Preto e bem engraxado. O guri me cobrou $10 pelo serviço e eu tinha cobrado $15 num brechó. Meu companheiro mais fiel. Não precisava de animal de extimação nem televisão, nem qualquer outra distração: eu estava bem com eles quando chegava em casa e ficava admirando aquele lindo par de mocassins. Me acalmava. Brilhavam.
-Eu te amo.
-Quem me ama?
Em casa só estávamos eu e o mocassim doutor, quem mais me amaria?
-Eu te amo.
-Quem é?
-Eu.
-Não, eu te amo mais que ele!
Não, não bebo doutor. Não, também não uso drogas. Nem cigarro eu fumo doutor, porque isso está acontecendo comigo, Doutor!
O doutor balançou a cabeça. Comecei a ir desde que os sapatos começaram a falar que me amavam e o Doutor só balançava a cabeça.
-Eu te amo!
-Eu também!
-O que está acontecendo aqui?
-Eu te amo tanto.
O outro retruca com voz melancólica e chorosa.
-Eu também
-Cale-se e morra!
O pé direito foi esfaqueado, Doutor. O pé direito foi assassinado pelo pé esquerdo doutor!
-Tu conversa com eles, quero dizer, você responde?
-Não. Mas eles me amam.
A secretária do psicólogo grita na sala de espera. O doutor levanta pra ver o que aconteceu. A secretária desmaiada: era o pé esquerdo entrando no consultório.
-Chame a polícia! – disse o doutor.
-Me deixa entrar, eu te amo! Eu te amo!
-Vou distraí-lo, chame a polícia.
O doutor deixa o mocassim entrar.
-Quem é esse? –perguntou o mocassim.
-É uma alucinação fingindo ser meu psicólogo. É um estereótipo do homem ausente, perturbado e arrogante. Tenho medo dele.
O Doutor manda eu me calar e fica distraindo o mocassim enquanto a policial reanimava a secretária:
-Eu te amo?
-Não.
-Tá, vou verificar o que está acontecendo na sala. Com licença.
A secretária chorava e a policial falava no rádio.
-Central, os elementos se comportam de modo caótico. Meu coração está em pedaços, ela não me ama e tenho medo de ser feliz. O que foi feito dos sonhos da minha juventude, câmbio?
-Aqui é central. Sonhos? Tu chama de sonhos aquele monte de crediários, carnês, boletos bancários e promissórias de sonhos? São estes os teus sonhos, câmbio?
-Sim. Câmbio.
-Então joguei tudo no lixo. Câmbio.
O mocassim beijava minha boca com entrega e eu lutando contra isso. O doutor lambia as paredes. A secretária pegou o controle do ar condicionado. E nos avisou:
-A hora acabou. Morram todos.
Todos responderam positivamente e morremos. Todos. Ela pegou o rádio da policial e comunicou a central:
-Eu disse todos! Câmbio.
-Tá. Câmbio desligo...
A secretária tirou o disfarce. Era a mulher que me vendeu o mocassim. Tinha sido amor à primeira vista.
Grande Enio, texto riquíssimo.
Traduz a percepção poéica de um grande escritor. Parabéns. Ainda em Edição, ponha foto pertinente, para ilustrar mais o grande texto que é. Abçs. Benny.
é útil, está votado...
Uma sugestão:
se nós que estamos na fila, votarmos uns nos outros, claro, se gostarmos do post, continuaremos no orvermudo... eu votei no seu..
meu post é OFF SILENCE....
Abráços.
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