim ? Só digo que eu sei, e pronto.
- Que droga, mais um sermão ! Num guento mais.
- Fala baixo, finge que tu tava falando com Deus, rezando, sei lá. Senão é pior. Será que tu nunca vai aprender ? Tu quer ou não quer que a gente continue se vendo ?
- Eu quero sim, maninho, porque acho que não ia conseguir viver sem você ...
- Deixa disso, que até me dá vontade de chorar. Pois eu não sempre que te protegi, desde pequenininho ?
- ...
- Que foi ?
- Nada, num sabia que tu chorava também aí do outro lado, que nem nós.
- É tudo igual, Miudinho, tudo igual. Pouca coisa muda, só o peso da gente ... Agora vou embora porque tenho que procurar alguma coisa pra comer.
- E porque não comeu o milho e o pão que te trouxe outro dia ?
- Depois te explico, depois te explico. A minha fome agora é diferente, e a comida também é, irmãozinho... Vem cá, me dá um beijo de despedida.
- Despedida por quê ? Quer dizer que tu num volta ? Faz isso não, quem vai tomar conta de mim ?
- Volto sim, só não sei quando, por isso quero tá sempre me despedindo. Assim, a gente já vai se preparando. Porque também um dia, tu tem que saber, tu vai precisar andar sozinho por essa vida.
- Por que tem que ser assim ? Eu num quero ...
- Porque num tem jeito. E vê se deixa de choro, que eu gosto de te ver sorrindo. Não esquece, destrata o padre não, é boa gente.
- Eu sei ...
- Fica com Deus, Miudinho. Beija mamãe e papai por mim.
Puta que pariu! (com o perdão da expressão)
Muito bom, tô lacrimejando aqui. MUITO MUITO bom!
Abri o overmundo pra 'ler algo' e 'matar tempo' até dar a minha hora de ir embora, e me deparo com isso. Maravilhoso!
Meus Parabéns!
Nossa André... mto bom mesmo....
Gosto da forma como escreve!!
Depois volto
Bj!
Muito tocante, sem exagero a gente fica com os olhos marejados!!!
sheila duarte · São Paulo, SP 14/4/2009 00:10
André
Comovente texto
quando a união é forte demais,
nem a morte separa
bjs
"Vem cá, me dá um beijo de despedida.
- Despedida por quê ? Quer dizer que tu num volta ? Faz isso não, quem vai tomar conta de mim ?
- Volto sim, só não sei quando, por isso quero tá sempre me despedindo. Assim, a gente já vai se preparando. "
Ai, André, não tem coisa mais doída que despedida... Sabe que horas são agora ? 00:19hs... Isso não é hora de chorar... lindo demais, lindo demais...
beijo e parabéns pelo livro...
Pat ( votado, é claro!!!)
Votei com prazer em A JANGADA... mas esse nao me levou
a lugar algum....achei tao sem proposito.
voto, pq vc sabe que te acredito.
bjsssss;)
Muito bem estruturado, André.
Repleto de leveza e imaginação
Deixo meus votos e parabéns pelo livro.
Adorei !
Prefiro acreditar que é assim ![:)]
oiii André...
Esse conto mexe com nosso emocional, de algum modo, com maior ou menor 'paranormalidade'...
Votado!
AbraSSos aMigos,
ZecaFeliz
gaDs!
Não é só emocional, tem uma mensagem, um aprendizado
adorei
andre
Parabéns pelo belo texto!
Um abraço!
Que a luz esteja com você.
o que, para mim,
s mostra resplandecente nesta prosa
fantástica é a aforça do amor fraternal:
seja imaginário ou não.
também a crítica á sociedade por
ela nos forçar a usar a hipocrisia
como um mecanismo de proteção
é genial. além disso, esta atmosfera de de mistério
e dor causada por uma tragédia latente
enriquece o texto.
enfim, um excelente conto.
André,
Ficou muito bom.
Votado.
Arimatéia.
Já te disse que sou fã dos teus escritos né?
Com esse texto não poderia ser diferente!
Um beijo e aproveite para conhecer meu novo poema de amor
http://www.overmundo.com.br/banco/arrivederci-despedida
Olá André!
Seu texto pegou fundo na emoção. Lindo texto. Os elos do amor são muito mais fortes do que pensamos. Ultrapassam o terreno. É paranormal. É além disso aqui que vemos. É o que sentimos. Lindo mesmo. Emocionou.
Votado!
Parabéns!
Com carinho,
Patty
Que chique! Um texto inteiro numa única cena. É muito....muito teatral!
camuccelli · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2009 16:43
Exeleente, André!
Você descreve a realidade e não o imaginário. Apesar das dimensões diferentes os sentimentos continuam nos unindo ou desunindo e o contato que você descreve com maestria é plenamente possível desde que o "encarnado" tenha a sua sensibilidade aberta para o "lado de lá".
Parabéns!
Abraços
André,
Achei muito emocionante e bem narrado.
Abs
um texto ótimo, parabéns.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 19/4/2009 18:18André, muito bom! È assim que acontece, claro para quem acredita! Independente da crença de cada um, em relação à sua narrativa, gosto da forma que escreve me sinto inserida na cena. Esses seus detalhes são impecáveis em sua fantástica narrativa. Parabéns! Bjs.
Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 19/4/2009 22:41
Rapaz, tá muito bacana. Bem sutil sem ser simplista. Bem emocionante sem ser piegas.
Ref · Maricá, RJ 21/4/2009 13:07Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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