Mamãe procura a felicidade que não teve em meio a papéis amarelados e cartas arranhadas. Perdoa-se em novelas carregadas de histerismo.
Gostaria que lesse, que soubesse clássicos russos, que cozinhasse. Mas não compartilhamos sequer o formato do nariz.
Acostumei-me com sua alegre ignorância de folhetins, às meias palavras trocadas sobre o tempo e sobre o que eu gostaria de comer no almoço.
Mamãe procura a felicidade em novos cortes de cabelo. Tinge-os semanalmente, alisa-os para depois enrola-los. Seca. Tenta encontrar os fios que a acompanhavam na adolescência. Encontra rugas e arrependimentos.
Mamãe se arrasta num sábado, metida em uma camisola preta que contrasta com sua brancura de paredes. E eu fujo em domingos, ocupando-me com inutilidades. Não me recordo a última vez em que trocamos dias da semana.
Ela me estende o café cheio de açúcar, com sua mão fria e magra. Aceito sem palavras. Eu que as tenho infinitamente coladas à carne, como que tatuadas por todo o corpo.
Contaria tudo se pudesse. Sobre meus livros, minhas listas, as coisas que guardo em caixas dentro de gavetas. Até sobre o amor que não tenho. Mas é tudo inútil. Aprendemos a conversar sem o uso de linguagens, sem a necessidade de gestos, sem o arroubo de gordas lágrimas. Apenas fingimos não ver.
Mamãe aceita meu silêncio com uma valentia que só posso enxergar com amor. Enfrenta com bravura os estrangeirismos que nos cercam e veste de preces.
Mamãe reza e eu escrevo. Acho que ambas gostamos de monólogos.
Um agradecimento aos cafés cheios de açúcar
Gaita, bom dia.
Com o meu pai ocorria o mesmo.
A diferença é que meu pai era um mundano,
tinha muitas coisas para contar, mas não contava.
Nós ávidos de saber e ele fingindo-se sem sabedoria
para partilhar. Um duro duelo sempre travar assunto com meu pai.
Então ele vencia, porque nós sempre desistíamos de dar mais um passo na direção temerosa e muda dele.
Quando enfim ele quis nos escutar já éramos adultos
e tínhamos os nossos próprios mundos sem sabedorias.
A minha mãe também apenas rezava e reza por todas as imposições divinas até que ele - meu pai - morreu, e ela continua rezando, era curiosa mas a "Amélia" a sugou, e ela escravizou-se em ser apenas resignada ao Homem e à Deus. Amém para os nossos pais, porque estou aprendendo que cada um tem a sua própria maneira de amar, e parabéns por esse teu monólogo, adorei e adoro monólogos, e esse teu me soou quase familiar, percebeu?
Um abraço e obrigado por ter me levado pela mão em palavras de carne e alma.
Gaitha,
Reflexões sobre a relação parental, no caso a materna, bem descrita, de forma limpa e clara. Acho que muitos senão todos experimentam essa discrepância de comunicação. Dois pólos distintos, não há como ter comunicação além da de gestos, como comenta em seu texto, e a verborragia fica presa aos poros, do que se queria compartilhar e não pode, não seria produtivo ou até não conseguiria existir.
O final é muito belo, dadas ao monólogo, convivem e se amam, mãe e filha congeladas num retrato de letras...
Parabéns, meus votos e um bjo.
Interessante esse convívio, esse amor que em cada uma se expressa de uma forma diferente, mas não deixa de ser amor.
Beijo.
VC é mae? Ainda naum, pelo q me parece. Mas mae naum eh gente. Eh ser. Ah como gostaria q ela fizesse tudo o q naum pude fazer e ser. Mas lea se contenta com tao pouco!... E vc se contenta ao máximo qdo ela oferta amor através de uma caneca de café com muito acucar. Um dia vc naum mais terá caneca, cafe nem acucar... nem mãe... Nesse dia nso sentimos tao pequenos e nos damos conta de que estas mães "ordinárias " eram tao grandes!!!
bjao pra vc e lindo texto. Amei, de verdade.
abcs
Queridos, obrigada pelas palavras que vocês todos se preocuparam em me destinar.
Abraao, Cristiano, Sônia e Nic, valeu pelos comentários.
Nic, não sou mãe, mas um dia quero ser. Por isso, preocupo-me tanto em analisar essa minha relação com ela e então melhora-la.
=)
Um beijo,
Gaitha , o que signifca este nome em japones?
Por favor me responda urgente a mensagem q enviei p vc.
abcs
Gaitha, não tente nem se mudar, nem mudar a sua mãe, vocês se completam, como duas sucessivas gerações mais a próxima que certamente virá !
Tanto é difícil para você compreender certas posturas de sua mãe, como certamente será pra ela compreender as suas e isso as unirá em torno de uma "coexistência pacífica", que gerará uma maravilhosa harmonia.
Sou suspeito pra dizer isso, pode parecer que eu só este4ja esperando as próximas histórias que advirão daí !
CEM ANOS DE IMIGRAÇÃO JAPONESA, ao vivo e em cores pra todos nós, gosto de ser teu amigo, me orgulho muito de seu povo pela força e pujança de terem saído derrotados de guerras, com uma população numerosa e hoje detendo importantes posições pelo mundo afora, vocês são um exemplo pra nós, que Deus ilumine e guarde por muitos e muitos anos o seu lar, com a sua mãe, vovcê e todos que os constituem !
Esse patrimônio não tem preço !
Salve o Japão !
Salve o Brasil !
Um beijo !
Gaita,
Tudo do Japão é admirável, arquitetura,culinária,MEDICINA,filosofia de vida, moda, nossa amo
o PAIS
votado
Claudia Almeida
Gaitha, alimentou minha alma. Um grande beijo e parabéns.
Luiz Carvalho · São Paulo, SP 18/6/2008 19:35
Gostei muito mesmo. Votei.
mas...não dá para quebrar o silênci ao menos prá pedir um pouco menos de açúcar?
Aqui deixo meus votos e meu carinho.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 18/6/2008 21:03
Meus votos! muito lindo! Parabéns
beijos poéticos!
Gostei muito desse monologo, de quem na verdade se comunicam pela alma e coração. Votado.
Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 19/6/2008 02:22
alcanu e cláudia, agradeço os elogios, mas mamãe é coreana. o que talvez torne a nossa relação mais difícil, visto que a nossa imigração acabou de completar 45 anos.
luiz, doces palavras... =)
flam, estou tentando diariamente. e clara, obrigada! de coração.
falcão e bethânia, obrigada também.
adorei os comentários!
um beijo!
Gaitha, que coisa linda. Sem mais palavras. Paz!
Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 21/6/2008 13:00Vai, fala com ela, qualquer coisa boba! Vale a pena, voce vai ver...
victorvapf · Belo Horizonte, MG 15/8/2008 18:13Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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