Moral riscada

1
cavalo_na_chuva · São Paulo, SP
7/3/2006 · 35 · 9
 

A pichação é um câncer urbano que está longe da cura. Surtos de revolta fazem a sociedade, hipocritamente preocupada com a poluição das cidades, discutir o assunto. O embate proposto pelas populações contra os pichadores fica apenas com a vaga idéia de que alguma providência deve ser tomada e esquece que a publicidade também contribui nessa sujeira toda. A discussão não vai além da redundância e ninguém busca a raiz do problema. Enquanto isso, os pichadores escrevem suas histórias onde bem entendem.

O caos instaurado pelos anarquistas do spray é elogiável. Uma encenação real e espontânea da teoria proposta pelo livro Taz, do autor Hakim Bey. Na era “sem terra incógnita, sem fronteiras”, os pichadores criam dentro das cidades espaços regidos pela liberdade. (Os nervos de pessoas lesadas por pichadores devem estar vertendo adrenalina com essa afirmação).

Por regra, a sociedade tem aversão a transgressões que ameaçam à cultura. A pichação é uma delas. O ato de riscar a arquitetura urbana vai contra as regras de higiene e senso estético. Do lado dos pichadores, uma inquietação de cidadão rejeitado faz a legislação ser infringida. A sociedade se sente vítima do vandalismo dos pichadores, e estes, por sua vez, vítimas da sociedade. Quem exclui e rejeita as margens das cidades torna-se mocinho na guerra iconográfica imposta pela lei do spray. A razão fica na gangorra: de um lado, os excluídos pichadores, do outro, cidadãos conservadores de cânones que só enxergam um lado.

“Toda experimentação dadaísta não foi feita com o objetivo nem de descobrir nem de destruir o significado, mas de criá-lo.” A frase de Hakim Bey é iluminadora. A revolução através do spray vai além do vandalismo gratuito e questiona a exclusão social. Resta a sociedade culta perceber isso e propor um debate consciente.

compartilhe



informações

Autoria
Marcelo do Amaral
Downloads
232 downloads

comentários feed

+ comentar
vertov
 

Certo Marcelo, mas qual seria a forma de se equilibrar esta balança livre de utopias urbanas de thomas morus e outros idealizadores de uma cidade perfeita?

Vivemos em um país com uma enorme dívida social, que vem dos tempos da colonização. A sociedade é culpada sim por não criar, adotar e/ou participar de projetos inclusivos ou educacionais. Que passos podemos dar juntos? Sem vislumbres ou uto

vertov · Cachoeira do Sul, RS 7/3/2006 21:12
sua opinião: subir
cavalo_na_chuva
 

Vertov, seguinte. Com o texto, não proponho a discussão para uma cidade perfeita e muito menos a criação de projetos de inclusão. pois, até hoje, qualquer projeto desse gênero funcionou mais como uma ferramenta de controle da revolta social que de educação(para quem?). As vítimas estão dos dois lados, a sujeira é para todos. Porém, através de mídias e suposições de organizações de bairro e subpref

cavalo_na_chuva · São Paulo, SP 7/3/2006 22:39
sua opinião: subir
Michelm
 

"O caos instaurado pelos anarquistas do spray é elogiável"
Há muito tempo não lia uma besteira tão grande.

Michelm · Rio de Janeiro, RJ 10/3/2006 02:34
sua opinião: subir
F Santos
 

Eu concordo com o texto e acho que a pichação é reflexo das mazelas da nossa sociedade hipócrita que acha que paredes limpas trazem dignidade!

F Santos · Jacareí, SP 10/3/2006 10:25
sua opinião: subir
Viktor Chagas
 

Prezados, a discussão está ótima! Gosto do foro de comentários justamente por isso. Mas, Real Abstrato, que tal postar esse texto na seção de textos não-ficção? Abração...

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 14/3/2006 09:54
sua opinião: subir
Kaf
 

achei interessante levantar a questao da inclusao ou exclusao dos pixadores e o poder do spray, mas nao no meu muro, onde eu tenho o direito de colocar o que quero&059; do contrario, me sinto um excluido. até uma parede branca tem a sua mensagem.

Kaf · São Paulo, SP 31/3/2006 15:25
sua opinião: subir
queluz
 

Ah!!!!!!!!! Para com isso.
Muita acepsia para os porcos, só muita higiene haverá de cura-los! psicanalise de almanaque não é profilaxia para a miséria. Depois do delito só polícia e justiça antes podemos pensar em inclusão depois do crime não!

queluz · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2006 12:08
sua opinião: subir
Renata Furigo
 

Não acho que as pessoas possam fazer o que quiserem com seus muros, pelo menos na face voltada para a cidade. Senão, poluição por poluição, pichação e publicidade são a mesma coisa.
Por outro lado, muitos lugares fora do Brasil, que não tem problemas de exclusão social, tem seus monumentos e muros pichados. A proporção é menor, mas pode-se, a partir disso questionar essa relação pobreza - vandalismo. Talvez os jovens precisem ter acesso a coisas mais interessantes do que músicas babacas nas rádios FM, filmes idiotas da TV e escolas sujas e sem vida.

Renata Furigo · Moji Mirim, SP 18/4/2006 23:02
sua opinião: subir
Aniello Parziale
 

A pixação é um fato social. Em São Paulo há grupos que já têm 20 anos de pixo. Vocês já imaginaram isso. Não são como no texto diz que os pixadores são "cidadãos rejeitados" pois há alguns que trabalham até na Bolsa de Valores.

Creio que seja opção de vida por que pagar quase R$10,00 numa lata spray não é estar marginalizado culturamente

Na minha humilde opinião é opção de vida

Aniello Parziale · São Paulo, SP 26/4/2006 16:43
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
doc, 21 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados