Morada
costuro a linha delgada de um corpo,
cosendo entre os dedos a invenção da vereda.
há varandas donde sobe-se à ventura de
vestir-se, num balanço que pulsa em flancos,
da altura do que podem as mãos e o olfato.
delineio um corpo denso e leve, com miríades de
espaços, micro caves onde abrigo os farelos
da semente, entre dentes que não rangem.
ouço a sede dos estreitos, leio a curva dos
esgarços mergulhados em estrelas que, já
mortas, deixam lá sua lâmina clara.
este corpo, imensado na fazenda lívida do que
engendro em mãos fabris, resolve ser
um prado, um mínimo arbusto, um busto mineral,
peito líquido de onda marinha, sarça que
baila e arde, marfim e óxido da tarde sobre
os olhos meus que descansam pardos.
sei que tardo em ter-te, sombra morada.
a vela que bruxuleia sobre o caminho que
leva ao nome, é o que indicia o vento, a
fome do ar que o fogo tem.
corpo que em vento desfaz-se, veloz campanário
reduz-se a cetim imaginário, fantasma que aperta
à roda o pulso... e lateja. veja que não medro,
à guisa de ciranda, habitar-te clandestino, até
que a estopa bêbada do desatino me lance,
flambada, à morada de asa ::
Roberoto, roberto... e que morada! essa é uma morda para se enchergar, depois ver, depois bater na porta, depois pedir licença, depois entrar, depois sentar-se e só depois conhecer...
vou voltar pra reler, reler, pode ir fazendo o café. um abraço, magnifica capacidade de ajustar pensamento às palavras.
E essa rima riquissima por dentro, quase involuntária, deixando livre a observação do leito. Magnifíco e raro. andre
este corpo, imensado na fazenda lívida do que
engendro em mãos fabris, resolve ser
um prado, um mínimo arbusto, um busto mineral,
Muito rico teu poema, na rima, nos sentimentos de a a z, enfim amor.
Barbaro.Volto.
abç
muito bom, Renato. poema repleto de nuances densos, entremeados com momentos líricos ao extremo. excelente!!!
abraços,
Costumo torcer o nariz para poemas que não têm pontuação ou letras maiúsculas no início das frases. Já não poderei mais fazê-lo! Você me "roubou" o prazer de falar mal de um ou outro verso, por questões meramente gramaticais.
Teu poema é RENDA suave, tecida com esmêro em noite de lua cheia... é o sopro noturno do vento nos cochichando versos, nos devolvendo esperanças perdidas. E bailam seus líricos cantos em todos os cantos de nosso cérebro, nos entontecendo de prazer.
PUTA QUE PARIU... faz muito tempo que não vejo/leio um poeta tão genuinamente genial como V. o foi nesta... MORADA.
Volto pra votar neste Renato, de tantos outros Renatos (meu irmão gêmeo, inclusive, e R, Gusmão, que admiro!) que fazem de Belém terra de poemas/poetas/poesias. AVE, RENATO TORRES !
Nato já disse tudo!
Dou Graças que em Belém do Pará os Poetas são como Alfinetes Mangueirícios:
Dão bons frutos a cada esquina central.
Parabéns, Mano Renato,
A gente amadurece a cada parto poético...
Abraços,
Benny Franklin.
Nunca li tão perfeita e bela descrição de todos os sentimentos, o corpo, "cetim imaginário", o seu, o outro, todos os corpos em versos, corpo rimando, esplêndida morada.
Minhas reverências.
beijos
"sarça que baila e arde"...são assim seus versos...
Lindo,lindo!
Abraços.
É isso, Renato!!!
Nossa morada está sim em nossa cabeça!
Que comanda as mãos, que desenha vereda,
varandas, onde há balanço e um corpo em que meus olhos descansam...
Bela morada, Renato!!!!!
Parabéns...
voltarei votarei
moraria aí se fosse o caso
Renato, não encontro palavras para expressar toda a beleza do teu poema. Morada sacrossanta, abrasadora, regida e inundada de amor.
Maravilhoso!
olá andré,
um poema pode ser uma morada, sim, talvez transitória, quiçá definitiva - passei anos a fio morando dentro de certos poemas de alberto caeiro, drummond e gullar... um poema é também um corpo feito a semióticas, a imagerie semântica que despreza invólucros permanentes. a coisa da rima que apontas é uma espécie de técnica autóctone, uma coisa que sempre esteve aí,e eu nunca tinha prestado atenção. daí talvez essa sensação de que se faça sem querer, como dizes. já preparo o café, vestido com esse corpo de roberto que me deste - pura licença poética, claro...;)
abraços,
r
oi cíntia,
é mesmo curioso para mim que este poema desvende tanto amor, como disseste. quando o fiz, não pensava em estar escrevendo algo amoroso, mas o poema atesta isso, sim. fico imensamente grato em saber que este amor chegou até os olhos de quem o leu.
beijo,
r
olá marcos,
este lirismo, veja só... é uma espécie de vício tácito, mano. é meio como uma maldição, só que transmutada pelo fragor de batalhas ininterruptas com a palavra. às vezes, em meio ao sangue, surgem coisas assim. sabes bem como é, né? é claro que sabes. sempre fico feliz com tuas visitas e comentários, valeu.
abraços,
r
RENATO,
que morada mais linda, mais cheia de imagens e de palavras tão bem usadas e ousadas. Parabéns!
Abraços de Betha.
Vim votar e "morar" nesta bela redoma de versos.
beijos
Renato
desculpe-me a demora em visitar sua morada, repleta de imagens fantásticas e com ritmo alucinantemente forte, como em:
sei que tardo em ter-te, sombra morada.
a vela que bruxuleia sobre o caminho que
leva ao nome é o que indicia o vento, a
fome do ar que o fogo tem.
Adorei. Li, reli e votei e votaria de novo fosse isso possível Parabéns, amigo.
Abraços.
Renato.
Teus versos, mano Renato, são como os ventos muito fortes que depois de suas caminhadas sempre deixam um resto de dor, aflição, vida, pesadelos e sonhos, e o mais importante, mesmo escondidas, numa vereda, deixam as digitais do amor.
Parabéns, irmão.
Noélio Mello
Projeto para a um fim de semana intenso e gostoso: ler Renato Torres sozinho em voz alta em galpão abandonado na beira da estrada Belém-Mosqueiro até perder a voz... gravar tudo. Ouvir em casa bebendo vinho na penumbra da varanda.
Setembro virá. E com ele a possibilidade de mais celebrações furiosas!!!
Obrigada pelo convite a tua morada... não só esse para ver o poema, mas aquele que me fizeste dia 22 de fevereiro...
não preciso nem falar nada sobre o poema, ele diz sua própria fala, ele vive, ele ama... ele é! cometar o quê?
flor
mano nato,
...porque é assim, somos irmãos de nascença na poesia, na escritura, no olho do nome. e porque tinhas de ser mesmo roubado por alguém. afinal, um homem roubado nunca se engana, como em chico science. eu vibrei muito com o teu comentário, e dei uma gargalhada com o teu PUTA QUE PARIU (acho que ninguém sabe dizer palavrões como nós, paraenses!... é uma coisa inexplicável... rsrs). essa coisa de escrever sempre em minúsculas foi se fazendo em mim meio como uma preguiça do rigor técnico, e acabou virando marca. assim será também quando, um dia, eu publicar um livro. é assim que saem as letras nos cds do clepsidra. morada é um poema encomendado, veja só você, mano!... pra um projeto que nem chegou a acontecer... mas o poema aconteceu.
abraços cheios da mais pura alegria,
r
mano benny,
belém é mesmo uma riqueza, tão vilipendiada, tão saqueada... mas é, sem dúvida, uma riqueza. e principalmente de gente, eu diria. aqui eu aprendi tudo o que sei, e há tanto que não sei...! mas as esquinas que me pariram não foram as centrais... foram as suburbanas, as do guamá, meu mano! ;)
abraços,
r
saramar,
o corpo da gente é um mistério que nunca desvendaremos por completo, né? o mais perfeito presente, a inteireza natural e bem-aventurosa de ser-se... e tão pouco sabemos, e tanto mal fazemos a ele... sempre feliz em vires habitar esses meus pequenos corpos de palavra.
beijos,
r
ô cris!
tanto quis saber o que achastes dessa morada...! mas fico grato em merecer teu voto, de todo modo.
beijo,
r
lígia, mana,
mais do que a certeza dos oito votos, me alegra mesmo é saber-te próxima, a ler-me. valeu.
beijo,
r
linney,
sempre adorei essa imagem da sarça ardente... talvez seja uma das melhores lembranças que guardo de meus tempos de catecismo...;)
legal demais ter a tua leitura e comentário!
abraços,
r
mano rangel,
oh, sim! ter um corpo onde nossos olhos descansem... que bela quimera!... sabes, quando escrevi morada não pensei num corpo em particular, nem mesmo no meu próprio. tentei escrever livremente sobre o tema corpo. talvez isso tenha dado ao texto uma amplitude significativa tão diversa, como provam os comentários aqui registrados.
abraços!
r
senhorita miller,
se este aí for este poema, fique absolutamente à vontade!... é esta, talvez, uma das intenções ocultas dele, à minha revelia. de saber-te a voltar e votar, fico imensamente agradecido. e repito: a casa é sua... pode entrar.
beijo,
r
menina brigitte,
que coisa mais linda o teu comentário! pleno de uma reação imediata, pura, e reveladora. o corpo tem mesmo essa coisa dúbia, entre o sacrossanto (templo) e o abrasador (o corpo é uma festa, diria o eduardo galeano). quando minha amiga karina zimerer, fotógrafa, me pediu pra escrever um poema sobre o corpo, baseado em uma de suas fotos (não, não tenho a foto aqui! se tivesse, a postaria com certeza) não imaginava os alcances que o resultado desse escrutínio poético proporcionariam. estou em êxtase!
beijo,
r
oi betha,
esta morada está aberta, minha amiga: sinta-se em casa. ou sinta-se, casa.
beijo!
r
rangel e saramar,
louvores e calores de hospedarias equatoriais a vocês dois!
abraço e beijo,
r
mano nivaldo,
sem carecer desculpar, digo-te que a morada está, como já dito, aberta, sempre. por vezes penso, como no trecho que destacaste, que este poema fala mesmo é de um salto para uma morada etérica, esta que possivelmente o corpo físico espelha... mas não sei. é como uma digressão sobre estes dinamismos análogos da própria natureza, o vento, o fogo, a sombra. ficamos sempre sem saber ao certo, né? mas de incertezas também se faz poesia.
abraços,
r
roberta,
muito boa é também a tua presença... obrigado por vir!
beijo,
r
Companheiro, não sou letrado, dizem que poeta não precisa ser letrado, mas isso também não sou. Agora, farejo como um bicho do mato as coisas maravilhosas dos Brasis, torneado por oceano, floresta, cerrado, agreste, gente, preto, branco e tudo junto que faz essa MORADA coisa de um BRASIL sedento de coisa boa. Parabens Torres. Ufa!
De Merireu...
Mano, não voltei para votar, parafrasendo a Andre Gonçalves, meu conterrâneo, soberbo na pena, "votei para voltar". Na iminência de perdê-lo de vistas, estou copiando, para ficar. Um abraço, Roberto.
Andre Pessego · São Paulo, SP 7/8/2007 05:04
O Nato Azevedo disse tudo. Que RENDA a morada da sua poesia! Que delicadeza de bordado, que avesso perfeito, que sonho! Que etérea viagem pelo reino profundo das suas palavras sublimando nossa ânsia de asas! Meu corpo ficou mais leve e a minha alma mais livre depois de voejar pelas trilhas desse lirismo cósmico de sua (re) fazenda poética. Poeta bom é aquele que pega a gente por todos os sentidos - até por aqueles que ainda não desenvolvemos - e nos transforma em morada cativa de suas palavras. Eis aqui minha alma, uma morada acolhedora para as suas palavras essenciais, que me fazem voar...
Abraços.
OI amigo renato,
sou um grande admirador dos teus poemas por tanto, meus sinceros aplausos por este magnífico trabalho. Desculpe a minha demora mas eu andei muito ocupado ultimamente. Abraços.
Carlos Magno.
manoélio,
versos são como ventos... sim! esta é uma verdade sem tempo, mano. agrada-me saber que esse meu tempo não meu ecoa em ti os seus sopros...
abraços!
r
mano valério!
estar incluso num programa teu é, no mínimo, uma honra!... ainda quero as gravinas daquela nossa artimanha maldita do waldeco, mano... e claro! em setembro, mais artesanato furioso!
abraços,
r
florzinha,
minha morada é tua, minha casa, nua, minha asa escura e clara. o corpo fala, sabes.
beijos,
r
cíntia,
bacana teres voltado, e votado...
beijos,
r
merireu,
mano... letrado é quem tem letra pra usar, né? e usaste as tuas muito bem, creio eu...! agora, se falas dessa coisa estranha, de se ter que ser erudito, aí tudo perde o prumo! estamos em outro tempo, e é preciso acreditar, creio eu, que a arte deve servir a quem precise dela, e não apenas a alguns supostos (e suspeitos) eleitos. o alcance que temos de sua dádiva depende de diligência, foco, e muito trabalho.
obrigado pela leitura e pelo teu gostar! espero
merireu,
mano... letrado é quem tem letra pra usar, né? e usaste as tuas muito bem, creio eu...! agora, se falas dessa coisa estranha, de se ter que ser erudito, aí tudo perde o prumo! estamos em outro tempo, e é preciso acreditar, creio eu, que a arte deve servir a quem precise dela, e não apenas a alguns supostos (e suspeitos) eleitos. o alcance que temos de sua dádiva depende de diligência, foco, e muito trabalho.
obrigado pela leitura e pelo teu gostar! espero que aprecie outros textos que já postei cá no overmundo.
abraços,
r
andré,
para não perder de vista os textos não seria melhor baixá-los e arquivá-los? em tempo: de onde tiraste esse roberto, homem de deus? rsrs
abraços,
r
cida...
que delícia é ler os teus comentários! chego a ansiá-los, juro! peço desculpas por ter demorado a responder-te, e aos outros... estive muito ocupado, sem tempo pra net. essa coisa dos poemas morarem na gente é fascinante... e fico lisonjeado de que minhas palavras tenham o teto morno de sua mais singela atenção, minha amiga.
beijos,
r
olá carlos!
imagine! sei bem o que é estar ocupado, mano... creio que alguns devem ficar imaginando por que eu sumo de vez em quando, demoro a postar coisas... é trabalho! rsrs... mas o importante é que continuemos a manter esse diálogo fecundo de invenções e sensibilidades.
abraços!
r
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